Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Famílias de Brumadinho choram seus desaparecidos

Pais, mães, maridos, mulheres e filhos esperam por notícia – qualquer uma, de vida ou morte. Esgotados emocionalmente, imaginam que o familiar possa estar perdido na mata

André Borges, ENVIADO ESPECIAL

30 de janeiro de 2019 | 03h00

BRUMADINHO (MG) - As vozes são de desespero e estão espalhadas pelas ruas da cidade, por dentro da mata, nas encostas da tragédia, nas áreas onde o barro já secou, em trilhas e hospitais. Estão nos bloqueios policiais, nas unidades de atendimento. São as vozes das famílias, daqueles que perambulam dia e noite por Brumadinho em busca de alguém.

A tragédia da mina de rejeitos da Vale não cessou. Ela se agrava a todo instante e avança dentro de cada um que ainda espera por uma notícia sobre seu desaparecido, seja ela qual for. Na semana passada, o pedreiro Wilson Joaquim Fonseca da Silva ainda celebrava o primeiro emprego da filha, Camila Aparecida, de 16 anos. A menina havia arrumado uma vaga como camareira na Pousada Nova Estância apenas quatro dias antes de a barragem acabar com tudo e a construção desaparecer embaixo da lama.

“Minha menina estava feliz. Falou que ia usar o primeiro salário pra reformar a nossa casa”, diz o pai, aos prantos. “Ela gostava de se pintar, de ficar bonita. E brigava comigo para eu comprar um batom, um esmalte pra ela.”

A indignação causada pela falta de informações sobre a localização de vítimas desaparecidas é generalizada entre as famílias, por mais que as autoridades e a mineradora Vale insistam em declarar, oficialmente, que prestam todo apoio possível. “Vejo essas pessoas discutindo multas, esses bilhões todos, enquanto o meu irmão está embaixo daquela lama e ninguém tira ele de lá”, diz Angélica Maria de Souza, irmã de Renato Eustáquio de Souza, de 30 anos, desaparecido. “É um descaso com as pessoas. Dinheiro nenhum vai trazer meu irmão de volta.”

São poucos os que ainda tentam expressar alguma expectativa de encontrar alguém com vida. Já se passaram mais de quatro dias desde a tragédia. Nos relatos que colhi em diversos pontos da cidade, a angústia trazida pelas famílias, quase sempre, é pelo desfecho da história. Por seu fim. 

Manuel Almeida Andrade, pai de Lenilda Cavalcanti Andrade, de 36 anos, desaparecida, só quer ter o direito de enterrar a filha. “Saí de Parauapebas, no Pará, atrás da Lenilda. Eu vim atrás do corpo de minha filha. Não terei sequer esse direito respeitado?”

Os retratos para identificar os parentes não estão mais em fotos de papel. Migraram para as telas do celular, onde as fotografias dos desaparecidos são compartilhadas em redes sociais, com quem for possível. O aposentado José Rodrigues de Amorim lamenta não ter a habilidade de saber usar as tecnologias que poderiam ajudar a encontrar seu filho João Paulo Ferreira de Amorim, de 31 anos, desaparecido. “Não consigo mexer nessas coisas, não sei fazer isso.” 

O pai recorre à carteira de trabalho do filho para mostrar uma foto três por quatro. É um ajudante de serviços gerais da mina. O rapaz é o faxineiro. Limpa as dependências da Vale, seus departamentos e refeitório desde junho de 2018, tudo por um salário de R$ 1.137,93 por mês. João Paulo é casado e tem uma filha de 4 anos que ainda espera por ele em casa. “Já são mais de quatro dias sem dormir, a família nem consegue vir até aqui. Está muito difícil”, diz o pai, que desaba em choro. 

Sem dormir, sem comer. Com o passar dos dias, Brumadinho passou a reproduzir uma população em transe. As pessoas praticamente não dormem desde o rompimento da barragem, não se alimentam direito, mal trocam de roupas. Em uma das bases montadas na cidade para prestar informações sobre os desaparecidos, pude ver que voluntários tentam apoiar os familiares que chegam em busca de alguma notícia, prestam os primeiros socorros, oferecem água, bolacha, assistência psicológica. Não há dúvidas. Em todas as ocasiões, os voluntários são bem acolhidos pela população. Mas que não se fale sobre a Vale ao lado das famílias.

“Passamos cinco dias tentando obter alguma informação sobre minha irmã, não tivemos nenhum retorno. Só depois de insistir muito é que alguém telefonou de volta”, afirma Karine Naiara da Silva Andrade, irmã de Natália Fernanda, de 32 anos, desaparecida. A moça trabalha há sete anos na mineradora, como analista administrativa. “Não temos nada a dizer sobre os voluntários, que nos apoiam, mas essa empresa é só descaso, não pode fazer isso com a gente.”

Ao esgotamento emocional e psicológico de cada um, pesa cada vez mais o esgotamento físico. Famílias inteiras dormem sobre cadeiras, bancos, encostam em algum canto, numa espera prazo. 

Há ainda quem acredite que o familiar pode estar vivo. Estaria perdido em algum lugar da floresta, vagando sozinho. Se acidentou, correu para alguma gruta e não conseguiu sair. Está passando fome, sede, frio e precisa de ajuda antes que seja tarde.

Foi esse o sentimento que correu no sangue de Paulo Anniceto Gomes, que decidiu não esperar mais pelas respostas burocráticas que chegavam das buscas oficiais. “Ontem (terça-feira) peguei a moto e entrei na mata atrás do meu filho. Corri pela floresta o dia inteiro, gritava o nome dele.”

Paulo não o encontrou. O jovem Everton Guilherme Ferreira Gomes, de 20 anos, é técnico de planejamento e gestão da mina no Córrego do Feijão. Apaixonado por futebol, é goleiro de aluguel do Comercial Esporte Clube, time que se orgulha das décadas de história no coração do Barreiro, nome de um bairro de Belo Horizonte. “Eu ainda acredito. Ele vai aparecer”, afirma o pai. 

A família Anniceto é uma das que têm esperança de sair da lista dos quase 300 desaparecidos que orbitam a catástrofe de Brumadinho. Encontrei Paulo e seus parentes na beira de uma estrada que ainda está bloqueada pela polícia, por causa do fluxo ininterrupto da lama podre que ainda desce pelo vale e cruza o asfalto. “Estamos rondando a região, olhando tudo, estamos em busca do nosso garoto.” 

Paulo espera por respostas urgentes. Espera por seu filho, para que sua família, viva, não se torne mais uma das vítimas fatais da tragédia.

 

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