Família devolve roupa com R$ 20 mil

Dinheiro estava, por engano, em casaco doado

Daniela Pereira, da Ag. RBS, Ilhota, O Estadao de S.Paulo

17 de dezembro de 2008 | 00h00

A única intenção da menina Daniele Maria Annater, de 5 anos, era brincar com o casaco de couro e pele antes de a mãe colocá-lo com o monte de roupas que seria repassado a outros necessitados. A família, abrigada depois de perder tudo na localidade de Alto Baú, no município de Gaspar, durante a tragédia que atingiu o Vale do Itajaí, recebeu doações de vários locais do Estado, mas nenhuma com tamanha surpresa. Na manga do casaco, a menina encontrou R$ 20 mil que, infelizmente, não faziam parte dos donativos."Se o dinheiro fosse entregue nas minhas mãos, teria aceitado com certeza, pois agora precisamos. Mas é uma questão de criação, fui educado assim e estou com a consciência limpa", contou o avô da menina, Daniel Manoel da Silva, de 58 anos, explicando o motivo de ter devolvido o dinheiro para o doador da cidade de Concórdia, no oeste do Estado.Assim que pegou o dinheiro, Silva foi atrás do doador para tentar devolver. Foi então que descobriu que a roupa veio em uma doação especial. A família do namorado de uma sobrinha, que mora em Blumenau, soube da história da futura parente e, sensibilizada, montou uma remessa com roupas e alimentos. O dinheiro, no entanto, não estava incluído no pacote.O namorado, que preferiu não se identificar, falou que é costume de sua família guardar pequenas economias em roupas pouco usadas. Esse dinheiro seria utilizado somente em caso de emergência. Os parentes ficaram surpresos com a devolução, pois ainda não haviam sentido falta.AMULETOSilva, que planta cana e fabrica cachaça artesanal, disse que a família planejava dar o casaco a outras pessoas que também tinham perdido tudo, pois a roupa era muito "fina" para o estilo de vida deles. Nenhuma das filhas ou noras se interessou pela peça. Depois de descobrir o dinheiro, a roupa virou um amuleto. Ficará na casa.Silva e o rapaz se encontraram no dia 30 de novembro para a devolução. O agricultor fez questão de entregar a roupa pessoalmente. Em gratidão pela honestidade, o agricultor do Alto Baú foi presenteado com R$ 1 mil. Silva se mudou para o Alto Baú há 36 anos, um ano depois de se casar com Iolanda Miranda da Silva, de 54. Lá, criaram os seis filhos que lhes deram seis netos. Iolanda contou que sua vida era paparicar os pequenos - adorava brincar com eles. A partir de agora, porém, todos os cuidados serão para a pequena Daniele e para Luis Antonio Hostim, de 13 anos. Na madrugada de 24 de novembro, os avós perderam Maria Tatiana Hostim e Joana Maria Annater, ambas com 7 meses, Luis Paulo Hostim, de 17 anos, e João Pedro da Silva, de 1 ano e 8 meses. Foi quando a casa onde estavam com mais 14 pessoas da família foi soterrada pelo deslizamento de um morro.

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