Favelas invadem 950 áreas verdes e São Paulo perde 12 ''''Ibirapueras''''

Segundo especialista, perda de terrenos é uma conseqüência da crise habitacional que se iniciou nos anos 70

Sérgio Duran, O Estadao de S.Paulo

14 de dezembro de 2007 | 00h00

A expansão das favelas em São Paulo deixou a cidade mais árida. Segundo levantamento da Secretaria Municipal de Habitação (Sehab), 60% delas ocupam terrenos que seriam destinados a praças e parques públicos. Conduzida pela Superintendência de Habitação Popular, a pesquisa concluiu que, das 1.573 favelas cadastradas da cidade, 950 estão em áreas municipais.A secretaria não sabe a metragem exatas da área verde engolida pelas favelas. Pela observação de fotos aéreas, concluiu que, juntas, as 1.573 invasões ocupam 30 quilômetros quadrados de território. Se todas as favelas tivessem o mesmo tamanho, as 950 invasões de áreas municipais somariam 18 quilômetros quadrados - 12 vezes o tamanho do Parque do Ibirapuera.No entanto, a área verde perdida pode ser muito maior. A Prefeitura não diferencia, na listagem, Heliópolis, na zona sul, a maior favela de todas, de uma ocupação pequena debaixo de uma ponte na Marginal do Tietê. Segundo o Atlas Ambiental de São Paulo, entre 1991 e 2000, a cidade perdeu 5.345 hectares de cobertura vegetal, o equivalente a 53 km2 ou 35 vezes o tamanho do Parque do Ibirapuera.A coordenadora do Programa de Regularização Urbanística e Fundiária da Sehab, arquiteta Ana Paula Bruno, afirma que as áreas municipais são as mais visadas para ocupação porque o despejo é mais complicado. ''''Nas áreas particulares invadidas, quando não estão em disputa judicial ou em processo de inventário, rapidamente o proprietário entra com ação de reintegração de posse na Justiça'''', explica.A perda de área verde é uma das inúmeras conseqüências da crise habitacional que atingiu a cidade, a partir dos anos 70. Na avaliação da urbanista Raquel Rolnik, professora da PUC de Campinas e ex-secretária nacional de Programas Urbanos do Ministério das Cidades, a divulgação de informações como essa mostram para a população que as favelas não são um problema apenas de quem mora nelas, mas de toda a cidade. ''''Nem é preciso ir longe. Os mananciais ocupados estão aí para provar. Mesmo a circulação na capital foi afetada pelo processo de expulsão da população para a periferia.''''Antes de culpar a população favelada, destaca Raquel, é preciso investigar que tipo de terreno foi invadido. ''''Na verdade, eram sobras de terreno de loteamentos na periferia, até mesmo sobras de terra de conjuntos habitacionais da própria Prefeitura, que foram abandonados, cobertos de mato e transformados em ponto de encontro de usuários de drogas e traficantes'''', explica.A ocupação dos terrenos municipais na periferia ocorreu principalmente nas décadas de 80 e 90, quando a recessão econômica recrudesceu. Na análise da urbanista, o primeiro processo pelo qual passou a população de baixa renda da cidade foi o de loteamento, regular ou irregular, na periferia. ''''O salário ainda possibilitava comprar um lote, mesmo que distante. Com o aumento do desemprego, nem isso foi mais possível. Restaram os terrenos baldios.''''O urbanista Renato Cymbalista, do Instituto Polis, complementa essa teoria dizendo que a ocupação dos terrenos municipais se deu concomitantemente ao esvaziamento dos bairros centrais, por causa da encarecimento do preço da terra na cidade. ''''Na verdade, essa aridez é sentida na periferia, porque as praças dos bairros de maior infra-estrutura estão bem guardadas. Tanto que hoje, para construir uma creche em bairros mais afastados, a Prefeitura se vê obrigada a desapropriar terreno'''', afirma.PROTESTOCerca de 40 moradores da Favela Real Parque, na zona sul, protestaram ontem à tarde na frente da Empresa Metropolitana de Água e Energia (Emae), na Avenida Nossa Senhora de Sabará, também na zona sul, com faixas que pediam moradia e criticavam a atuação da polícia na desocupação da área, anteontem. Eles foram atendidos por funcionários da empresa, que, segundo os moradores, garantiu que as 200 pessoas acampadas no terreno da empresa não serão despejadas até fevereiro.Do outro lado da Marginal do Pinheiros, a Prefeitura coordenou, ontem, no Jardim Edite, operação de demolição das casas de quem aceitou acordo para sair do local. Segundo a Sehab, 180 das 800 famílias cadastradas concordaram em trocar o barraco por um apartamento em conjunto habitacional ou pela Verba de Apoio Habitacional, de R$ 5 mil. A Defensoria Pública tenta barrar a desocupação na Justiça. COLABOROU HUMBERTO MAIA JUNIOR

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