Famílias de vítimas do vôo 1907 temem por investigação

Insatisfeitos com a condução das investigações, com a falta de informações sobre o caso, e temerosos de que os culpados não sejam responsabilizados e julgados, os familiares das 154 vítimas do vôo 1907 da Gol, que caiu após colidir com o jato Legacy em setembro, no Mato Grosso, divulgaram nesta sexta-feira, 2, uma carta aberta à população na qual apresentam suas queixas.Destacam, entre elas, o fato de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não tê-los recebidos em audiência, conforme pedido feito por eles. "O presidente Lula tem tempo para receber diversas delegações de times de futebol, mas não tem lugar na agenda para atender 154 famílias enlutadas", desabafa Angelita de Marchi, vice-presidente da Associação dos Familiares e Amigos das Vítimas do Vôo 1907. A carta está sendo encaminhada diretamente também para os presidentes da República, da Câmara, do Senado e do Supremo Tribunal Federal (STF). No próximo dia 8 de março, de acordo com os familiares das vítimas, está prevista mais uma reunião com o Comando da Aeronáutica. Detalhes das investigaçõesNa carta, os familiares reclamam das dificuldades enfrentadas para conseguirem ter acesso aos detalhes das investigações e a demora na conclusão dos trabalhos da Comissão de Investigação da Aeronáutica sobre o choque entre o Legacy, da ExcelAire, e o Boeing da Gol. "O combate à impunidade pode não ser prioridade do Poder Público, mas é do povo brasileiro. Nós, os familiares das vítimas do vôo 1907, indignados, queremos respostas e queremos dizer "não" à impunidade", afirmam os familiares. Eles ressaltam ainda "o temor de que as investigações continuem sob um manto velado, com o intuito de atenuar evidências, esvaziar responsabilidades e, conseqüentemente, evitar a aplicação da lei aos responsáveis pela tragédia". Os familiares alegam que continuam sendo "reféns do silêncio das autoridades, que não esclarecem nossas dúvidas, não minimizam nossa dor e não sinalizam para a perspectiva de que será feita justiça a 154 brasileiros, que perderam a vida de forma tão dolorosa e violenta". Lamentam ainda o fato de terem tomado conhecimento de que a Aeronáutica pode adiar, mais uma vez, as conclusões sobre as investigações que realiza para além de setembro, mês que marca um ano da tragédia e a liberação dos passaportes dos pilotos norte-americanos pela Justiça brasileira.No documento, os familiares salientam ainda que "considerando que os familiares não tiveram acesso à transcrição da caixa- preta, mas apenas à divulgação pela mídia das transcrições dos diálogos das gravações da caixa-preta do Legacy e entre as torres de controle, que deixaram transparecer a inexperiência e a imprudência dos pilotos do Legacy em operar os equipamentos e suas dificuldades de comunicação com os controladores brasileiros, além da confirmação de que os pilotos afirmam nos diálogos estarem com o TCAS (equipamento anti-colisão desligado) e terem batido em "alguma coisa"; fato que em depoimento às autoridades brasileiras, negaram", e "considerando a decisão de liberar os pilotos americanos, a despeito do indiciamento da Polícia Federal, e da negativa dos mesmos de voltarem ao Brasil para depor", eles falam do temor da impunidade no caso. Temor"Vimos a público manifestar nosso temor de que as investigações continuem sob um manto velado, com o intuito de atenuar evidências, esvaziar responsabilidades e, conseqüentemente, evitar a aplicação da lei aos responsáveis pela tragédia", declaram os familiares. E acrescentam: "continuamos reféns do silêncio das autoridades, que não esclarecem nossas dúvidas, não minimizam nossa dor e não sinalizam para a perspectiva de que será feita justiça a 154 brasileiros, que perderam a vida de forma tão dolorosa e violenta". Por fim, os familiares questionam com quem está o resultado da transcrição da caixa preta do Boeing da Gol, onde estão a íntegra dos exames feitos nos pilotos americanos, ainda em Cachimbo, e as perícias realizadas no Legacy, e por que foi colocado fogo no que restou do avião da Gol, eliminando dados sob investigação. O que eles querem evitar, alertam, é que a queda do vôo 1907 também não seja investigada a fundo, nem apontados e punidos os culpados pela tragédia. "Se, quem comete um ilícito, não está mais obrigado a repará-lo - por deficiência ou inoperância do Estado e da lei - isso terá, certamente, um efeito pernicioso sobre todo o tecido social, aprofundando uma chaga da qual o País padece", completam.

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