Sérgio Bianco
Sérgio Bianco

Familiares de trabalhadores da Vale fazem buscas por conta própria

Parentes tentavam ter acesso à mina e encontraram uma passagem aberta pela mineradora, mas que deveria ser utilizada apenas por funcionários nas buscas

Luan Santos, Especial para O Estado

26 Janeiro 2019 | 10h02

BRUMADINHO - Familiares de trabalhadores da Vale começaram a fazer buscas por conta própria na região atingida pelo rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte. Na manhã deste sábado, 26, eles tentavam ter acesso à mina. 

Bem próximo ao vilarejo Tejuco, os parentes encontraram uma passagem aberta pela mineradora, mas que deveria ser utilizada apenas por funcionários nas buscas.

Carlos Franco, de 40 anos, está em desespero. Ele busca pela mulher, Lenilda Cardoso, gerente do restaurante da mina. O casal está juntos há 20 anos.

“Minha filha, de 4 anos, perguntou onde está a mãe. O que eu digo para ela?”, lamentou. “Primos, amigos de infância, estão todos aí”.

Nesta manhã, a Vale divulgou em seu site uma lista com os nomes de funcionários com os quais não se conseguiu contato até o momento. São 413 trabalhadores, dos quais 90 são terceirizados, de acordo com as informações divulgadas às 9h. A lista está sendo atualizada em tempo real, conforme as pessoas são localizadas.

Moradores lamentam tragédia

Todos os dias, Marilza Franco passava pelo Rio Paraopeba e admirava a beleza do córrego. As águas claras do afluente, hoje, são manchas de cor marrom que jamais serão esquecidas pelos moradores que viram de perto o estrago ocasionado pelo rompimento da barragem da mineradora Vale.

Ainda incrédulos, os moradores olhavam as marcas da tragédia neste sábado. “Parece que é tudo mentira, mas não é.”

O marido da dona de casa, de 63 anos, pescava todos os dias no rio, agora atingido pela lama.  “É inacreditável. Os dias serão muito difíceis daqui para frente”, disse o aposentado ainda muito emocionado. “Eu amava vir aqui pescar. Às vezes reunia os amigos, vizinhos. Hoje a cena é devastadora”.

Duas vizinhas de Marilza seguem desaparecidas. “É muito triste não ter notícias de pessoas que conviviam com a gente todos os dias. Vivemos uma agonia. É um sofrimento que não cabe  em mim, e que nunca vou esquecer”, contou, com os olhos cheios de água.

“Vivi muitos anos neste lugar. Era o meu lar, meu refúgio. Aqui eu tinha paz. Agora só Deus sabe como vai ser. Nossas vidas mudaram. É algo que ficará para sempre na memória”, concluiu. Muitos moradores da região de Brumadinho ainda não conseguem pensar no que será daqui para frente.

Virgílio Fernandes Pessoa, de 60 anos, perdeu tudo o que tinha com a tragédia. Em entrevista ao Estado, ele disse que ficou apenas com a roupa do corpo. “Quando estourou a barragem, saiu levando tudo. Graças a Deus que minha esposa conseguiu sair. O que eu tinha foi tudo abaixo. Nem documentos consegui salvar.”

Fernandes disse que foi difícil até para tomar banho, e teve que pegar roupa emprestada com familiares. Ele conta que tem problemas de hipertensão, mas os remédios foram juntos na lama. “O que construímos em 25 anos foi destruído em um minuto”.

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