Favelados saqueiam trem com cimento no Rio

Um trem carregado de cimento, açúcar e calcita foi saqueado, hoje, por centenas de moradores das favelas Nelson Mandela e Manguinhos, na zona norte do Rio. O ataque aconteceu depois de a composição ter enguiçado entre as duas comunidades, perto da estação. O local, um trecho sem muros, permite fácil acesso à via férrea. Acionada, a Polícia Militar isolou a área.O motorista desempregado Manuel Luís de Souza, de 43 anos, foi um dos que aproveitaram a ocasião para garantir dois sacos de cimento de 50 quilos. Ele usará o material para terminar o acabamento das paredes da casa onde mora, com a mulher e dois filhos, em Manguinhos. De acordo com ele, cada saco custa R$ 12, 50. "Se eu tivesse R$ 25 no bolso, com certeza não ia comprar cimento. Ia botar arroz e feijão dentro de casa", disse Souza, que mora na favela desde 1976 e é conhecido na área como seu Sabão.Horas depois do início do saque, após a composição ter sido retirada do local, muitas crianças continuavam recolhendo os restos de cimento espalhados ao longo da ferrovia. "Estou levando para a minha mãe poder fazer o muro da nossa casa", explicou Beatriz, de 11 anos, acompanhada da irmã, Jéssica, de 8 e de colegas.A dona de casa Marlene da Silva, de 48, armada com uma vassoura, um carrinho de mão e diversos sacos, também catava o cimento derramado. "Vou cimentar meu chão todinho, na fé de Deus. Mesmo que não dê, eu volto à noite", afirmou sorrindo. "Estou com uma criança de 6 meses em casa. É uma poeirada danada".O trem saqueado pertence à Ferrovia Centro Atlântico (FCA) e seguia para Campos, município do norte fluminense, pelo ramal de Gramacho da Supervia. Com as pessoas ocupando a linha férrea, os trens de passageiros que partiam desse ramal sofreram atraso. Seguranças da Supervia informaram que o maquinista descera do trem para consertar uma peça defeituosa no momento do saque.

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