Faltam raízes na cidade que encolhe

Rosana, no oeste paulista, tem escola, igreja e comércio, mas esvaziou depois que obras de usina terminaram

Eduardo Nunomura, ROSANA, O Estadao de S.Paulo

28 Outubro 2007 | 00h00

Ver o marido partir e só poder chorar, essa tem sido a vida de Rosineide Araújo Tomaz, de 26 anos, mãe do bebê Gabriel, de 4 meses, e mulher de Francisco Rodrigues de Lima, de 34. Ele é barrageiro, constrói hidrelétricas. Ela fica na cidade de Rosana, onde o marido ajudou a construir a Usina Engenheiro Sergio Motta (Porto Primavera). Com o fim da obra, só resta a um profissional como ele partir. Dois meses longe de casa, às vezes mais. Centenas de moradores vivem assim no município do oeste paulista - o oposto de Balbinos -, o que mais encolheu, o que vê sua população economicamente ativa ser obrigada a migrar. "Somos viúvas de marido vivo", resume a jovem. O município não tem cara de município, dizem os próprios moradores. Possui bancos, clubes, escolas, igreja, hospital, comércio, prefeitura, bares e até um cinema recém-reativado. Faltam, contudo, raízes. Hoje, Rosana tem 19.948 habitantes, segundo a contagem do IBGE. Em 2000, o censo contou 24.229, mas já teve quase 30 mil. Ex-canteiro de obras, o distrito de Primavera se desenvolveu mais que a cidade, a ela só incorporada há dois anos. Teixeirinha é um ex-barrageiro com quilômetros rodados até parar em São Paulo. Baiano de Cícero Dantas, Antonio Alves Teixeira foi pulando de obra em obra, como as barragens de Paulo Afonso, Sobradinho, Itaipu, Rosana e, por último, Porto Primavera. "Não tem jeito, acabou uma barragem, vai para outra, como um andarilho", diz. Especialista em detonações, esse pai de seis filhos viu dois deles virarem barrageiros. Estes já se foram, atrás de emprego. Aos 72 anos, filhos e netos na cidade, ele ficou. "Estranhei muito quando vim para cá", lembra o colega Peba, apelido que vem do tatu. Francisco Cardoso Nascimento vivia metido na lama na obra da Linha Azul (norte-sul) do metrô. Chegou em Rosana com a fama de ser bom peão de obra e ouvido pelos donos da Camargo Correa. Orgulha-se da empresa como se fosse sua. Na Porto Primavera, era da equipe que lançou a primeira caçamba de concreto. Do represamento do rio até a conclusão da barragem, foram mais de 20 anos. Aposentou-se, mas diante do município que só encolhe, pensa em partir. "Aqui é bom de se morar, mas falta um prefeito digno para administrar a cidade." Lugar de poucas mas belas paisagens, Rosana aproveita mal o potencial turístico e fecha os olhos para os problemas sociais. Situado na ponta esquerda de São Paulo, o município faz divisa com Paraná e Mato Grosso do Sul. É banhado pelos Rios Paraná e Paranapanema, que se encontram no exato pontinho em que as crianças começam a desenhar o mapa do Estado. Há ranchos de pescaria, para peixes cada vez mais raros. O Conselho Tutelar está preocupado com o aumento do consumo e tráfico de drogas pelos jovens e com a prostituição infantil. Meninas são levadas por pescadores e turistas para passeios de barco. Ganham R$ 150 por dia, relata L.H., de 16 anos. A jovem sabe do valor por uma amiga, nunca aceitou esse tipo de convite, a mãe lhe dá R$ 200 por mês. Mas vive em perigo, segundo os conselheiros tutelares. Ela mora sozinha, porque o pai, barrageiro, foi-se embora e a mãe dela o acompanhou. Vizinhos denunciaram L.H. de dar abrigo a outros dois adolescentes e, com eles, tombar de tanto beber na calçada. INSTABILIDADE POLÍTICA Um outro problema que envergonha os cidadãos de Rosana, e faz muitos pensarem que ali não tem jeito, tem sido a política. Emancipada em 1992, a cidade está em seu quarto mandato. Só neste último quatro políticos sentaram na cadeira de prefeito antes da atual, Aparecida Batista Dias de Oliveira (PMN). Na segunda-feira, populares lotaram a Câmara Municipal para apoiar a prefeita, que se vê às voltas com uma denúncia que pode levar à cassação. Eles acusavam os vereadores de instituir o mensalão. Ao assumir, a vice-prefeita rompeu com os antecessores e promoveu uma demissão em massa dos cargos públicos. Livro ainda a ser publicado, Sou B@rrageiro sim, e daí?! acusa a Companhia Energética de São Paulo (Cesp) de ter abandonado a cidade de Rosana e o distrito de Primavera. "A redução da população está diretamente ligada à saída da Cesp e à herança ruim que ela deixou", critica o escritor Joabinadabe Gomes Mendes. Como ele, dezenas de moradores queixaram-se para a reportagem por se sentirem abandonados pela empresa. Queriam que ela própria fizesse as obras de infra-estrutura e trouxesse o desenvolvimento econômico. "Você entrega dinheiro na mão dos políticos e imagina o que eles vão fazer?" A Cesp deixará mais de R$ 50 milhões até 2008 para a prefeitura, que viu seu repasse de ICMS subir de R$ 5,5 milhões em 2001 para R$ 16,5 milhões no ano passado com o aumento da geração de energia. A história do município também não orgulha a ninguém. Como em outras cidades brasileiras que cresceram a reboque da construção de hidrelétricas, Rosana viu a hierarquia do canteiro de obras contaminar as ruas. Os moradores viviam em função dos cargos dos trabalhadores. Os mais graduados, níveis 5 e 6, tinham as melhores casas, escolas, atendimento preferencial no hospital e até clube particular. "Eu era um nível 3, nunca fui de primeira categoria", resigna-se Teixeirinha. "Havia muita exclusão, os dos níveis 5 e 6 só andavam entre eles. Na escola, a primeira pergunta era: ?Que nível que seu pai é??. Horrível", diz Claudia Marinheiro da Silva, mulher de barrageiro. A divisão durou até meados dos anos 90, mas essa lembrança não se apaga.

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