Falta de servidor deixa ex-diretor de Bangu sem escolta, diz PM

Coronel da polícia e ex-secretário de Unidades Prisionais falou que Lourenço não recusou proteção do Estado

Talita Figueiredo, O Estado de S.Paulo

24 Outubro 2008 | 18h30

O ex-diretor da penitenciária de segurança máxima Bangu 3, na zona oeste do Rio, tenente-coronel PM José Roberto do Amaral Lourenço, assassinado com mais de 60 tiros no último dia 16, não rejeitou escolta da Secretaria de Administração Penitenciária, mas estava sem segurança e sem motorista há três meses por falta de servidores para ocupar esses cargos. A afirmação é do ex-subsecretário das Unidades Prisionais do Rio, coronel PM Francisco Spargoli, em depoimento nesta sexta-feira, 24, na audiência pública organizada pelas comissões de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania e de Segurança Pública da Assembléia Legislativa do Rio. "Se ele tivesse carro blindado e escolta, poderia se defender, já que era experiente", disse Spargoli.   Veja também: Investigações da morte de diretor de Bangu não avançam Secretário faz críticas à falta de segurança na Av. Brasil, no Rio Diretor de Bangu 3 é enterrado; agentes contradizem Beltrame Sete diretores foram mortos em 8 anos      Em seu depoimento, Spargoli afirmou ainda que Lourenço também não tinha armamento apropriado para se defender de uma possível emboscada - usava apenas uma escopeta velha. "Tem diretor que nem motorista tem. Nenhum carro é blindado e a segurança é zero", afirmou. O coronel não soube dizer o motivo da retirada da escolta de Lourenço, mas afirmou que não foi por recusa de Lourenço. Ele revelou ainda que nos últimos meses, dois motoristas que prestavam serviço para o ex-diretor do presídio pediram demissão. Um deles teria pedido baixa para fazer um curso e o outro teria justificado a saída em razão do excesso de horas de serviço - em média 16 horas por dia.   Spargoli confirmou que Lourenço não havia feito relatos de possíveis ameaças, mas que pretendia deixar o comando do presídio para voltar à Polícia Militar. Para ele, a morte do diretor foi encomendada pelo Comando Vermelho. No dia seguinte à morte de Lourenço, a Justiça determinou a transferência de dois presos de Bangu 3 para o presídio federal de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, por causa de "fortes indícios no envolvimento deles no assassinato do diretor do presídio". O pedido de transferência de Adair Marlon Duarte, conhecido como Aldair da Mangueira, e Ronaldo Pinto Lima Silva, conhecido como Ronaldinho Tabajara, foi feito pelo governo do Estado. Bangu 3 concentra os criminosos mais perigosos do Comando Vermelho.   O secretário de Administração Penitenciária, César Monteiro, que havia afirmado que o ex-diretor recusara escolta, foi convidado para a audiência, mas não compareceu. Logo depois da audiência, os deputados votaram pela convocação de Monteiro para comparecer à casa no próximo dia 31. "Recebemos um fax ontem do secretário, no qual ele, sem justificativas, avisava que não compareceria. Conversamos por telefone e ele disse já conversou com o governador (Sérgio Cabral) e que vai tentar providenciar carros blindados para os diretores de presídio", relatou o deputado Marcelo Freixo (PSOL), vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj.   Freixo, que antes de entrar para o legislativo atuava em ONGs que acompanham o sistema penitenciário, afirmou que os problemas nos presídios são muito antigos. "Não é algo novo, deste governo. Nenhum diretor tem proteção, não há política penitenciária no Estado e os agentes trabalham sem a mínima estrutura. Os diretores dos presídios são administradores do caos completo", afirmou. Até a noite de ontem, Monteiro não havia se pronunciado a respeito das afirmações de Spargoli,, que foi demitido dois dias depois do assassinato, por supostas divergências com o secretário.

Mais conteúdo sobre:
Bangu 3 Rio de Janeiro polícia diretor

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.