DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

Edison Veiga e Rodrigo Burgarelli, O Estado de S. Paulo

07 Março 2017 | 03h00

Faltam 2,5 milhões de mulheres pretas e pardas no Brasil. Esse é o número total de brasileiras que deveriam deixar de se declarar brancas para que, estatisticamente, os números retratassem a mesma proporção racial dos homens. Como é o próprio indivíduo que declara ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a cor de sua pele, os dados revelam que na verdade as brasileiras têm mais dificuldade em se identificar como pretas e pardas do que os brasileiros.

Recorte feito pelo Estadão Dados nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) mostra que, historicamente, as mulheres declararam ser mais brancas que o sexo oposto. Essa diferença se manteve mesmo durante o impressionante crescimento do número de brasileiros que afirmava ser pardo ou preto na última década – a proporção subiu de 45% para 55% de 2001 para 2015, data da última pesquisa. Hoje, 53% das mulheres se declaram não brancas, ante quase 56% dos homens. 

Essa diferença de quase 3% pode parecer pequena, mas impressiona quando traduzida para números absolutos. Se as mulheres declarassem a raça do mesmo jeito que os homens, seriam ao menos 2 milhões pardas e 500 mil pretas a mais na população brasileira. A estimativa é conservadora, pois, como a probabilidade de nascerem homens e mulheres é a mesma dentro de uma mesma raça e a mortalidade de homens não brancos é mais alta do que a de brancos, o esperado seria que a proporção de pretas e pardas entre as mulheres fosse ainda maior. 

“A comparação é interessante, e eu não conheço estudos que falem da diferença por sexo na classificação por cor ou raça”, diz o pesquisador da Coordenação de População e Indicadores Sociais do IBGE Leonardo Athias. Ou, em outras palavras: não há pesquisa suficiente no Brasil para conseguir entender exatamente porque as mulheres parecem ter tendência de se imaginarem, na média, mais brancas do que são.

A literatura acadêmica sobre a declaração racial no Brasil ganhou corpo na última década, quando o número de brasileiros declarados não brancos aumentou de maneira consistente. O crescimento acentuado, principalmente em faixas etárias mais altas, deixou pouca dúvida sobre sua origem: o que estava mudando não era a cor de pele dos brasileiros, mas sim como eles se veem e de qual raça dizem ser.

Questão cultural. Outros dados da Pnad dão algumas pistas na direção de que a principal explicação para a diferença desse processo entre homens e mulheres é também cultural. Em Estados do Norte e do Nordeste como Rondônia, Piauí, Roraima e Bahia, é praticamente igual a proporção de brancos, pretos e pardos entre homens e mulheres. Já em alguns Estados do Sul e do Sudeste, como Santa Catarina, Paraná e Rio, há uma diferença bem maior entre raças que cada sexo declara. 

A diferença também diminui de acordo com a escolaridade. Quanto mais anos de estudo a mulher tem, maior a chance de ela se declarar não branca. A maior diferença proporcional entre mulheres e homens que se declaram brancos está justamente no grupo que não acabou o ensino fundamental: as brancas têm 3,2 pontos porcentuais a mais. Mas, entre a população com curso superior completo, o gráfico se inverte – 26% das mulheres declararam ser negras ou pardas, número que é superior aos 23% referente aos homens dessa escolaridade.

Para entender melhor o processo de transformação na percepção da própria raça, o Estado ouviu mulheres que viveram essas mudanças ou são símbolos para esse grupo e perguntou o que poderia explicar a diferença entre homens e mulheres na hora de declarar sua raça. A resposta foi praticamente unânime. “É difícil para a mulher assumir-se preta ou parda. Há um discurso cultural dominante, uma construção do padrão de beleza com base em um embranquecimento”, avaliou a jornalista Viviane Duarte, criadora do projeto Plano Feminino.

“A mulher negra está na base da pirâmide social, por ser mulher e por ser negra. É natural que ela tente se afastar dessa imagem”, avalia a advogada Mayara Souza, fundadora do grupo Negras Empoderadas. “Ser mulher negra neste País é muito difícil. Entendo profundamente as pessoas que tentam se aproximar de uma realidade que não é delas”, comenta a atriz Taís Araújo, que já foi vítima de racismo e acompanha o movimento de mulheres negras em busca do reconhecimento da própria identidade.

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Edison Veiga e Rodrigo Burgarelli, O Estado de S.Paulo

07 Março 2017 | 03h00

Foi só quando começou a cursar Serviço Social na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) que Geisa Paula Ribeiro, de 25 anos, passou a se ver como negra. “Entre os parentes, eu era sempre chamada de ‘macaca branca’, porque minha pele era menos retinta do que a dos meus irmãos”, conta Geisa, que participa do coletivo NegraSô.

“Minha família é negra, mas reproduz o racismo. Eles não têm a identidade política do que é ser negro, não sabem o que isso significa”, avalia. Uma de suas bisavós era branca e seu bisavô, o marido dela, negro. “Ela sempre falava para as filhas, netas e bisnetas - as mulheres da família, enfim - não cometerem o seu ‘erro’. Ou seja: que não se casassem com negros”, relata Geisa. “E ainda aconselhava que, durante o banho, os bebês tivessem os narizes sempre massageados. Acreditava que isso ‘afinaria’ os narizes.”

Geisa teve uma adolescência de cabelos alisados artificialmente e fotos branqueadas. “Eu aumentava a exposição da câmera para ficar mais clara nas imagens”, admite. “E evitava aparecer ‘de frente’, para não aparecer a largura do meu nariz.” Depois que passou a se identificar como negra e assumiu a homossexualidade, o relacionamento com a família piorou. “São muito conservadores. Meu pai não fala mais comigo”, diz.

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Edison Veiga e Rodrigo Burgarelli, O Estado de S.Paulo

07 Março 2017 | 03h00

A jornalista Viviane Duarte tem 38 anos e, até dois anos atrás, não fazia ideia de que é negra. Idealizadora dos projetos Plano Feminino e Plano de Menina - este último, que presta atendimento a adolescentes de comunidades pobres da cidade -, ela conversava com uma amiga sobre dificuldades de gênero. “Aí comentei que o problema devia ser ainda maior para as mulheres pobres e negras, que tendem a enfrentar situações muito mais complicadas na vida”, recorda-se. “Foi quando ela perguntou o meu ponto de vista pessoal, situando-me como negra.”

Viviane foi para a casa em estado de choque. “Falei para meu marido. E ele disse, com a maior naturalidade: ‘Sim, você e negra, você não sabia?’”, conta. “Comecei a chorar.”

De lá para cá, não foi só seu olhar ao espelho que mudou - foi seu olhar para o mundo. “Antes, quando eu analisava a publicidade, sempre preocupada com as questões de gênero e diversidade, eu não pensava na questão da mulher negra. Hoje, com o Plano Feminino, estou preocupada em projetos de inclusão nas empresas”, afirma. “Também estou mais bem resolvida com os meus cabelos. Posso até fazer escova, alisar. Mas se eles estão cacheados, também não vejo como um problema.” O que não mudou foi o jeito materno de encarar a filha. “Para minha mãe, eu continuo sendo a morena jambo”, diz. 

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Edison Veiga e Rodrigo Burgarelli, O Estado de S. Paulo

07 Março 2017 | 03h00

Quando era adolescente, a hoje advogada Mayara Silva de Souza, de 24 anos, estranhava os rótulos de xampu. “Eu acreditava que os meus cabelos eram normais, então por que não podia usar os produtos cujos rótulos traziam os dizeres ‘cabelos normais’? Quem foi que definiu que normal é o liso?”, diz. 

Inquietudes do tipo sempre povoaram seu jeito de ser. Até que em 2015 ela foi convidada a participar de um jantar com outras 20 mulheres negras na casa da então consulesa da França no Brasil, Alexandra Baldeh Loras - que também é negra. Ali surgiu a ideia de criar uma rede para conectar mulheres negras atuantes, protagonistas de seus papéis. “Preocupa-nos o fato de mulheres negras ainda serem maioria no sistema prisional e minoria no meio universitário, por exemplo”, comenta. 

Hoje o grupo Negras Empoderadas reúne 4,8 mil participantes no Facebook. Periodicamente também há encontros presenciais - que reúnem, em média, 150 pessoas. “É muito comum que mulheres venham participar depois de se ‘descobrirem’ negras. Por causa do próprio discurso dominante na sociedade, elas crescem se sentindo brancas, crescem acreditando serem brancas”, relata. “É muito emocionante, e ao mesmo tempo difícil, ter de lidar com esse tipo de situação.”

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