Família de menino baleado em sala de aula no Rio vai mudar de bairro

'Antes, os filhos enterravam os pais. Agora, os pais enterram os filhos', lamentou o tio

Pedro Dantas - O Estado de S. Paulo

19 de julho de 2010 | 18h31

 

RIO - Férias antecipadas em uma semana, Festa Junina cancelada e crianças traumatizadas. Este era o retrato do Ciep Rubens Gomes, em Costa Barros, no subúrbio do Rio, onde o estudante Wesley Guiber de Andrade, de 11 anos, morreu atingido por um tiro de fuzil dentro da sala de aula, na manhã de sexta-feira. Os parentes da vítima anunciaram que os pais dele deixarão o bairro. "Antes, os filhos enterravam os pais. Agora, os pais enterram os filhos", lamentou o tio de Wesley, Kleyton Alves, que foi ontem ao colégio recolher a mochila e os pertences do sobrinho.

 

Os pais se reuniram ontem com psicólogos e a secretária de Educação, Claudia Costin, se reuniu com os professores da escola. "Muitos pais querem retirar os filhos daqui. Eu também, mas este ano será impossível. Este colégio é o mais perto da minha casa. Não tenho dinheiro para pagar passagem para levar as crianças", disse Fernanda de Araújo Firmo, mãe de duas alunas de 8 e 5 anos.

 

O Sindicato dos Profissionais da Educação do Rio (SEPE-RJ) anunciou que processará a Prefeitura do Rio por omissão. A entidade afirma que no ano passado encaminhou dossiê ao Ministério Público solicitando reforço na segurança no Ciep e para outras 150 escolas, que estariam localizadas em áreas de risco, mas nada foi feito. De acordo com o SEPE, pelo menos 109 mil alunos e mais de 5 mil professores e funcionários estão em escolas localizadas em áreas de risco. A Secretária de Educação, Claudia Costin, não falou com jornalistas. Ao ser questionada sobre a importância de uma declaração sobre o caso, ela mandou um beijo para os repórteres.

 

De acordo com os pais, os momentos de terror ainda estão na cabeça dos 1.200 alunos do Ciep. "Meu neto contou que sentaria na cadeira onde Wesley foi atingido, mas desistiu. Acho que ele precisará de tratamento, porque chora muito e está com medo de sair de casa. Infelizmente, ele viu tudo", contou Maely da Silva, de 48 anos. Os relatos mais impressionantes partem dos próprios alunos. Com idades entre oito e 14 anos, ele afirmam que estão habituados a cenas com exposição de cadáver, fuzilamentos e exibição de armas. A maioria deles mora nas favelas Fazenda Botafogo, Quitanda, Pedreira e Lagartixa, onde ocorreu a operação policial de sexta-feira. Na ação, seis supostos traficantes morreram. De acordo com os estudantes, entre os mortos estaria Jefinho ou Pezão, ex-aluno do Ciep e um dos líderes do tráfico na Pedreira.

 

"No final do ano passado, um estuprador da favela foi morto e teve a mão decepada. Eles (os traficantes) colocaram o cadáver quase em frente à escola com um cartaz onde se lia 'pedófilo morre cedo'. O rabecão chegou à tarde e todos os alunos viram o corpo", conta com naturalidade uma aluna de 14 anos. Ela e os colegas confirmam que a festa Junina do ano passado foi interrompida por um tiroteio entre policiais e traficantes, que cumprem o papel da Lei nas favelas. "Em fevereiro, um homem invadiu uma casa aqui perto da escola e os traficantes pegaram ele. O ladrão foi fuzilado no meio da rua", conta um aluno de 13 anos.

 

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