Wilton Júnior/AE
Wilton Júnior/AE

Famílias ainda tentam reconstruir a vida na serra do Rio, 1 ano após tragédia

Há gente em abrigos, sem receber aluguel social prometido pelo governo do Estado; casas populares também não foram erguidas

Felipe Werneck, enviado especial de O Estado de S.Paulo

07 Janeiro 2012 | 23h07

NOVA FRIBURGO - Um ano depois de ter a casa destruída pela enxurrada em Nova Friburgo, na região serrana do Rio, Maria Helena da Silva, de 45 anos, continua morando em um abrigo improvisado em um posto de saúde da prefeitura com o marido, dois filhos e a neta de 5 anos. Até hoje, ela não recebe o aluguel social, uma ajuda de R$ 500 que o governo do Estado afirma pagar a 7.250 famílias nas cidades atingidas pela chuva em janeiro de 2011. Desse total, 2.552 vivem em Friburgo.

"Dinheiro não é importante. O importante é ter uma casinha para morar com meus filhos", diz Maria Helena. Nenhuma das 6 mil unidades habitacionais prometidas pela presidente Dilma Rousseff em visita à região na época do desastre foi construída. Maria Helena morava no loteamento Alto do Floresta e conseguiu sair de casa a tempo, após o primeiro estalo. Perdeu um casal de primos e muitos amigos. Só em Friburgo o temporal matou 428 pessoas.

Ela ainda guarda suas roupas em caixas de papelão. A família vive com R$ 200 que o marido dela, Antônio Basili, de 40 anos, recebe como soldador e R$ 300 que o filho Maciel, de 17, ganha em uma escola de tênis. Desempregada, Maria Helena estudou só até a 1.ª série.

Ela conta que foi várias vezes à prefeitura, mas não conseguiu o aluguel social. Agora, espera receber do Estado. Uma vizinha da família no Alto do Floresta, Maria de Lourdes Oliveira, de 60 anos, afirma que a Defesa Civil nunca subiu lá. A casa dela, no topo do morro, tem uma rachadura que corta todo o piso da sala. "Quando começa a chover, até estremece. Medo a gente tem, mas vai para onde?" No consultório transformado em quarto para receber a família de Maria Helena, não há espaço para cinco camas. Trinte e oito pessoas continuam vivendo no abrigo. O varal fica no corredor.

"Para vocês da imprensa passou um ano. Para a gente, foi ontem", diz Gilberto de Souza Filho, da Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social de Nova Friburgo. Ele reconhece que o local "não tinha e não tem" estrutura. "A culpa não é nossa. Eram 980 pessoas em 93 abrigos. Hoje, temos 38 e só nesse." Souza termina a conversa com uma promessa: "Até o fim do mês, não haverá ninguém em abrigo."

Em Córrego Dantas, o cenário ainda é de destruição. Marilene Barbosa da Rocha, de 57 anos, também conta que não recebe o aluguel social. A casa dela fica na "linha vermelha", à margem do rio, com risco de inundação. "Quando chove, ninguém dorme", diz. A irmã dela, Magda Azevedo Barbosa, de 36 anos, diz que não sai porque não pode.

Lei. O presidente da Câmara, Luciano Faria (PDT), lembra que, por lei, o aluguel social só poderá ser renovado até janeiro de 2013. "As casas precisam ficar prontas até o fim do ano."

O terreno escolhido pelo governo para a construção de 2,2 mil moradias fica a 11 km do centro, na localidade conhecida como Trilha do Céu, perto do cemitério onde foram enterradas várias vítimas da tragédia. O terreno anterior, desapropriado em 15 de janeiro de 2011 pela prefeitura, foi considerado inadequado. O governador Sérgio Cabral (PMDB) atribuiu o atraso das obras à escassez de áreas disponíveis. "Vivemos em um País democrático, isso aqui não é uma ditadura onde o governo decide fazer uma obra e a partir daí não se seguem critérios técnicos."

Ele comparou a situação na região serrana à recuperação de Nova Orleans, nos EUA, afetada pelo furação Katrina em 2005. "O primeiro ano deles, se comparado ao nosso, foi pior." Obras importantes de infraestrutura continuam na promessa. "Quase nada mudou", diz Adacto Ottoni, assessor de meio ambiente do Crea-RJ. "Obras que farão efeito não saíram do papel." / COLABOROU TIAGO ROGERO

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