Familiares de vítimas da Gol entregam carta à CPI do Apagão

Parentes das vítimas vão à comissão denunciar pilhagem de pertences que sumiram no acidente do vôo 1907

14 de agosto de 2007 | 14h59

Familiares das vítimas do acidente da Gol entregaram uma carta aos senadores da CPI do Apagão Aéreo nesta terça-feira, 14. Os familiares foram à CPI para entregar denúncias sobre o sumiço de pertences das vítimas do vôo 1907, que se chocou no ar com o jato Legacy e causou a morte de 154 pessoas no dia 29 de setembro de 2006. Íntegra da carta entregue aos senadores da CPI: Brasil, 10 de agosto de 2007. Dia 29 de setembro de 2006. Final de tarde. Serra do Cachimbo. Em aproximadamente um minuto a história de 154 famílias ficaria marcada para sempre pelo que, até então, era o maior acidente aéreo da história do País. A notícia do desaparecimento da aeronave da GOL. Nenhum sobrevivente. Dias intermináveis numa espera angustiante pela identificação dos corpos. Nosso sofrimento é infinito. Desnecessário descrevê-lo. Dessa dor retiramos forças para lutar não só pelos nossos objetivos, mas para lutar pelo povo brasileiro, pela verdade e pela justiça. Desde o acidente percebemos que o Estado brasileiro está despreparado para enfrentar tragédias de grandes proporções. Não há um órgão especial para a assistência apropriada aos familiares das vítimas, a legislação é lacônica e deixa os familiares desamparados. Ainda em Brasília, cerca de 48h após o acidente, tivemos a triste notícia de que não havia sobreviventes e, em seguida, ao perguntarmos pelos corpos dos nossos entes queridos, ouvimos a seguinte frase da Sra. Denise Abreu, Diretora da Anac: " gente, vocês são inteligentes, um avião caiu de mais de 10.000m de altura a 400km/h!! O que esperam, corpos inteiros?" No entanto, dois meses após essa declaração da Anac, o Presidente da Infraero afirmou que na noite do dia 29/09/2006, ou seja, no mesmo dia do acidente, cinco soldados dormiram na selva tomando conta dos corpos. Já a Aeronáutica declarou que apenas no dia 30/09/2006 soldados chegaram ao local. Assim, está claro o tipo de preparo que as autoridades têm demonstrado diante de grandes tragédias. As informações além de precárias são totalmente desencontradas. Vale lembrar que juntamente com a Sra. Denise Abreu (Anac), outras autoridades governamentais ligadas à mesma agência receberam a medalha "Mérito Santos Dumont", três dias após o acidente com o Airbus da TAM. Apesar desse cenário, temos lutado incessantemente junto às autoridades para que haja modificação urgente na legislação referente aos acidentes aéreos, de maneira que os familiares das vítimas tenham acesso às investigações e que os responsáveis pelo acidente sejam identificados, julgados e devidamente condenados, sejam eles pessoas físicas ou jurídicas, brasileiros ou norte-americanos. Não podemos aceitar que durante as investigações que envolveram o Vôo 1907, o acesso ao inquérito e aos dados da caixa preta do Boeing tenha ficado restrito à aeronáutica, à GOL, aos pilotos do Legacy e à ExcelAir, e que nós, familiares das vítimas, tenhamos sido impedidos de ver os autos sob a alegação de sigilo. Como é possível que os maiores prejudicados com toda essa tragédia não tenham direito de ser informados sobre o que realmente aconteceu? A nós familiares, resta lutar para que esse tipo de tragédia não se repita ou acabe no esquecimento, para que as leis sejam mais eficazes e que haja de fato uma prevenção para evitar futuros acidentes. Por isso nos impomos a missão de mobilizar constantemente a sociedade brasileira pela busca da segurança do tráfego aéreo; agindo em defesa da memória das 154 vítimas do acidente com o Vôo 1907 da GOL; lutando pela continuidade do tratamento psicológico aos familiares; acompanhando detidamente o desenrolar das ações judiciais cível e penal resultantes desse fato, bem como as atividades das duas comissões parlamentares de inquérito existentes no Congresso Nacional. Vamos continuar buscando apoio das autoridades, da imprensa e da sociedade brasileira no intuito de: 1. Viabilizar a ida dos familiares ao local do acidente no final do mês de setembro/2007, para prestarmos homenagens aos nossos entes queridos e também aos proprietários da Fazenda Jarinã, que tanto nos ajudaram ao ceder sua propriedade para servir de base para o resgate e pré-identificação das vítimas, além de outros agradecimentos; 2. Formular e implementar políticas públicas que regulamentem a provisão de assistência médica e psicológica obrigatória aos familiares das vítimas de acidentes de grandes proporções; 3. Instituir, no dia 29 de setembro, o Dia Nacional da Segurança do Tráfego Aéreo Brasileiro; 4. Havendo comprovação da responsabilidade da União, que o governo federal responda prontamente, também no âmbito administrativo, no que diz respeito à concessão de indenizações e pensões devidas aos familiares; 5. Atualizar o valor do Seguro RETA, com efeito retroativo, uma vez que ele é insuficiente para atender as necessidades emergências de muitas famílias que nesse tipo de acidente perderam seu provedor; 6. Alterar o conteúdo da lei que permite a liberação de estrangeiro suspeito de cometer crime no Brasil não só em caso de acidente aéreo (como ocorreu com os pilotos do Legacy), mas em outros casos; 7. Apurar as responsabilidades e punir os culpados pelo extravio dos pertences das vítimas do Vôo GOL 1907; 8. Divulgar aos familiares das vítimas as informações sobre a caixa preta do Boeing da GOL; 9. Investigar e punir os responsáveis pela distribuição, sem a devida autorização, de fotos, vídeos e imagens, dos despojos encontrados no local do acidente, bem como, daqueles analisados pelo IML-DF; 10. As companhias aéreas sejam obrigadas, no caso de acidentes aéreos ou desaparecimento de aeronaves a disponibilizar a lista de passageiros, no aeroporto de origem, diretamente aos familiares das vítimas no menor período de tempo possível; 11. Que a Justiça Brasileira traga os pilotos americanos para o depoimento agendado para 27 e 28 de agosto de 2007; 12. Todos os culpados sejam punidos. Nós, parentes das vítimas do Vôo Gol 1907, agradecemos a toda a sociedade brasileira e a comunidade internacional, órgãos públicos e privados, e todos aqueles que direta ou indiretamente contribuíram e contribuem para minorar nosso sofrimento, abraçando nossa causa e lutando por um país mais digno e justo. Esperamos poder contar com o empenho das autoridades para moralizar os órgãos responsáveis pelo setor aéreo e para evitar que outras tragédias ocorram. Aproveitamos a oportunidade para reiterar nossa solidariedade aos familiares das vítimas do Vôo 3054 da TAM, os quais, como nós, estão em busca da VERDADE e da JUSTIÇA! Associação dos Familiares e Amigos das Vítimas do Vôo GOL 1907. 

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