Farinha ajuda a disfarçar a falta de feijão com arroz

Nas grandes cidades, famílias saem às ruas para pedir esmolas e comida e muitos ainda passam fome

Angela Lacerda, O Estado de S.Paulo

27 Novembro 2010 | 00h00

Mochilas, panos, papelão, sacolas, pedaços de pão e banana estão espalhados pela calçada no Cais de Santa Rita, Bairro de São José, no Recife. Sob a marquise, famílias ficam expostas a uma espécie de "vitrine" à espera de cestas básicas, roupas ou qualquer doação de quem passa. No Natal a solidariedade é disputada.

"Chegamos dia 20 para pegar logo um lugar", diz Maria da Penha Nascimento, 71 anos, sete filhos, 19 netos. "A gente só volta para casa no dia 30 de dezembro", diz a moradora da favela do Coque, na Ilha Joana Bezerra, e não reclama do desconforto da rua. Em casa, diz, não é muito diferente.

Ana Vera Cruz de Menezes, filha de Maria da Penha, está grávida de dois meses. Do quinto filho. Mora perto da mãe. Parou de estudar na quinta série, não trabalha e diz querer que os filhos estudem. Maria da Penha, ao lado, fica magoada. Ela tinha o mesmo sonho.

Até ontem, ainda esperavam desoladas porque não ganharam nada. "Nem uma cestinha básica". Cinco dos filhos de Maria da Penha moram com ela. Nenhum está empregado, a maioria pede na rua ou recolhe garrafas e latas para vender. O Bolsa Família que ela recebe - R$ 68,00 - não garante refeições para todos.

De manhã, todos comeram pão com café. Ao meio dia, o dinheiro recolhido nos semáforos permitiu que comprassem almoço pronto - arroz, feijão, macarrão e galinha -, que foi dividido por todos. "Deu para encher a barriga", diz Maria.

Maranhão. A babá Josiane Pereira Penha mora em uma palafita no bairro Alemanha, às margens do Rio Anil, na periferia de São Luís e nem sempre sabe se terá comida no final do dia. "Dou graças a Deus quando ainda tem algo para comer", disse a babá.

O salário de Josiane, de R$ 600 mensais, garante o sustento da família de oito pessoas - os pais e seis irmãos. Isso significa uma renda per capta de R$ 75 ao mês. Quase três vezes menos que o valor da cesta básica em São Luís - R$ 170,39. Com tão pouco, produtos como arroz, feijão e carne viram supérfluos. A farinha é o principal ingrediente da dieta da família. "Com farinha nós disfarçamos a fome", diz Josiane. O rio ao lado garante alguns peixes. / COLABOROU WILSON LIMA, DE SÃO LUÍS

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.