Marcelo Tasso/AE
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Favela pacificada deixará de ter 'dono'

Nos mais de 30 anos de comando pelo crime organizado, a Rocinha teve apenas três grandes chefes do tráfico

12 de novembro de 2011 | 21h32

RIO DE JANEIRO - A ocupação policial termina com o reinado do tráfico na Rocinha, que começou no fim dos anos 1970. Seu "dono" mais longevo foi Denir Leandro, o Dênis da Rocinha, que reinou absoluto nos anos 1980 e 1990. Foi a era da glamourização do tráfico. Dênis dava entrevistas e cuidava dos negócios instalado em uma cobertura na Tijuca, na zona norte, a quilômetros das vielas da Rocinha.

Mesmo preso em 1987, continuou administrando seu território. Em 1988, quando seu gerente Sérgio Ferreira morreu, o triunvirato que assumiu o posto se apresentou aos jornalistas na Via Ápia, a principal rua da comunidade. A foto de Naldo, com sua "Jovelina", como ele chamava a metralhadora Uzi, acompanhado de seus dois subalternos, é um retrato do escárnio dos bandidos com a polícia da época.

Foi na gestão de Dênis que o Rio descobriu que crianças franzinas também eram soldados do tráfico. Do alto de uma laje, Brasileirinho, de 13 anos, foi flagrado por jornalistas disparando rajadas de metralhadora para o alto.

Com a morte de Dênis, enforcado na sua cela por outros presos no presídio de Bangu, em 2001, o clima na Rocinha esquentou. Seu sobrinho Luciano Barbosa, o Lulu, rompeu com o Comando Vermelho, se bandeou para outra facção – a Amigos dos Amigos (ADA) – e inaugurou um período de guerra que assustou os cariocas.

O auge da batalha entre as duas facções criminosas aconteceu em 2004. Foram quatro meses de guerra entre Lulu e Eduíno Eustáquio, o Dudu, do Comando Vermelho, que tentava tomar a Rocinha partindo da favela vizinha, o Vidigal. A guerra só acabou em abril, quando a polícia invadiu a favela, matou Lulu e expulsou Dudu para bem longe dali.

Nem. A Rocinha movimenta milhões com a venda de drogas. Seus últimos "chefes", incluindo Antonio Francisco Lopes, o Nem, sempre estiveram mais interessados em vender cocaína, maconha e ecstasy do que em disputar outros pontos de venda. A favela também recebia visitantes ilustres. Em 2010, Vagner Love, então jogador do Flamengo, foi filmado entrando no baile funk escoltado por traficantes armados.

Antes disso, o goleiro Julio Cesar teve de se explicar com a polícia porque conversava pelo rádio com Erismar Rodrigues Meira, o Bem-te-vi, então chefe da favela, morto em 2005.

Nem nunca tinha sido preso até quinta-feira. A única vez em que correu risco foi em agosto do ano passado. Ao voltar de uma festa no Vidigal ao lado de outros traficantes, o comboio foi surpreendido por policiais militares.

Dez traficantes chegaram a invadir o Hotel Intercontinental, empreendimento cinco-estrelas que fica na praia, próximo da favela, e fazer 35 reféns, mas acabaram presos.

Vizinhos famosos. A Rocinha fica em um lugar privilegiado. A menos de um quilômetro da favela, na beira da praia, moram artistas como Gilberto Gil, Carolina Dieckmann e Carolina Ferraz, e políticos, como o ex-prefeito Cesar Maia.

Desde as primeiras invasões, nos anos 1950, com a migração de nordestinos para o Rio, a Rocinha cresceu tanto que se espalhou pela encosta e desceu pela Estrada da Gávea, batendo na porta de mansões da elite carioca. Nos condomínios da Gávea que fazem fronteira com a favela, moram celebridades, como o cirurgião plástico Ivo Pitanguy e a atriz Marieta Severo.

A instalação da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) vai ser um alívio também para os moradores do asfalto.

 

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