"Fazendeiro Urbano" cria gado de leite em pleno bairro do Morumbi

A apenas três quadras da sofisticada Avenida Giovanni Gronchi, no Morumbi, zona sul da capital paulista, o pernambucano Daniel Lunga da Silva, de 57 anos, realiza um projeto acalentado desde que chegou a São Paulo, há 18 anos: criar gado de leite. Morador da vizinha Favela Paraisópolis, ele e o sócio, o também pernambucano Ginaldo Bezerra, de 37, mantêm, desde 2000, 50 vacas holandesas e girolandas. Aparentemente bem cuidadas, as vacas pastam em terrenos ao lado de alguns dos mais luxuosos condomínios da região, que fazem fundo para o local. As áreas, de acordo com Silva, foram cedidas pelos proprietários sob a condição de que eles limpassem o mato e evitassem o seu crescimento - uma tarefa simples para o rebanho. Segundo o "fazendeiro urbano", os vizinhos do condomínio Villa Santa Bárbara nunca reclamaram da proximidade dos animais. "Alguns fotografam as vaquinhas da janela e, de vez em quando, aparecem por aqui para mostrar os bichos às crianças", afirmou Silva. Ele garante que tanto moradores da favela quanto dos condomínios são seus fregueses assíduos: compram leite, vendido a R$ 1,00 o litro, e queijo, a R$ 8,00 o quilo. Vaqueiro - Numa área próxima, o pernambucano cria ovelhas, patos e galinhas. "Não gosto muito de gente, tem pessoas malvadas demais. Prefiro os animais, que não fazem mal a ninguém. Silva estudou somente 30 dias no município de Buíque, onde nasceu, e mal foi alfabetizado. "Mas aprendi a ser gente e a nunca trabalhar para nenhum patrão." Em sua terra natal, ajudava os vizinhos a cuidar do gado. Na capital, se dedicou à venda de produtos de todo tipo na rua, sempre sonhando em voltar a cuidar de vacas e bezerros. Bezerra, pernambucano de Garanhuns, sócio de Silva, também lidava com gado no Nordeste, antes de se mudar para São Paulo. É dono de 20 vacas e bezerros. Os outros animais do rebanho pertencem a Silva. Além de cuidar dos animais, ele é segurança e presta serviços em uma empresa à noite. Com o excesso de trabalho dos donos do gado, a criação acabou garantindo o emprego de José Paulo da Silva, de 28 anos, há dois anos em São Paulo. Alagoano e também morador da favela, ele se tornou o vaqueiro da pequena boiada, função que jamais imaginou exercer em uma metrópole. "Acordo cedo para tirar o leite e depois recolho o gado para o curral. Vale a pena trabalhar aqui." Contraste - Os terrenos nos quais fica o gado oferecem um curioso contraste com a Giovanni Gronchi e ruas vizinhas. O trecho de rua, atrás dos prédios e ao lado da favela, não é asfaltado e ainda apresenta muitas manchas de verde, compostas, principalmente, por eucaliptos. O gado fica em três terrenos cercados com arame farpado. No fim do dia, é recolhido pelo vaqueiro e por crianças da região, contratadas pelo dono. Os animais passam a noite em um galpão de madeira. Uma das árvores, bem na saída da Rua Frederico Guarinon, parece marcar a divisão entre os perímetros urbano e rural. Mais próximo à favela, moradores transformaram parte de um terreno em um depósito de lixo, com pilhas de sacos plásticos. "Queremos construir nossa vida, mas bem ao lado, muitos só se preocupam em destruir", lamentou Bezerra. "Um dia, espero conseguir comprar uma terrinha para levar o gado e ter uma vida mais tranqüila." Os dois garantem que, caso os donos dos terrenos peçam as áreas de volta, os espaços serão desocupados imediatamente. Vender as vacas? Nem pensar. As holandesas Vermelhinha e Moreninha dão uma média de 20 litros diários de leite. "Numa emergência sou até capaz de vender outras, mas essas não", afirmou Silva. "Meus animais são muito bem cuidados, protegidos de carrapatos e doenças." O criador tem uma receita para evitar problemas com a boiada: jamais bater nos animais e gritar com eles só quando não tiver outro jeito, evitando ao máximo os palavrões. "Tratadas assim, as vacas dão mais leite", garante. De fato, a receita parece dar resultados. As vacas e bois são tranqüilos e não se irritam com estranhos, permitindo a aproximação.

Agencia Estado,

31 de julho de 2002 | 03h26

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