Família de jovem processará Estado do Rio por negligência

A família da universitária Juliana Pereira da Silva, de 23 anos, anunciou nesta segunda-feira, 30, que vai processar o Estado do Rio de Janeiro por negligência médica. A falta de preparo dos hospitais da rede estadual para o atendimento das vítimas da violência urbana revoltou no domingo, 29, a família de outra vítima, o pedreiro Francisco Eudes Martins Caxias, de 30 anos, que permanece internado com um tiro no abdômen e teve que esperar mais de dez horas pelo exame para determinar onde a bala perdida que o atingiu estava alojada. Ambos os casos aconteceram no Hospital Estadual Albert Schweitzer, em Realengo (zona oeste do Rio), que recebeu as duas vítimas da guerra travada há dias pelo controle das bocas-de-fumo do Conjunto Habitacional Fumacê, no mesmo bairro. No entanto, a falta de estrutura atinge hospitais de outras regiões e de toda a rede pública. O Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca (zona oeste), não conta com neurocirurgião, apesar de ser a unidade adotada como referência para os Jogos pan-americanos. "As pessoas no Rio estão sendo vítimas de dois descasos. O primeiro contra a segurança pública e o segundo contra a saúde. Se o Estado não consegue frear a violência, pelo menos deve oferecer condições de atendimento das vítimas desta guerra", afirmou Thiago Madeira, que namorava a universitária morta. Juliana esperou mais de cinco horas pela transferência para um hospital que tivesse um cirurgião vascular. Quando o transporte foi providenciado, ela teve a terceira parada cardíaca e morreu antes de entrar na ambulância. "Não temos uma rede pública hospitalar estruturada. Se houvesse ao menos comunicação entre os hospitais municipais, estaduais e federais, ela teria sido removida e poderia ser salva", afirmou o ex-deputado Paulo Pinheiro (PPS-RJ), que dirigiu o Hospital Municipal Miguel Couto, na Gávea (zona sul), de 1988 até 1996, período em que as quadrilhas de assalto a carro-forte começaram a utilizar fuzis AR-15 em suas ações. "Pouco depois estes armamentos estavam se popularizando nas favelas. Naquela época, percebemos que as lesões nos baleados se tornaram mais graves e começamos a preparar as equipes para atendimento", recordou Pinheiro, atualmente professor da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Com dez anos de experiência como chefe da Emergência do Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro, o atual diretor da unidade José Macedo afirma que um tiro de fuzil danifica uma área 30 vezes maior que o diâmetro da bala. "A onda de choque atinge tecidos onde a bala não perfurou. Logo, um tiro na barriga pode provocar danos no pulmão", afirmou o médico. Macedo lembra que recebeu o pedido de transferência de Juliana. Ela seria uma entre as centenas de baleados que chegam ao hospital todos os anos. Em 2006, até novembro, foram 463 feridos a tiros atendidos. Para atender a demanda, o hospital conta 24 horas com uma equipe para "trauma de PAF (Perfuração de Arma de Fogo)" formada por um cirurgião geral, um especialista em cirurgia vascular, um em cirurgião de tórax, um neurocirurgião e um ortopedista. "Um cirurgião que passa por um centro como o nosso pode sair daqui e ir operar os feridos no Iraque", declarou o diretor do Souza Aguiar, que já tornou mais de 20 médicos residentes em especialistas nas cirurgias de trauma. A Secretaria Estadual de Saúde confirmou que não há previsão para compra de equipamentos ou contratação de especialistas para os hospitais e informou que um mapeamento está sendo realizado para detectar as necessidades das unidades.

Agencia Estado,

30 Abril 2007 | 23h21

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