Farah alega legítima defesa, mas admite que teve um surto

Aparentando fragilidade, médico acusado de esquartejar mulher caiu ao chegar ao fórum, mas se defendeu com firmeza

Laura Diniz, O Estadao de S.Paulo

16 de abril de 2008 | 00h00

Um velhinho na aparência, um garotinho no discurso. O médico Farah Jorge Farah sentou-se ontem, às 15h30, no banco dos réus do 2º Tribunal do Júri da Capital para ser julgado pela morte de Maria do Carmo Alves, em janeiro de 2003, com quem afirma ter tido um relacionamento amoroso. O julgamento atrasou cinco horas porque a Justiça se esqueceu de intimar uma testemunha de defesa, sem a qual o júri não poderia ser realizado.Ao chegar ao Fórum, por volta das 10 horas, o réu se desequilibrou e caiu, apesar de usar uma bengala - ele tem uma das pernas pouco firme, por causa de problemas de saúde. A imagem de um senhor com as condições físicas debilitadas e de declarações infantis de que vivia em torno dos pais, contrastou com a linha de raciocínio forte."Houve uma luta." Foi a primeira frase de Farah ao juiz Rogério de Toledo Pierri, que preside o julgamento em que o médico é acusado de homicídio duplamente qualificado - por motivo torpe (vingança) e dissimulação, uma vez que teria atraído a vítima ao local do crime sem que ela pudesse imaginar o desfecho dos fatos - e ocultação de cadáver.Consta da acusação feita pelo promotor Alexandre Marcos Pereira que o médico anestesiou e em seguida dissecou a vítima. "Foi legítima defesa", disse o réu, às 16h30, para resumir sua versão dos fatos. O que houve depois da luta corporal, que alega ter tido com a vítima, seria "interpretar um sonho ou um pesadelo". "Eu surtei", resumiu. Segundo ele, após ter desarmado Maria do Carmo, que supostamente o procurou munida com uma faca, não se lembra de mais nada. Farah deixou claro que o crime ocorreu após pelo menos cinco anos de uma perseguição insistente e desmedida por parte de Maria do Carmo. "Fiquei com medo", afirmou o médico - e repetiu isso por dezenas de vezes, dizendo que ela era uma ameaça para ele, suas funcionárias e sua família. A defesa argumenta que o comportamento de Maria do Carmo causou um stress tão grande no médico que ele se desestabilizou. A estratégia do advogado Roberto Podval é separar o homicídio do esquartejamento. Segundo ele, o assassinato seria facilmente justificável perante aos jurados explicando o impacto da "perseguição" da vítima na vida dele. "Ocultação e vilipêndio de cadáver (esconder e esquartejar o corpo) são crimes infinitamente menores que o homicídio, mas para quem julga tem valor infinitamente maior", analisou o advogado.Estão arroladas 23 testemunhas - 13 da defesa e 10 da acusação. Dez delas falaram ontem. Hoje, os depoimentos continuam e serão exibidos dois filmes a pedido de Podval: Atração Fatal e Tomates Verdes Fritos. "Os filmes demonstram o que se passou na vida real. Retratam como ele se sentiu." Em seguida, como a defesa e a acusação concordaram em abolir a leitura de peças do processo, cada um terá direito a falar quatro horas, além da réplica e da tréplica. A previsão é de que o júri demore mais um ou dois dias.A mãe de Maria do Carmo, Alice Paulice Silva, e o pai dela, Amaro Silva, vieram com a família assistir ao júri. Alice fez questão de dizer que Maria e Farah nunca foram amantes e se revoltou com essa afirmação da defesa. "Minha filha era evangélica, odiava adultério. Ela era casada e não precisava desse verme", disse a mãe, emendando que considera o marido dela, João Augusto de Lima, como seu filho.Indagada se já havia encontrado o réu alguma vez, Alice disse que não. "Se pudesse não olharia para ele, para aquelas mãos assassinas que tiraram a vida da minha filha."

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