Falta de punição no trânsito do DF é herança política

Cidade se orgulha de respeitar faixa de pedestre, mas motoristas que matam se livram de penas mais duras

João Domingos, O Estadao de S.Paulo

13 Outubro 2007 | 00h00

Por trás do orgulho de ser uma das poucas cidades do País a respeitarem a faixa de pedestre, Brasília carrega a vergonha da impunidade de motoristas que atropelam, aleijam, matam. Não fosse por um único caso em que o Ministério Público conseguiu transformar o atropelamento seguido de morte em crime doloso (com intenção), até hoje os julgamentos de acidentes de trânsito com morte na capital seriam todos iguais, com penas de prestação de serviços comunitários e distribuição de cestas básicas. Algo que faz parte de uma cultura que remonta à época da ditadura. No dia 6, o professor de Educação Física Paulo César Timponi disputava um racha sobre a Ponte JK, cartão-postal de Brasília, quando seu Golf bateu na traseira de um Corolla. O carro foi jogado na pista contrária. Altair Barreto de Paiva, de 53 anos, Antonia Maria de Vasconcelos, de 34, e Cíntia dos Santos, também de 34, que estavam no banco de trás do Corolla, e não usavam o cinto de segurança, foram atiradas para fora do veículo. Morreram no local. A placa do Golf foi anotada. Logo, a polícia o encontrou, já na garagem de Timponi, num condomínio a 5 quilômetros dali. O motorista havia fugido. No carro, havia cocaína, maconha, uísque e cerveja. Timponi já se envolveu em tráfico de drogas e receptação. Ele se entregou na terça-feira e foi indiciado por crime doloso. Poderá ser julgado pelo Tribunal do Júri. Há um precedente. Em junho de 1999, o estudante Carlos Augusto Dias Lins, conhecido por Kadu, pegou a bicicleta e foi a uma videolocadora no Lago Norte. Como não há ciclovia, foi pelo acostamento. Acabou atropelado por Rodrigo Lima Padilha, de 29 anos, que tirava racha a 155 quilômetros por hora com Paulo Rogério Vieira, de 31. O Ministério Público conseguiu levá-los ao Tribunal do Júri. Foram condenados por assassinato pelo juiz João Marcos Guimarães Silva: Rodrigo a 7 anos de reclusão; Paulo Rogério, a 6. Recorreram ao Tribunal de Justiça. Aguardam o julgamento do recurso em liberdade. Em outros casos de assassinatos por imprudência no trânsito, a pena foi sempre a de prestação de serviços comunitários. Um exemplo é Fabrício Klein, que em 1996, aos 18 anos, atropelou e matou Elias Barboza de Oliveira Júnior, de 24, pedreiro, na pista principal do Lago Norte. Fabrício foi condenado a prestar serviços à comunidade por dois anos. Na hora do atropelamento, ele estava com o pai, Odacir Klein, então ministro dos Transportes. Os dois vinham de um churrasco no Clube do Congresso e não prestaram socorro à vítima. Após o acidente, Klein pediu demissão. ORIGEM A cultura da impunidade no trânsito em Brasília é uma herança política. Filhos de senadores, deputados, ministros de governo e tribunais superiores, de oficiais, generais e outras pessoas poderosas costumavam fazer pegas nas ruas da capital, principalmente durante o regime militar. Se alguém os importunava, davam carteirada. Envolviam-se também em outros crimes, como o assassinato da menina Ana Lídia, que acabou por levar a sociedade a se mobilizar contra a impunidade. Hoje, o principal parque da cidade leva o nome da garota. "A impunidade é uma das principais causas de acidentes", diz Davi Duarte, professor de Segurança de Trânsito da Universidade de Brasília (UnB). "Também contribuem para os acidentes graves as pistas longas, que levam a pessoa a se acostumar com a velocidade e a pisar mais fundo no acelerador." Para ele, a fiscalização é falha, o que aumenta a sensação da impunidade. "Há também falhas nos inquéritos, nas perícias, nos processos, o que acaba por contribuir ainda mais com a impunidade, porque os advogados se agarram a esses erros. Ninguém vai para a cadeia. No máximo, a pena é a distribuição de cestas básicas", afirma Duarte.

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