Família é decisiva no tratamento

Especialistas apontam a necessidade de se tentar refazer os laços sociais do usuário, que a droga só destrói

BRUNO PAES MANSO, O Estadao de S.Paulo

13 de dezembro de 2008 | 00h00

Carla, de 32 anos, mora com cinco filhos em uma casa pobre da zona norte. Não tem cama, nem televisão e usa gambiarras para conseguir luz elétrica de graça. Mesmo assim, em alguns detalhes, pode-se ver o capricho da dona da casa. Os bichos de pelúcia das crianças, um casal de gêmeos de 2 anos, uma menina de 8, um garoto de 10 e a mais velha de 14, estão alinhados para enfeitar o quarto onde todos dormem no chão. Nas paredes, duas casinhas de madeira, cheias de bibelôs, completam a decoração.Há dois anos, Carla conseguiu deixar a rua e o vício do crack, no qual mergulhou por cinco anos junto com a filha mais velha, que começou a fumar com 11. Ela teve os gêmeos na rua e fumou crack instantes antes de dar à luz. Carla diz que o instinto maternal a fez deixar o vício. "Sempre disse que amava meus filhos mais do que tudo. Mas amor é proteção. Que amor era aquele?", pergunta.Carla saiu com o apoio permanente de educadores do Projeto Quixote, que atua na região em parceria com a Prefeitura com a missão de reconstruir os laços sociais rompidos por causa do uso obsessivo do crack. Para alcançar esse objetivo, primeiro eles tentam conquistar a confiança do usuário. Depois, o encaminham para abrigos, etapa que antecede a principal: levá-lo de volta à família que ele abandonou, o que chamam de "rematriamento." "É difícil deixar a rua porque lá a gente tem tudo a qualquer hora. Eu e meus filhos nunca passamos fome no centro. Quando voltei para casa, as dificuldades aumentaram", diz Carla, que não tem emprego, mas conseguiu matricular todos os filhos em escolas e creches do bairro. O psiquiatra Auro Lesher, fundador do Projeto Quixote, explica que o crack se caracteriza justamente por ser uma droga capaz de desfazer qualquer laço social mantido pelo usuário. Enquanto o álcool e a maconha, por exemplo, em alguns casos até aumentam a autoconfiança de quem usa, no crack, só se enxerga isolamento e abandono. Reconstruir e dar sentido a esses laços é o maior desafio. Por ter esses traços, ele avalia, o crack foi devastador principalmente nas grandes cidades com situações de pobreza extrema. "Os viciados são pessoas normalmente que não tiveram atenção dos pais, amor, que vivem um cotidiano tão dramático que romper com esses laços pode parecer algo vantajoso. Por isso vejo esses meninos como refugiados urbanos", diz.Entre aqueles que trabalham na área social, os 20 anos de história de crack em São Paulo permitiram chegar a um consenso. Todos concordam que o tratamento só tem efeito quando toda a família participa da reconstrução da vida do viciado. Os meios para alcançar esse objetivo é que variam.Além do Projeto Quixote, atua na cracolândia uma rede de oito entidades evangélicas, como a Missão Cena e o Projeto Toque, que colocam diariamente 10 voluntários circulando pelas ruas para tentar iniciar contatos. Fazem curativos, penteiam cabelo, levam e trazem notícias da família, para tentar conquistar a confiança das crianças e jovens. Clessius Cordeiro, um dos organizadores da rede, trabalhando com população de rua há 12 anos, diz que o trabalho compensa. Apesar das dificuldades que ficam evidentes no balanço dos casos de sucesso. "Neste ano, conseguimos tirar dois das ruas e levá-los para a família. Não acho pouco. Cada uma dessas almas têm muito valor para Jesus", reflete. Na quarta-feira, a rede fez uma festa na sede da Missão Cena na cracolândia. Ofereceu um grande churrasco para cerca de 70 crianças e jovens da região. Antes de comer, o grupo tomou banho, ganhou roupas limpas e assistiu a uma peça, que representava "o leilão de uma alma". Essa alma recebe ofertas de compra das "drogas", do "dinheiro" e do "sexo". Jesus acaba comprando: "Eu morri por essa alma. Deixei o céu por essa alma. Sou mais forte. Compro agora todas as almas que quiserem vir comigo", disse. Algumas crianças pareceram impressionadas. Outras não prestavam atenção.

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