Fabio Motta/AE
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Fatura do PMDB pela perda de poder no setor elétrico inclui reabilitação de Renan

Como compensação, Sarney obteve compromisso de que será eleito presidente do Senado de agora a 2012, como candidato único; já o senador alagoano, atual líder do partido na Casa, seria seu sucessor com o apoio do Planalto e do PT

João Domingos e Christiane Samarco, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2011 | 00h00

O PMDB cobrará um preço para compensar a perda de poder no setor elétrico: a candidatura única do senador José Sarney (AP) à presidência do Senado, devolução da Eletronorte à legenda (hoje ocupada interinamente pelo técnico Josias Matos de Araújo) e apoio do governo no processo de reabilitação de Renan Calheiros (AL). Por essa estratégia, Sarney será eleito presidente do Senado de agora a 2012, e Renan lhe sucederá, com o apoio do Palácio do Planalto e do PT.

Por decisão da presidente Dilma Rousseff, que resolveu fazer uma varredura no setor elétrico, o atual presidente da Eletrobrás, Antonio Muniz Filho, será substituído por Flávio Decat. Muniz Filho é apadrinhado de Sarney, que o quer na Eletronorte, estatal que ele já presidiu. Pelas regras criadas pela presidente, na qual predominará a nomeação de técnicos para as empresas do sistema elétrico, um partido pode adotar o profissional. Muniz Filho é um técnico que acabou caindo nas graças de Sarney.

A Eletronorte deverá tornar-se em breve a mais importante das empresas da holding Eletrobrás, pois estão ligadas a ela as usinas de Tucuruí, Jirau, Santo Antonio e Belo Monte (esta ainda dependendo de licença de instalação por parte dos órgãos ambientais), com capacidade conjunta para gerar pouco mais de 25 mil megawatts. Hoje, quem manda na estatal é Adhemar Palocci, diretor de Engenharia da empresa. Ele é irmão do ministro da Casa Civil, Antonio Palocci.

As negociações sobre a saída de Muniz Filho da Eletrobrás foram feitas pelo ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, diretamente com José Sarney. Segundo relato de peemedebistas, Sarney concordou em abrir mão do poder no sistema elétrico porque não tinha outra saída. Em compensação, recebeu do governo a promessa de que será candidato único à presidência do Senado.

E mais: nas negociações, o governo comprometeu-se a apoiar o atual líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), na próxima eleição para a Mesa da Casa. Ou, em caso de afastamento de Sarney por qualquer motivo, a garantir eleição de Renan, reabilitando o líder que foi obrigado a renunciar à presidência do Senado em 2007, depois das denúncias de que uma empreiteira pagava a pensão de uma filha que tivera fora do casamento. O próximo vice-presidente do Senado será do PT. O nome ainda não foi escolhido. Disputam a vaga os senadores eleitos Marta Suplicy (SP) e José Pimentel (CE).

"Quando a negociação é feita às claras, tudo se resolve", disse o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), que até a semana passada comandava uma espécie de frente de batalha pela manutenção dos cargos do partido. Chamado ao Planalto pelo ministro Antonio Palocci, Henrique Alves concordou em mudar sua atitude. "O Palocci nos disse: "o PMDB não está no governo; o PMDB é o governo", afirmou Henrique Alves.

Afilhados. Enquanto a substituição de Muniz Filho na presidência da Eletrobrás não é feita, o PMDB de Sarney e Renan continua a nomear afilhados. Toma posse amanhã na disputada presidência do INSS Mauro Luciano Hauschild, afilhado de Sarney e Renan. Ele era chefe de gabinete do ministro do Supremo Tribunal Federal José Antonio Dias Toffoli, ex-advogado do PT. Entra no lugar de Waldir Moysés Simão, nomeado pelo PT durante a gestão de José Pimentel no Ministério da Previdência. O ex-secretário da Receita Otacílio Cartaxo também disputava o posto.

Nas negociações com o PMDB, já está praticamente certo que o deputado Rocha Loures (PR) ocupará a vice-presidência de Loterias da Caixa Econômica Federal, e que a diretoria de Crédito Agrícola do Banco do Brasil irá para o ex-governador do Paraná Orlando Pessutti. Essa diretoria conta com R$ 120 bilhões para empréstimos ao setor agrícola.

As minas de ouro do setor

R$ 8,16 bilhões

é o total que a Eletrobrás terá em verbas para investimento

R$ 1,25 bilhão

constitui a fatia de Furnas

R$ 807 milhões

compõem o montante que a Eletronorte poderá investir

AS CRISES DE RENAN

Pensão

Em setembro de 2007, o então presidente do Senado Renan Calheiros evitou sua cassação por quebra de decoro. Renan respondia a processo por ter tido despesas pagas pelo lobista Cláudio Gontijo, da empreiteira Mendes Júnior. Os recursos foram usados para pagar pensão e aluguel à jornalista Mônica Veloso, com quem tem uma filha

Cerveja

Na ocasião, Renan foi alvo de outra denúncia: a de que teria usado o cargo para interceder pela Schincariol no Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) e na Receita Federal. O senador teria atuado em favor da cervejaria depois que a empresa adquiriu, por R$ 27 milhões, fábrica de refrigerantes de sua família em Alagoas

Rebanho

Renan foi acusado de ter utilizado notas frias para legitimar a venda de parte do seu rebanho. Ele mostrou os documentos para comprovar que teria recebido R$ 1,9 milhão com a venda de gado. O objetivo do senador era provar que não tinha recebido dinheiro da empreiteira. Perícia da PF flagrou irregularidades nas notas

Esquema

O advogado Bruno Lins relatou em depoimento à polícia e a veículos de comunicação, como a revista Veja, que participava de esquema de desvio de recursos do governo para beneficiar parlamentares do PMDB. Segundo ele, Renan tinha conhecimento do esquema que favorecia políticos peemedebistas e era um de seus operadores

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