Falta de sócios breca investimentos

De acordo com sindicato, reajustes das mensalidades abaixo da inflação também dificultam melhorias

Edison Veiga e Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2009 | 00h00

A dificuldade em conseguir novos sócios tem funcionado como uma bola de neve e engessado os clubes na hora de investir em novidades. Com a perda de 2 milhões de sócios nos últimos anos, nem mesmo a tradição e a história têm sido suficientes para atrair novos interessados. "A manutenção vem sendo feita", pondera o presidente do Sindicato dos Clubes do Estado (Sindiclube), Armando Perez Maria. "O problema é que não sobra para comprar equipamentos e investir em modernização."Integrantes de clubes tradicionais, como a Sociedade Harmonia de Tênis, nos Jardins, um dos mais exclusivos da capital, já reclamam na internet de que há poucos instrutores na academia e de que a quadra precisa de reformas urgentes. No Club Athletico Paulistano, também nos Jardins, os sócios mais antigos se revoltaram no fim do ano passado quando souberam que o salão nobre abrigaria um show "popular" do sambista Zeca Pagodinho. Em outros lugares, modalidades esportivas mais caras e menos populares podem ser canceladas em prol de atividades mais lucrativas e menos dispendiosas, como natação e academia de ginástica. De acordo com Perez Maria, há ainda o problema do reajuste das mensalidades - que muitas vezes ultrapassam os R$ 400 e acabam saindo mais caras do que um plano completo em uma academia top da capital. "No início do ano, por exemplo, o Paulistano reajustou em 5% suas taxas de manutenção", conta. "Menos do que a inflação do último ano (de 5,9%)." Pelo raciocínio de Perez Maria, isso significa que cada vez sobra menos para investimentos reais em novidades.NOVOS SÓCIOSHá, claro, um grande número de paulistanos que não mede esforços para se filiar aos clubes de São Paulo. Mariana Botelho de Souza, de 36 anos, por exemplo, que trabalha no mercado financeiro, não pensou duas vezes em pagar mais de R$ 20 mil no ano passado para entrar no Esporte Clube Pinheiros. Seus filhos, André, de 11 anos, e Gabriel, de 17, agora mal têm tempo para tantas atividades. "O Gabriel faz academia, natação, além de participar dos eventos e tomar sol na piscina", conta, orgulhosa. "O André gosta de fazer futebol e de ir à natação. Eles ainda estão fazendo amigos, se enturmando."Mariana e seu marido escolheram o Pinheiros por já conhecerem a estrutura do local. Para eles, nem mesmo as superacademias ou os parques públicos servem de alternativa para quem quer ter a tranquilidade de frequentar um espaço como o Pinheiros. "As academias, por exemplo, por mais que tenham mil atividades, não são voltadas para as crianças", argumenta. "E no clube você pode largar as crianças, sabendo que ali as pessoas têm o mesmo nível. Não é a mesma coisa que soltar no shopping. Ali no Eldorado, por exemplo, tem um ponto de ônibus bem do lado, então mistura, né?"Para a administradora de empresas Renata Mancini, de 34 anos, a segurança dos filhos também foi o fator mais importante na escolha do clube - há um ano ela integra o quadro de sócios do Paineiras do Morumby. "É como um shopping, mas extremamente mais seguro", diz. "Minhas filhas, Julia e Laura, de 9 e 7 anos, gostam muito de nado sincronizado e o Paineiras é um dos melhores locais para a prática desse esporte. Posso soltar as duas no clube, ir fazer academia e não me preocupar com segurança."CRISE?A presidente da Associação de Clubes Esportivos e Sócio Culturais de São Paulo (Acesc), Sileni Monteiro de Arruda Rolla, dá de ombros para a crise. "Com ela, quer lugar melhor para melhorar o estado de espírito que o clube?", afirma a também presidente do Paineiras do Morumby. "O nosso associado faz o seguinte raciocínio: vou cortar o supérfluo, como a viagem de meu filho ao exterior, mas manter a escola e o clube." O presidente de A Hebraica, Raul Sarhan, apela para outros argumentos para cativar os associados. "É preciso lembrar que o clube é uma comunidade, é onde a sociedade se encontra", frisa. Para alguns, o status não tem preço.

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