Pablo Pereira/Estadão
Pablo Pereira/Estadão

Famílias cobram informações sobre desaparecidos; 'ainda pode estar viva', diz parente

Enquanto parentes sofrem com demora na localização das vítimas em Brumadinho, clima no cemitério da cidade é de consternação

Pablo Pereira, Enviado especial

28 de janeiro de 2019 | 23h46

BRUMADINHO (MG) - “O celular da minha mulher (Natália Porto Araújo) está na mata, acima da barragem. Ela pode estar viva ainda”, afirmou Jorge Santana Porto Araújo, um dos familiares que estava no posto de informações da Vale que centralizava a busca por desaparecidos em Brumadinho. Foi a família de Araújo, desesperada com a demora, que localizou o ponto no qual Nathália teria usado o telefone pela última vez.

Durante minutos, a família comemorou a possibilidade de que ela estivesse viva. Mas, segundo equipes de resgate, até o início da noite não havia confirmação de localização. “A gente rastreou o telefone dela”, contou o marido. Por volta das 18 horas, com helicópteros decolando e equipes de resgate chegando a todo momento, Araújo queria que os socorristas fossem até o local indicado por ele para fazer buscas. “A família está desesperada”, afirmou a Sueli Araújo, cunhada de Natália, que tem 25 anos e dois filhos.

O drama dessa família repete o sofrimento da família do soldador Josué Oliveira da Silva, de 27 anos, funcionário da Vale. “Está faltando mais empenho”, afirmou no fim da tarde o pai de Josué, o pedreiro José Ferreira da Silva, que estava inconsolável, ao lado da mãe do rapaz, Darcília, e da filha, Daiane. 

No mesmo salão, montado pela Vale para acolhimento das famílias e cadastro das vítimas do desastre, ao lado do ponto no qual se concentram os socorristas e a base dos helicópteros, que saem e chegam a todo momento, mais uma cena de desespero. A família de Wesley Antonio das Chagas, de 37 anos, casado, operador de máquinas da Vale, também reclamava atenção. “Mas ninguém sabe dizer nada, dar informação correta”, afirmou Samuel Alves da Costa, cunhado da vítima.

Enterros

Enquanto isso, o clima nos cemitérios da cidade foi de consternação desde cedo. A movimentação nos cemitérios era para receber os corpos dos primeiros dos 19 mortos identificados no Instituto Médico-Legal de Belo Horizonte – à tarde, o número foi atualizado para 65, com 279 desaparecidos.

O motorista Mauricio de Lemos, de 53 anos, foi o primeiro a ser enterrado no cemitério Parque das Rosas, no bairro Salgado Filho. O corpo dele foi encontrado em um local que fica na frente de onde funcionava o refeitório da Vale, destruído pela avalanche de lama. Desolada, a filha dele, Juliana, afirmou, durante a cerimônia, que o pai contava em casa que teria transportado sacos de areia para a área da barragem. “Aquilo lá foi uma tragédia anunciada”, disse. 

Ainda pela manhã, foram enterrados no Parque das Rosas outros dois trabalhadores. O local estava sendo preparado desde domingo e tem covas abertas, com três carneiras, com capacidade para receber até 98 corpos. Um deles foi para David Marlon Gomes Santana, de 24 anos, solteiro, que segundo os documentos do Instituto Médico-Legal de Minas Gerais foi vítima de politraumatismo. Ele trabalhava para uma empresa terceirizada da Vale. Depois, foi a vez de ser sepultado Francis Marques da Silva, de 34 anos, casado, também politraumatizado na avalanche de lama da mina do Córrego do Feijão. “Isso aqui é muito difícil”, afirmou Rafael Carlos da Silva, de 21 anos, amigo de David. 

Segundo a Prefeitura, há enterros que nem contam com velórios. Uma rápida cerimônia de despedida marcou o funeral de David Marlon, já no cemitério Parque das Rosas, minutos antes do sepultamento. Foi assim também com Francis, que deixa uma filha. O enterro de Renato Rodrigues Maia, também resgatado da tragédia, foi no cemitério central, ao lado do centro da cidade, onde foram feitos velórios.

No fim da tarde, a família do empresário Adriano Ribeiro da Silva, de 60 anos, que teve os cinco integrantes atingidos pela tragédia, aguardava informações no centro da Vale. Eles estavam hospedados na Pousada Nova Estância, que foi destruída. Com a mulher, Maria de Lurdes Bueno, de 59 anos, mais os filhos Camila e Luiz, a nora Fernanda Almeida, grávida, que vieram da Austrália para visitar Inhotim, o empresário teve de ir à capital na sexta-feira pela manhã para buscar a filha que deveria ter chegado na véspera, mas o voo atrasou e terminou por pousar em Ribeirão Preto.

Com o contratempo, ela chegou a Belo Horizonte na sexta pela manhã. O pai foi buscá-la. Quando chegaram à pousada, perto do meio-dia, houve o desmoronamento . “Se não tivesse havido esse atraso do voo, eles teriam saído da pousada cedo”, disse o administrador de empresas Renato de Souza Dias, sobrinho de Adriano. 

 

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