Gabriela Bilo / Estadão
Alessandra Negrini no carnaval de São Paulo. Ela é rainha do bloco há oito anos. Gabriela Bilo / Estadão

Fantasias de índio e de negro alimentam polêmica sobre apropriação cultural durante a folia

Alessandra Negrini e tradicional bloco carioca Cacique de Ramos foram alvo de críticas; órgão da prefeitura de BH e Defensoria Pública cearense publicaram cartilhas

Fábio Grellet e Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2020 | 13h01

RIO - Carnaval é aquela festa na qual empregado usa roupa de patrão, homem se fantasia de mulher, branco se veste como índio, certo? Não mais. Assim como o lança-perfume, outrora fartamente consumido durante o reinado de Momo e atualmente proibido, também as fantasias de índio, rastafari, nega maluca, mulher, padre e outras vão acabar, se depender de campanhas lançadas pelo poder público neste carnaval. Recomendações foram feitas, por exemplo, por órgãos de Belo Horizonte e do Ceará. 

A discussão não é nova. Passando pela marchinha É Proibido Proibir até a música Proibido o Carnaval, de Daniela Mercury, as discussões sobre o que pode ou não no carnaval variam de época a época. Podem atingir as letras: hoje marcas do século passado como Cabeleira do Zezé, Mulata Bossa Nova e Índio Quer Apito acabaram praticamente banidas do repertório. Agora, o foco são fantasias e acessórios - quase um século depois de o pioneiro João da Baiana ser preso por vadiagem, apenas por andar com pandeiro na rua. E não há tanto consenso.

A polêmica sobre fantasias de índio começou em 2017 e foi retomada agora, antes mesmo do feriado. No primeiro domingo da folia em São Paulo, 16, a atriz Alessandra Negrini desfilou no bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, do qual é rainha há sete anos, com cocar e pintura corporal com referências aos povos indígenas. 

Nas redes sociais, ela foi acusada de apropriação cultural - usar símbolos indígenas como adereços para se autopromover e ganhar visibilidade. A atriz nega. “A luta indígena é de todos nós e por isso eu tive a ousadia de me vestir assim”, justificou-se depois à imprensa.

Em meio à retomada das críticas às fantasias de índio, internautas elegeram o Cacique de Ramos carioca, bloco criado há 59 anos, como novo alvo. O grupo desfila no Rio desde 1961 e se divide em alas com fantasias indígenas, como Apache, Tamoio, Cheyenne e Família Carajás. 

“Tanta fantasia boa para inventar e a galera insistindo nesses rolês racistas”, escreveu no Twitter uma internauta. “Tem gente do movimento indígena falando sobre como é desrespeitoso com a cultura deles e sobre como esse reforço ao estereótipo é parte de um projeto de apagamento étnico”.


Em nota, o bloco se defendeu. “O Cacique de Ramos compreende e respeita o debate identitário. No entanto, pedimos licença para falar da nossa trajetória. Os pioneiros do bloco possuíam nomes indígenas e eram ligados à umbanda. A agremiação nunca perdeu de vista o componente religioso no seu dia a dia nem suas referências desde a fundação.” 

O presidente do bloco é Ubirajara Félix do Nascimento, o Bira Presidente, de 83 anos. Ele fundou a agremiação ao lado de seus irmãos Ubiraci e Ubirani, que também têm nomes de origem indígena, e integrantes de outras duas famílias.

Cartilhas apontam lista de figurinos 'vetados'

O carnaval sempre foi um elemento de exposição da africanidade - praticamente todas as escolas de Rio e São Paulo, por exemplo, tem algum detalhe afro em enredo e adereços. Mas a liberdade de uso cultural está em discussão aberta. Na capital mineira, o Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial divulgou no dia 13 uma cartilha de conduta durante o carnaval. A publicação, chamada Nota de Orientação para Práticas Não Racistas no Carnaval, tem sete itens. O primeiro critica marchinhas que “perpetuam o racismo velado em expressões de bestialização e hipersexualização do corpo negro”, como as já citadas.

O segundo item critica o blackface, técnica teatral usadas para pintar pessoas brancas como negras. “O Blackface carrega a simbologia do apartheid e no Brasil não deve ser confundido com homenagem”, diz a cartilha. O texto também critica o uso de perucas “black power” ou “nega maluca”, dreadlocks e touca com tranças, que se “traduzem como desrespeito aos símbolos da resistência negra”. Trajar-se como índio ou cigano também é desrespeitoso, diz o material. Homem vestido de mulher, então, nem pensar: é uma atitude machista, desrespeitosa com as mulheres e preconceituosa contra as pessoas trans, acrescenta o texto.

Renata Spallicci, rainha de bateria da escola paulistana Barroca Zona Sul, chegou a fazer publicação nas redes sociais com acessórios remetendo a uma escrava. Criticada, teve de apagar tudo e se desculpou. No ano passado, a Gaviões foi amplamente criticada por fazer alusão religiosa em seu desfile - com o Diabo vencendo Jesus - e chegou a ser acionada judicialmente.    

No Ceará, a Defensoria Pública criou quatro cartazes de alerta contra as mesmas fantasias criticadas pelo órgão municipal mineiro. “As vestes de padres, pastores, judeus e muçulmanos representam costumes, tradições e crenças”, explica um deles. Homem vestido de mulher é atacado em outro: “Não reforce estereótipos de gênero com seu preconceito”, alerta.

Foliões se dividem sobre figurino e músicas para o carnaval

Entre os foliões, as opiniões são divididas. “Tenho filho pequeno e não permito que ele cante marchinhas como Cabeleira do Zezé e Maria Sapatão”, conta a advogada paulistana Maria Elisa Pereira, de 38 anos. “É mais uma agressão aos gays, que já são tão discriminados”, avalia. Mas ela não concorda que todas as fantasias sejam abolidas. “Já fantasiei meu filho de índio e de cigano, e não vejo desrespeito a esses povos em uma criança se fantasiar assim. Para mim é até uma homenagem."

A designer de interiores Mariana Gibran, de 44 anos, condena fantasias que erotizam o corpo da mulher ou estimulam o machismo. “Já me fantasiei de gata, e hoje não repetiria. É uma forma de erotizar o corpo da mulher, e isso é descabido. Mas não tinha essa consciência naquela época”, admite. Mariana vestiu fantasia pela primeira aos 7 meses, levada pelos pais a um baile de carnaval e diz não se sentir ofendida por homens fantasiados de mulher, embora ache “tolo, fora do tempo”.

“O uso da maioria dessas fantasias é relativo, depende do contexto e da intenção da pessoa. Já vi homens vestidos de Santo Expedito e brincando com o fato de ser conhecido como o santo das causas impossíveis, e acho isso divertido, não um desrespeito aos católicos. Então, depende do caso”, diz a designer. Neste ano já desfilou em São Paulo vestida como Elke Maravilha, atriz russa radicada no Brasil, que morreu em 2016.

Para analisar a apropriação cultural no contexto carnavalesco, nós conversamos com o sociólogo Sérgio Barbosa, professor de Sociologia e Filosofia da Universidade Estácio de Sá.

- Como você avalia a questão da apropriação cultural, com o uso de adereços e fantasias indígenas, por exemplo, durante a folia?

Quando essa apropriação cultural é feita de forma consciente, autorizada, de forma que denuncie alguma questão que está sendo violada, acho justo o uso de fantasias e adereços para que se levante o debate. Agora, quando isso é feito somente para o uso da imagem, sem relação com a realidade, na verdade se torna um grande deboche. A apropriação cultural é uma ferramenta de dominação, onde uma determinada sociedade ou cultura se apropria de outra não para elevar, mas para rebaixá-la, controlá-la. A apropriação cultural é um mecanismo de controle que usa determinadas representações fora de contexto e fora de ritual.

- Órgãos governamentais, como a Defensoria Pública do Ceará e a prefeitura de Belo Horizonte (MG), decidiram publicar cartilhas alertando sobre figurinos considerados racistas, como o blackface ou o uso de perucas “black power”. Esses figurinos podem ser considerados desrespeitosos com os símbolos da resistência negra?

Sim. Esses figurinos podem representar um desprezo pela cultura apropriada. E acho justo criar uma determinada cartilha porque é o limite entre a fantasia e o desrespeito, porque quando você se apropria, não está usando os mesmos critérios. Você está deslocando alguma coisa que tem um sentido, ou turbante, um bigode, ou até mesmo um determinado adereço, daquele lugar. E você está colocando isso em risco. Então, é bom que as pessoas saibam que determinadas coisas têm um sentido muito valioso para outra pessoa.  

- E homem vestido de mulher, pode ser considerado desrespeito?

Quando um homem se veste de mulher no carnaval para brincar na folia, ele está usando de um determinado poder para afirmar o lugar de controle na sociedade. Ao vestir-se de mulher, não está só banalizando a mulher como objeto, mas trazendo para a sociedade uma ridicularização daquilo que é o feminino ou daquilo que, na visão dele, deve se comportar o feminino. Então, quando ele faz isso, apropria-se de atributos ou características que coloca a mulher em um lugar de deboche, desvalorizando não só a mulher como indivíduo, mas a mulher em sua coletividade  

- Muitas escolas de samba abordaram a questão da intolerância religiosa durante os desfiles. Nos bloquinhos de carnaval, não é raro as fantasias de freira ou padre e etc. Existe um limite para esse tipo de diversão?

Não, acho que não deve haver limite, mas bom senso. Porque, se for coibido, é uma repressão. Mas um bom senso no mostrar, a forma de levar essas coisas para um desfile. É mostrar para a sociedade que a sociedade é aberta e que precisa de liberdade para se expressar por meio da arte. Sempre, em qualquer sociedade, em qualquer tempo, haverá intolerância religiosa. Porque a intolerância religiosa é a própria ignorância. E quando os extremos se chocam, há um conflito de visões de uma mesma realidade, onde os extremistas dos lados A e B não abrem para o diálogo. 

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    Mangueira usa Jesus Cristo para contar história do brasileiro oprimido e é acusada de blasfêmia

    A escola de samba Mangueira prepara para 2020 um enredo que conta a história do Jesus com 'rosto negro, sangue índio e corpo de mulher'

    Caio Sartori, O Estado de S.Paulo

    02 de fevereiro de 2020 | 05h00

    RIO - Depois de levar à Marquês de Sapucaí, no ano passado, "o Brasil que não está no retrato", a Mangueira prepara para 2020 um enredo que conta a história do Jesus que não está no retrato. A definição é dada pelo próprio carnavalesco da escola, Leandro Vieira, de 35 anos. Com referência crítica ao presidente Jair Bolsonaro, o samba com o qual a Verde-e-Rosa vai buscar o segundo título consecutivo já tem incomodado setores religiosos, que acusam a escola de blasfêmia. 

    No braço esquerdo de Leandro, uma tatuagem indica valores religiosos. Amarradas a uma âncora, as palavras “família” e “Deus” marcam a pele. Mas, de acordo com Vieira, a ideia é levar à avenida um Jesus não ligado à religião. Um Jesus humano, com a cara do oprimido do Brasil. “Mais recentemente, em nome de um avanço conservador e da representatividade política de determinados setores políticos da sociedade brasileira, Jesus tem se tornado uma espécie de fiador de uma política que incita o ódio”, diz. 

    Para ele, o enredo deste ano é praticamente uma extensão do que levou ao título de 2019, que dava a setores sociais excluídos a oportunidade de contar a História brasileira sob sua própria ótica. Um Jesus de mãe humilde e pai desempregado, que desce e sobe as ladeiras da favela: este é o Jesus da Mangueira. 

    A letra do samba, composta pelo mesmo grupo que homenageou no último carnaval Marielle Franco, vereadora assassinada em 2018 no Rio, pinta um Jesus com “rosto negro, sangue índio e corpo de mulher”. Ressalta seu lado humano, sofrido, que pensa naqueles que mais precisam de amparo. 

    Os compositores Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo sintetizam a mensagem do enredo no momento em que citam indiretamente o presidente Jair Bolsonaro: “Favela, pega a visão / Não tem futuro sem partilha / Nem Messias de arma na mão”.

    A letra destaca que a reação contrária era esperada. “Mangueira, vão te inventar mil pecados”, avisa o trecho que inspirou uma faixa pendurada na entrada do barracão da escola. “Mas estou do seu lado / E do lado do samba também”. 

    Em primeira pessoa, o Jesus mangueirense questiona se o povo entendeu seu recado. “Porque, de novo, cravejaram o meu corpo.” Quem cravejou, continua, foram os “profetas da intolerância” - que não sabiam que “a esperança brilha mais que a escuridão”, diz a canção da escola.

     

    Outro político que tira o sono de carnavalescos é o prefeito do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos), bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus. Em 2018, a gestão Crivella acusou a Mangueira de “intolerância religiosa”, após o prefeito ter sido representado na Sapucaí como Judas, traidor do carnaval, enforcado.

    A festa da Sapucaí passou para o governo do Estado após três anos seguidos de atritos com o prefeito.

    Enredo é alvo de abaixo-assinado

    A reação ao enredo da Mangueira já começou. O Instituto Plínio Corrêa de Oliveira, associação católica paulista, lançou um abaixo-assinado que já tem cerca de 106 mil adeptos. A ideia é dizer “não” ao carnaval da escola - que, de acordo com o instituto, comete blasfêmia.

    Vieira não teme nenhuma espécie de censura oficial, como já ocorreu em um caso emblemático do carnaval do Rio. Em 1989, a Beija Flor teve seu “Cristo mendigo” censurado pela Justiça a pedido da Igreja Católica. Depois, o carnavalesco Joãosinho Trinta e o diretor da escola, Laíla, tiveram a ideia de cobri-lo com um enorme saco plástico preto. Na frente, uma faixa dava o recado: “Mesmo proibido, olhai por nós.” 

    No dia 23 de janeiro deste ano, a Arquidiocese do Rio enviou uma carta a Jorge Castanheira, presidente da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), na qual manifesta “preocupação” com a abordagem que será feita pelas escolas na avenida. O setor jurídico da Igreja nega censura; pede um “momento de reflexão” para que ofensas ao sentimento religioso sejam evitadas. 

    Samba da Portela usa tema sobre índios para  provocar Bolsonaro

    Ao se inspirar no livro O Rio Antes do Rio, de Rafael Freitas da Silva, para contar a história dos primeiros habitantes da Guanabara, a Portela manda um recado ao presidente Jair Bolsonaro. O enredo Guajupiá, Terra Sem Males cita os índios que viviam no Rio antes da chegada dos colonizadores europeus.

    “Nossa aldeia é sem partido ou facção / Não tem bispo, nem se curva a capitão”, diz o trecho do samba. O uso da palavra bispo parece uma alusão ao prefeito Marcelo Crivella (Republicanos), ligado à Igreja Universal. 

    Os indígenas são tema recorrente no discurso do presidente. Na semana passada, ele declarou que “cada vez mais, o índio é um ser humano igual a nós”.

    A fala é apenas um dos episódios em que o presidente foi alvo de críticas por seus pensamentos sobre índios. Contrário a novas demarcações de terras para esses povos, Bolsonaro defende abrir essas áreas à exploração mineral ou ao agronegócio. Ele também critica com frequência o cacique Raoni, líder que atua em defesa da Amazônia.

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