Favelas do Rio ainda são sinônimos de estigmas

Estudo dos anos 1960 publicado no ‘Estado’ mostrava que comunidades eram vistas como algo a ser combatido; 50 anos depois, visão não mudou

Antonio Pita, O Estado de S. Paulo

10 Dezembro 2012 | 13h58

Rio - De espaço de pobreza extrema e marginalidade ao centro de uma economia dinâmica, que movimenta R$ 13 bilhões por ano. Em 50 anos, as favelas cariocas passaram por grandes transformações, mas ainda não perderam o estigma de ilegalidade e exclusão que acompanha seus moradores.

A conclusão é do mais recente estudo sobre o tema, Favelas Cariocas Ontem e Hoje da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que analisa a evolução dessas comunidades desde 1960. O livro será lançado na terça-feira no Rio.

O ponto de partida para as análises da obra é uma pesquisa publicada naquele ano pelo Estado a primeira do gênero. Até hoje considerado um marco, Aspectos Humanos da Favela Carioca consumiu 3 anos de pesquisas, entrevistas com moradores de 16 favelas do Rio e análise de dados do Censo. O resultado foi publicado em dois cadernos do Estado, com 88 páginas, que serão reproduzidos no livro.

Favelas Cariocas Ontem e Hoje reúne artigos com análises históricas. Em 1950, eram 105 favelas com cerca de 280 mil moradores.Hoje, o Rio tem mais de 760 favelas com cerca de 1,4 milhão de pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa do Instituto Data Popular aponta que 66% dos moradores de favela são da classe C, com renda per capita de R$ 291 a R$ 1.019. Nas classes A e B, com renda acima de R$ 1.020, são 13% - contra 1% em 2001.

“As favelas sempre foram vistas como local de criminalidade e precariedade, ocupação ilegal e provisória. Hoje, muitos moradores têm títulos de propriedade, pagam impostos, melhoraram de renda, mas ainda são associados a esses estigmas", afirma o pesquisador e um dos organizadores do livro, Marco Antonio Mello, da UFRJ.

À época do primeiro estudo, a percepção dominante na sociedade era de que as favelas eram uma anomalia a ser combatida. Apenas 37% das casas eram de alvenaria, um terço dos barracos tinha acesso a água encanada e 58% das casas tinham geladeira.
 
“Era tudo de barro”, lembra Natália de Souza, de 50 anos, que há mais de 30 anos chegou à Favela Dona Marta, na zona sul. Ela até hoje não possui geladeira nem TV. A água falta a cada dois dias. A favela é considerada modelo pela prefeitura. À primeira vista, os R$ 27,7 milhões investidos se restringiram à parte baixa e mais visível do morro. No alto, onde Natália mora, a transformação urbanística não chegou. 

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