Família de ex-preso, hoje doente, vai processar Estado

Segundo a mãe, rapaz torturado na prisão hoje vive apático e passa a maior parte do tempo calado

O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2007 | 00h00

João (nome fictício), trabalhava como montador em feiras de São Paulo, já tinha comprado um carro e pretendia juntar dinheiro para abrir uma academia de dança quando foi acusado, juntamente com os dois irmãos, de ter roubado um carro. Maria, a mãe dos rapazes, diz que João, o filho do meio, não teve participação no crime. Acabou sendo envolvido apenas porque, segundo ela, os documentos do veículo roubado foram deixados dentro do carro dele, em meio aos agasalhos dos outros meninos."Mesmo depois de os irmãos assumirem a culpa e dizerem que o João era inocente, ninguém acreditou", lembra Maria. Ao saber que teria de cumprir a pena de seis anos, João começou a mudar. De alegre, inteligente e cheio de amigos, conta a mãe, João primeiro ficou assustado, depois calado, até parar de falar ou querer saber notícias de outras pessoas.No presídio, ao final dos horários de visita, Maria via o filho desesperado, dizendo que queria ir embora e iria morrer. Foi quando outro preso lhe disse que o rapaz estava sofrendo de problemas mentais e que a cadeia era um lugar cruel. Quando mãe e filho voltaram a se encontrar, ele estava totalmente desequilibrado. "Só falava quando eu perguntava e às vezes percebia que ele ficava me olhando e se perguntando: ?Quem é essa mulher??"João ficou mais de 20 dias sem ser localizado pela mãe e passou por mais quatro presídios pelo menos. Permaneceu em silêncio a maior parte dos seis anos em que esteve preso. Levado pela mãe à assistência psiquiátrica de uma ONG, o rapaz passou a relatar um pouco do que passou na cadeia, como surras e torturas. Um ano após deixar a cadeia, porém, pouca coisa está clara. Há dias em que fala um pouco mais com pessoas próximas, mas ainda é quieto na maior parte do tempo. "Só dorme com remédios e, nas poucas vezes que ele diz que vai sair, fica andando sem rumo. Ele anda, anda e aí eu ligo e peço para ele voltar", diz a mãe, que passou a trabalhar em casa para ficar com João, hoje com 27 anos.A ONG Ação dos Cristãos para a Abolição da Tortura prepara processo de reparação de danos contra o Estado por João ter saído assim da cadeia. Segundo o psiquiatra Paulo Sampaio, integrante da organização, os presídios hoje não têm nenhum tipo de assistência à saúde mental. "Também não se tem trabalho, nada; as pessoas ficam sem nenhum tipo de atividade. E o fim do exame criminológico acabou com qualquer tipo de avaliação de saúde do preso. No sistema, o enfoque é só o da segurança", diz. O irmão mais velho de João continua preso. O mais novo morreu em suposto confronto com a polícia, depois de sair do presídio. A família acusa a polícia de ter assassinado o rapaz.

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