Famílias destruídas e as lembranças de uma catástrofe

Dor e tristeza. Água demais nas ruas e lágrimas demais nos olhos. Juntamente com a chuva e o barro, centenas de vidas perdidas e centenas de famílias enlutadas. Nos abrigos ou em casa de parentes, o sentimento é o mesmo: unir-se em busca de forças para se reerguer. Nesta trágica semana, mais de 1 milhão de catarinenses foram atingidos e 45 cidades inundadas. A seguir, há relatos, imagens desoladoras, pedidos de socorro, tristeza de moradores que terão de reconstruir suas histórias e depoimentos impressionantes que mostram a força de um recomeço. ?TUDO QUE EU TINHA ERA ELE?No sábado retrasado, antes de almoçar com a família, o jardineiro André Alexandre Bittencourt, de 28 anos, resolveu arrumar um encanamento nos fundos da casa, em Brusque, no Vale do Itajaí, que estava impedindo que a água chegasse até o chuveiro do banheiro. A casa onde vivia com a mulher, há 1 ano e 7 meses, estava cheia naquele dia. Além da mãe, Maria Bittencourt, de 44 anos, familiares da sua mulher que vieram do Nordeste também estavam presentes. "Em 16 anos que eu moro aqui, nunca vi isso. De repente, meu filho ficou esmagado entre o fogão e aquele monte de terra e eu não podia fazer nada", desespera-se a mãe. André foi adotado por Maria quando ainda era bem pequeno. Era seu único filho. "Tudo o que eu tinha na vida era ele." A casa onde vivia está interditada e ameaça a casa vizinha onde mora sua mãe. Maria Bittencourt está temporariamente na casa dos seus vizinhos. Já a imagem da morte de Alexandre nunca será esquecida.?VER O MUNDO CAIR É UMA COISA QUE NINGUÉM IMAGINA?No quarto 21 do Hospital Santo Antônio, em Blumenau, Luis Carlos Ostins, de 42 anos, recupera-se aos poucos das fraturas e ferimentos decorrentes dos deslizamentos que atingiram sua casa em Ilhota, no Vale do Itajaí. Difícil será esquecer a tragédia que tirou da sua vida dois filhos e dois sobrinhos. Apesar das fortes trovoadas, a família de Luis Carlos não imaginava que a noite do domingo fosse marcante. "Nós não vimos perigo. À noite, sentamos, jantamos e rezamos para que as coisas se acalmassem. Meu filho mais velho andou 12 quilômetros na mata para ficar perto de nós e, agora, eu perdi ele. Perdi ele e a minha caçula." Luis Carlos Ostins Júnior, de 17 anos, saiu do bairro Belchior, no município vizinho em Gaspar, onde trabalhava, para encontrar sua família. Sua irmã Maria Tatiana Ostins, de 7 meses, os primos João Pedro da Silva, 1 ano, Maria Joana da Silva, de 7 meses, e Nelson Gaudino da Silva, de 62, também morreram soterrados. Luis Carlos conta que viu quando uma parte da laje desabou sobre a sua cabeça, empurrando-o para o primeiro piso da casa de dois andares. "Só me lembro de ouvir os gritos da minha sogra e escutar meu filho mais velho pedindo socorro. Ver uma enchente é uma coisa, mas ver o mundo cair na sua cabeça é uma coisa que ninguém imagina."?FECHO OS OLHOS E SÓ VEJO LAMA E LODO?Quando o barulho estrondoso anunciou mais um deslizamento de terra no distrito de Sertão Verdão, em Gaspar, Ezequiel Ribas Figueira, de 28 anos, que sobreviveu à tragédia, só teve tempo de agarrar o filho, a mulher e dois sobrinhos e sair correndo. Na casa onde se refugiou com outros familiares, na tarde de domingo, sete familiares morreram engolidos pela avalanche de lama e árvores. Mais de 48 horas depois da tragédia, cinco corpos foram encontrados mergulhados em meio aos escombros. Os corpos de Débora Mendonça de Oliveira, de 26 anos, que estava grávida de 2 meses, e da filha Esther Mendonça de Oliveira, de 3 anos, ainda estavam abraçados debaixo da lama. Cerca de 30 metros de onde mãe e filha foram achadas, voluntários localizaram Jéssica Cavalheiro, de 14 anos, Elienai Mendonça de Oliveira, de 9, e Maria Mendonça de Oliveira, de 49. No fim da tarde de terça-feira, enquanto dezenas de pessoas se aglomeravam na frente do Cemitério Municipal de Gaspar, para acompanhar o enterro das vítimas, Ezequiel Ribas Figueira ajudava o Corpo de Bombeiros nas buscas de outros dois corpos. "Sabe quando você está na praia, olha para trás, e corre da onda que vem na sua direção? Foi tudo muito rápido. Eu fecho os olhos e só vejo lama e barro."ELES ESTÃO AÍ! COMO VOU CONTINUAR VIVENDO?Freqüentador da Igreja Assembléia de Deus, Francisco Mendonça, de 49 anos, que escapou da morte porque não conseguiu voltar do trabalho, busca forças na fé para compreender tamanho infortúnio. Sua família, ao perceber as águas ocupando o pátio da casa, abrigou-se na residência de alvenaria de vizinhos porque julgava o local seguro. "Era hora deles. Só pode ser isso. Não tem explicação", diz o vigilante que comemoraria em fevereiro 30 anos de casamento. Enquanto olha os retratos da família na sala de casa - aquela em que a mulher, Maria, temia permanecer e que nem sequer teve seus cômodos inundados -, Francisco se desespera. "Aqui eu não tenho mais como morar. Olhar as paredes com esses retratos... Eles estão aí! Como vou continuar vivendo? Agora preciso ajudar a minha outra filha (Jussara). Só restou eu e ela da nossa família."?DE REPENTE NÃO SENTIA MAIS OS PASSOS. TODOS NA CASA FORAM SOTERRADOS?A primeira coisa que Roberto Carlos Cunha, de 42 anos, viu na hora que chegou ao local onde residia a família de seu irmão foi o joelhinho da sua sobrinha Larissa Conceição, que completaria 9 anos neste domingo, e estava envolto nos escombros. Roberto havia escutado os estrondos, mas não imaginou que a terra tivesse atingido a família de Luciano Conceição, de 32 anos, seu irmão adotivo. O local parecia o mais seguro do Loteamento Santa Rita, no Bairro Fortaleza Alta, em Blumenau. Por isso mesmo, muitos vizinhos da Rua das Bromélias resolveram colocar os móveis e outros pertences no local. Assim que souberam dos deslizamentos, Roberto, a mulher, Elvira Rozanski Cunha, de 39 anos, e outros familiares enfrentaram na escuridão as ruas alagadas na tentativa de salvá-los. "Quando eu cheguei lá, não acreditei. Escutamos uns gemidos e depois de duas horas e meia conseguimos resgatar dos escombros dois dos meus sobrinhos. A parte mais difícil foi retirar os três mortos", conta Roberto. A estudante Maria Carolina Ladislau, de 13 anos, não resistiu e foi encontrada sem vida pelas equipes de busca na mesma cama onde havia se deitado para dormir. Liziane da Conceição, de 6 anos, teve mais sorte e foi resgatada pelos familiares. A mulher de Luciano, Josiane Ladislau, de 29 anos, também foi encontrada com vida. Apenas sua cabeça ficou fora dos escombros. Entre seus braços e pernas, o caçula Matheus Henrique da Conceição, que completou 4 anos na quarta-feira passada, apresentava apenas ferimentos leves na face. A casa que foi destruída e separou a família já estava vendida - no começo do mês, eles planejavam mudar.?ONDE É QUE A GENTE VAI VIVER AGORA??Maurício Macagge, de 37 anos, e Joice Elita dos Santos, de 29, viviam juntos há seis anos. Eles se conheceram na padaria da família da Joice, no bairro Fortaleza Alta, e planejavam ter filhos. A casa onde moravam há dois anos, no Loteamento Santa Rita, que soterrou os sonhos e a vida do casal, era a primeira residência própria. No local onde foram destruídas duas casas, na madrugada de sábado, dia 22, o carro esmagado de Maurício e Joice dá uma idéia da força da terra que foi capaz de matar cinco pessoas. "Seguro não tem ninguém por aqui nesses morros. A gente vive num buraco. Nas baixadas não dá para morar porque tem enchentes. Nos morros, a terra desliza. Onde é que a gente vai viver?", indaga Avelino Cordeiro dos Santos, de 58 anos, pai de Joice.''A GENTE ACHAVA QUE AQUI ERA SEGURO?Na manhã de segunda-feira, os corpos do casal Eliane Beatriz, de 39 anos, Adilson Bezerra, de 35, e da sua filha Sabrina Larissa Bezerra, de 9, foram encontrados todos juntos no meio da lama que pintou de vermelho as ruas do bairro da Velha Central, perto do Morro Ristow. A mãe de Eliane, que sobreviveu à queda da encosta que matou cinco pessoas na noite anterior acredita que foi "o amor muito grande entre eles" que manteve a família unida. Na residência arrastada pela avalanche de lama da semana passada, apenas a filha mais velha de Eliane, Ileana Maísa Michelmann, de 21 anos, conseguiu se salvar - porque estava na casa do namorado. A irmã mais nova de Eliane foi a primeira a ver "as árvores deitando e descendo o morro como se estivesse acontecendo um furacão na escuridão". Eliane e Adilson estavam juntos havia 11 anos. Tinham acabado de construir um galpão para investir em uma nova confecção. Adilson morreu no dia em que comemorava seu aniversário. "Viemos pra cá fugindo da enchente de 1984. Vendemos tudo e nos mudamos. A gente achava que aqui era seguro", conta o patrono da família, Leonardo Chiminelli, de 63 anos, ainda com lágrimas nos olhos.?NÃO QUERO MAIS PERDER PEDAÇOS DA MINHA FAMÍLIA?Entre os calçados e as roupas arrecadados para a doação das vítimas atingidas pela tragédia natural que assolou Santa Catarina, Alda Maria Torres, de 40 anos, chora no Clube Caça e Tiro Itoupavazinha, onde está abrigada desde o dia 23, a morte dos dois filhos que foram soterrados pela força das águas e da lama que despencou dos morros. Se não tivesse ficado ilhada no Parque Vila Germânica, onde estava trabalhando em mais um evento, a vigia acredita que poderia ter evitado, ao menos, a morte da filha mais velha, Michelli Malikovski, de 26 anos, que vivia com o irmão Diego, de 23 anos, e resolveu passar na casa da mãe para fazer uma refeição. "Eles eram muito unidos e por isso resolveram morar juntos. E agora acabaram indo embora juntos também", desabafa a mãe. Os irmãos blumenauenses moravam na Rua Botuverá. Diego trabalhava como auxiliar gráfico e Michele era vendedora e massagista. Eles costumavam aproveitar as férias no Rio Grande do Sul, onde visitavam o pai e a avó paterna. "Desde o dia 9 eu não consegui ver o meu filho. A gente estava até combinando um almoço ou jantar." A casa de Alda também foi atingida pelas enchentes. Juntamente com sua filha Francine Torres Soares, de 19 anos, sua irmã e sua sobrinha, Marcela da Silva Aguiar, a vigia está em um dos mais de 50 abrigos de Blumenau. "Não quero mais perder pedaços da minha família. Resolvemos ficar todos juntos."?DE REPENTE VEIO AQUELA AVALANCHE DE BARRO?Roger Simas Lana, de 16 anos, não queria morar na casa recém-alugada pela família, na Rua Paulo Krause, no bairro Água Verde. Ele achava que o terreno estava em uma área de risco. A primeira pessoa que percebeu os deslizamentos, na tarde de sábado, foi a prima do estudante, Júlia Erotides Simas Dellarosa, de 7 anos. Depois de alertar os familiares sobre as quedas de encosta, ela resolveu sair da casa e foi avisar o pai. "Tinha pouca terra caindo, mas de repente veio lá de cima aquela avalanche de barro. A minha sorte foi que consegui fechar uma das portas porque senão seria soterrada juntamente com minha filha", relembra a mãe do estudante, Lilia Simas, de 45 anos. Roger estava embaixo da casa no momento do deslizamento e não teve tempo para correr. Seu corpo foi localizado pelos seus familiares, no domingo, no meio dos escombros. Apesar da pouca idade, ele já trabalhava em uma loja de material de construção.?ANTES DE MINHA MÃE SUMIR NO RIO, PUDE VÊ-LA AFUNDANDO TRÊS VEZES?A forte chuva que assolou cidades do Vale do Itajaí foi capaz de mudar o curso do Rio Ribeirão Garcia, que passa próximo das residências dos moradores do bairro Progresso, uma das comunidades que está isolada por barreiras em Blumenau. A violência das águas foi tanta que acabou invadindo o quintal e a casa da diarista Lourdes de Aguiar Wandscheer, de 56 anos, durante 36 horas, destruindo também o espaço utilizado como campo de futebol. Conhecida no bairro como uma mulher muito dinâmica e irrequieta, Lourdes morava sozinha havia muito anos. Depois que as águas das chuvas invadiram e enlamearam sua casa, e também a de outros moradores, ela resolveu se arriscar perto do rio para pegar, com o auxílio de um balde, um pouco do líquido para limpar a casa. "Acho que ela perdeu o equilíbrio. A correnteza estava muito forte e não tivemos como ajudá-la", conta o filho Renato Antônio Wandscheer, de 33 anos, que chegou a se jogar no rio para tentar salvar a mãe.?DA MINHA CASA, EU PODIA VER AS PALMEIRAS DESCENDO?O conferente de cargas Jomi Régis, de 35 anos, queria ficar na sua casa na noite do último domingo. Apesar da chuva forte que caía em Blumenau e de a sua residência estar localizada em uma encosta que oferecia riscos, no bairro Ponta Aguda, ele e a mulher, Cátia Virgínia Ramos, de 33 anos, não ficaram no apartamento onde estavam com outros familiares. Mesmo sabendo da insistência de Jomi, seu irmão caçula, André Régis, de 21 anos, ficou preocupado ao ver a intensidade da chuva que assolava a cidade e resolveu ir buscá-lo. "Da minha casa, eu podia ver as palmeiras descendo o morro. Parece que eu sabia que alguma coisa podia acontecer", contou André. Quando chegou na casa, André não teve tempo de retirar o irmão. A casa desmoronou soterrando todos que estavam dentro. André e a cunhada Cátia tiveram ferimentos leves, mas Jomi morreu.SONHO DE UMA VIDAEm 2002, com os seis filhos encaminhados, Antônio, de 58 anos, e Cecília Koch, de 61, realizaram um sonho da vida toda - parar de pagar aluguel. O casal mudou para a casa que foi construída nos fins de semana. Foi dentro dela que foram soterrados na segunda-feira, às 4h30, enquanto dormiam, quando o morro que ficava atrás da residência desmoronou. Eles foram as duas vítimas das chuvas em Rancho Queimado. O casal era zeloso com a casa que foi construída aos poucos. Na frente, uma horta com verduras e um jardim. A pintura: impecável. Dentro, quadros e calendários de santos decoravam as paredes. Atrás da cama em que dormiam estava uma imagem de Santa Paulina. O casal era bastante religioso. Na festa da igreja deste ano, foram homenageados como festeiros de honra. Desde que mudou para Rancho Queimado, há 20 anos, Antônio era assador dos churrascos nos dias da padroeira. Cecília se aposentou como cozinheira de um hotel de Rancho Queimado. Ela tinha problemas de locomoção e já não saía de casa com freqüência. O marido também tinha problemas de saúde. O serviço pesado de uma vida trabalhando como servente de pedreiro causou dores na coluna. Próximo dos 60 anos, os pulmões também não funcionavam direito. Viviam em paz. O sossego do casal acabou na segunda-feira de madrugada, quando o morro atrás da casa construída com sacrifício desmoronou. A terra arrebentou a parede dos fundos e entrou na cozinha e no quarto onde Antônio e Cecília dormiam.MORTE AINDA NA BARRIGAMiguel Tolado Zabio nem chegou a nascer. Morreu ainda na barriga da mãe, Giovana Tolado, quando ela quase foi enterrada viva na avalanche de lodo e mato que despencou sobre sua casa no Morro do Baú, em Ilhota, no domingo passado. Giovana sobreviveu, mas está internada na UTI do Hospital de Itajaí. Os médicos ainda tentaram salvar Miguel, que já tinha nome escolhido, mas não conseguiram. Ele foi sepultado na tarde de anteontem no pequeno cemitério da localidade de Braço do Baú, onde sua mãe vive. Uma outra filha de Giovana, Larissa, de 4 anos, está desaparecida.

ADRIANA FRANCIOSI, CARLOS ETCHICHURY, DIEGO REDEL, FELIPE PEREIRA, FLÁVIO NEVES, RAFAEL DO PRADO, ROMÍ DE LIZ, TATYANA AZEVEDO e TADEU VILANI, O Estadao de S.Paulo

01 de dezembro de 2008 | 00h00

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