Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Marco Antônio Carvalho, Enviado especial

08 Janeiro 2017 | 05h00

MANAUS - Se estar ao lado dos três maiores produtores de cocaína do mundo fez com que a facção Família do Norte se expandisse com maior intensidade nos últimos seis anos, o poder adquirido ainda não foi suficiente para que a organização represente uma força dominante em toda a Amazônia e nos demais Estados da região.

Imitar o modelo de facções conhecidas como Comando Vermelho garantiu o tradicional pagamento de mensalidade por parte dos afiliados e fez com que a FDN se estabelecesse como dominante em parte da fronteira, e o grupo, segundo policiais, procuradores e pesquisadores de segurança ouvidos pelo Estado, quer agora consolidar o domínio dessa rota, ocupando um vácuo de facções no Pará, e ter maior acesso a Bolívia, por meio do fortalecimento no Acre e em Rondônia.

Tudo isso não deve ocorrer sem novas disputas, que podem incluir brigas nas penitenciárias, agora com o selo da crueldade com a qual a facção ficou conhecida após agir no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), em Manaus, onde deixou 56 rivais mortos na semana passada. Não que anteriormente não acontecessem mortes. Dados do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), que produz relatórios anuais sobre a situação carcerária no Brasil, mostram que em 2014 e 2015 as unidades do Norte somavam 46 homicídios, além de 19 rebeliões com 1.732 fugas. 

Para executar os novos planos, a Família terá de quebrar um “cinturão” do Primeiro Comando da Capital (PCC) que a envolve, e contra quem a organização agiu na capital amazonense. Em Roraima, acima, no Acre, abaixo, e no Pará, ao lado, as forças dominantes atuais, segundo apontam investigações policiais, são de simpatizantes da organização paulista ou de grupos que até se autointitulando de forma homônima. 

Para ganhar força e contar cada vez com mais dinheiro, a FDN deve continuar contando com a permeabilidade das fronteiras, principalmente no encontro brasileiro com cidades colombianas e peruanas, na tríplice fronteira. Foi lá que a facção já desenvolveu negócios milionários (mais informações nesta página) e quer ter acesso a quantidades cada vez maiores de cocaína para revenda a Estados nordestinos, onde encontra um bom mercado. O Estado sozinho possui cerca de 2,7 mil quilômetros de fronteira, o que equivale a distância de São Paulo a Recife. 

"Amazonas é vizinho dos únicos produtores de cocaína do mundo: Colômbia, Peru e Bolívia. Nesse contexto territorial, e com fronteiras enfraquecidas, e até pelo intenso movimento notado nos últimos anos, há  sinais claros do empoderamento dessa facção criminosa”, disse o policial civil aposentado e professor da Universidade do Estado do Amazonas Antônio Gelson de Oliveira Nascimento. 

Oliveira analisa que, nas décadas passadas, o que havia eram grupos locais que se organizavam e se diluíam com as ações policiais. Por outro lado, a partir do momento em que as lideranças começaram a ser segregadas em presídios federais, houve contato com o know-how das grandes organizações, o que teria possibilitado o crescimento do bando amazonense quando o membro pertencente a facção retornava ao Estado de origem.

“Ora, você tira o bandido perigoso do Amazonas e o coloca para dividir cela com Fernandinho Beira-Mar. O que se pode esperar desse camarada, que era inexperiente, mas cheio de maldade, é aprender como se faz. Vimos isso ocorrer de forma clara”, acrescentou. 

Para o professor, aliado a políticas sociais, deveria haver um empoderamento dos Estados sobre as fronteiras nacionais, oferecendo maior resistência a essa passagem de narcóticos. A situação se faz urgente, destaca, não só pela calamidade flagrante nos presídios, como as consequências notadas nas ruas. “Ignorar a proteção das fronteiras é subestimar a capacidade do crime organizado. Isso tem de ser repensado rapidamente sob risco de continuarmos vendo, como consequência, os vários homicídios relacionados ao tráfico como há hoje”, disse.

Disputa. Para consolidar o escoamento da sua mercadoria ao Nordeste, a Família poderá bater de frente com o Primeiro Comando do Norte (PCN), expressão do PCC fundado no Pará. O próprio PCN já encontra dificuldades atualmente para consolidar a sua influência nas cadeias já que não consegue obter poder em mercados consumidores crescentes de drogas, como Altamira e Marabá. “Diferente do Amazonas, que o consumo se concentra em Manaus, no Pará vimos uma migração para o interior diante de um crescimento demográfico significativo”, disse Aiala Colares, pesquisador da Universidade do Estado do Pará. 

Lá, a defesa do território pela polícia, assim como no Amazonas, enfrenta a dificuldade de renovações frequentes das rotas usadas, inclusive pelo meio fluvial, tornando mais complexo um combate eficiente. Colares destaca que, para além do PCN, no Pará ainda funcionam diversas pequenas facções autônomas, como a Equipe Rex, que domina o Complexo Penitenciário de Americano, na região metropolitana de Belém. 

Já no Acre, a chegada do PCC, segundo explica a professora da Universidade Federal (UFAC) Marisol de Paula Reis Brandt, se deu pela importância da localização e da fronteira com a Bolívia. Aliado ao Bonde dos 13, a organização paulista disseminou o expertise em gestão criminosa, com direito a estatuto, cadastro e mensalidade, para tentar avançar cada vez mais pelo Norte. No Amazonas, encontrará resistência.

“As facções encontraram terreno fértil e se estabeleceram diante também de um serviço prisional bastante precarizado. Antes circunscritas ao sudeste, essas organizações agora disputam espaço também por aqui”, disse ao Estado. O Bonde dos 13, porém, já passou a enfrentar a dissidência de criminosos que se denominam integrantes do Infra, alimentando o ciclo de disputas e acirrando a tensão dentro e fora das cadeias. 

A reportagem fez questionamentos na noite desta sexta-feira, 6,  sobre vigilância das fronteiras ao Exército, mas não houve resposta. A Secretaria de Segurança do Amazonas disse ter reforçado a atuação, tendo apreendido 11 toneladas de drogas em 2015, número superior à soma dos últimos dez anos de apreensões.

O reforço do patrulhamento integra o Plano Nacional de Segurança, lançado na sexta pelo Ministério da Justiça, que quer combater de forma mais eficaz o narcotráfico, por meio de troca de informações com os países vizinhos. A Polícia Federal deflagrou em 2015 a Operação La Muralla que identificou parte da atuação da organização, cujos líderes respondem na Justiça a acusações de tráfico de armas e drogas, além de associação criminosa.

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‘Laranjas’ na tríplice fronteira garantiam comércio da FDN com Colômbia e Peru

O grupo usou o tráfego fluvial da cidade conhecida como o capital do Alto Solimões para, pelo rio homônimo, carregar a maior parte do seu produto ilegal

Marco Antônio Carvalho, Enviado especial

08 Janeiro 2017 | 03h00

MANAUS - A facção Família do Norte contava com o auxílio de “laranjas” para movimentar alta quantia de dinheiro na tríplice fronteira brasileira com a Colômbia e o Peru, no que é considerada uma das rotas mais importantes para o narcotráfico local e porta de entrada de maconha e cocaína que ia parar até no Ceará. Foi em Tabatinga, cidade a 1.109 quilômetros de Manaus, que a organização montou um dos seus escritórios financeiros e movimentava montas milionárias para adquirir e revender entorpecentes, além de comprar armas potentes para compor o arsenal do bando.

O grupo usou o tráfego fluvial da cidade conhecida como o capital do Alto Solimões para, pelo rio homônimo, carregar a maior parte do seu produto ilegal. Em agências bancárias de Tabatinga, membros da cúpula da FDN pagavam e recebiam por encomendas; aos laranjas que emprestavam os nomes para abertura das contas, que contavam até com empresas de fachada, era pago 4% sobre o valor movimentado. Somente em uma dessas colaborações, a quadrilha pagou R$ 7 milhões por drogas adquiridas em um intervalo de seis meses.

Interceptações feitas pela Polícia Federal realizadas no âmbito da Operação La Muralla, que foi deflagrada em outubro de 2015 mostrou a troca de mensagens em espanhol de membros da FDN com contatos que deixavam a encomenda em Tabatinga. “Amigo dime el valor en dólar voy comprar unos 50 kilos misturado” (sic), mostra uma das mensagens que dá o apelido de “uísque” para se referir a cocaína.

O colombiano Paulo Bernal Lores confessou à Polícia Federal ter “alugado” suas contas para uso da facção, dizendo, porém, desconhecer a origem do dinheiro. Atuando sobretudo em Tabatinga e também na cidade colombiana de Leticia, os criminosos acabaram flagrados por investigadores, que rastrearam as contas e comprovaram depósitos frequentes como movimentação relativa ao tráfico.  

Para o Ministério Público Federal, Lores era, “na verdade, homem de absoluta confiança dos traficantes de entorpecentes da tríplice fronteira e atuava como engrenagem necessária e indispensável à monetização daquela atividade delitiva”, de acordo com o que sustentaram procuradores de Justiça em denúncia oferecida à Justiça sobre o caso. Outros colombianos, peruanos e brasileiros respondem na Justiça pelo envolvimento com a organização criminosa. Foram oferecidas oito denúncias contra mais de 40 acusados de participar do esquema.

Os produtos que atravessavam a fronteira seguiam até Manaus, ou paravam em cidades próximas para facilitar o carregamento e despistar a fiscalização. Uma das bases de armazenamento foi descoberta em Manacapuru, a 100 quilômetros da capital, mas também banhada pelo Solimões.

Disputa. Para o secretário de Segurança Pública do Amazonas, Sérgio Fontes, a disputa que levou ao massacre no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) tem como contexto o tráfico internacional de drogas e a disputa por uma rota importante de aquisição desse material “Por que o que aconteceu foi tão violento, tão grande? Porque Manaus representa a rota. O Brasil não tem produção de coca, já aqui ao lado há 10 mil hectares com produção exclusiva, e tem como principal corredor o Rio Solimões”, explicou ao Estado nesta semana. “Para a facção, dominar essa rota talvez seja mais importante do que dominar o tráfico em uma cidade de dois milhões de habitantes”, completou. 

A dependência do grupo do tráfego fluvial pelo Rio Solimões estava começando a dar a eles dor de cabeça. Isso porque com a intensificação da movimentação de drogas pelas águas, os donos das cargas, além de terem de driblar a polícia, passaram a ser alvos de “piratas”, que roubavam a droga. Se os ataques representavam baixas esporádicas, a atuação policial, entre 2014 e 2015, apreendeu 2,2 toneladas de drogas na rota, além de armas de grosso calibre e até granadas.

Os procuradores sustentam que a investigação demonstrou haver “estreitas conexões” da FDN com as Forças Revolucionárias da Colômbia (Farc) e outras radicadas no Nordeste, principalmente no Ceará, e no Pará. Além disso, a facção também mantinha contato com o braço peruano das Farc por meio do traficante daquele país Nelson Flores Collantes, cuja venda estimada de cocaína por mês era de 400 quilos. As investigações da La Muralla foram as responsáveis por mandar lideranças da FDN flagradas na articulação para o tráfico e execuções para presídios federais, como foi o caso de Gelson Lima Carnaúba, o Mano G, um dos fundadores da organização.  

Para o sociólogo e pesquisador da Universidade Federal do Amazonas Ítalo Lima, o narcotráfico praticado atualmente no Estado do Amazonas já superou há alguns anos uma velha ordem que consistia em um “comércio” familiar. “Delegados dos anos 1980 e 19990 vão falar que esse crime naquela época era algo muito entre familiares, com pequenos vendedores no varejo e sempre ligado ao seu local de moradia”, disse. “Hoje, prevaleceu essa narrativa policial mostrada a partir de investigações de que a situação foi redesenhada por um consórcio do mercado do crime”, completou.

Ele analisa que a situação nos presídios se agravou principalmente de cinco anos para cá, quando as gestões estaduais recrudesceram a repressão policial ao crime, prendendo cada vez mais, com uma produtividade até premiada com bônus pelo Executivo. “Esses investimentos, no entanto, não foram acompanhados por melhorias nas cadeias que viram a população prisional saltar de cerca de 4 mil em 2009 para mais de 10 mil neste ano”, disse Lima.

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