'Fecha a BR, meu irmão', ordena líder de PMs a grevista na Bahia

Escutas telefônicas revelam participação dos policiais nos ataques ocorridos no Estado após paralisação

O Estado de S.Paulo,

08 Fevereiro 2012 | 23h25

SÃO PAULO - Escutas telefônicas com autorização da Justiça revelam a participação do principal líder dos policiais militares grevistas da Bahia no planejamento de ataques de vandalismo em Salvador. Reportagem do Jornal Nacional, da TV Globo, mostrou ontem diálogo entre o presidente da Associação de Policiais, Bombeiros e Familiares (Aspra), Marco Prisco, e um PM grevista.

Prisco pede a colaboração do grevista em motins na capital. "Desce toda tropa para cá, meu amigo. Desce todo mundo pra Salvador, meu irmão. Tô lhe pedindo pelo amor de Deus. Desce todo mundo pra cá", diz o líder dos policiais rebelados e invasores da Assembleia Legislativa.

Em resposta, ele ouve do grevista: "Agora?" Enfático, Prisco rebate: "Agora. Agora. Embarque!" O PM grevista, então, retruca o pedido e anuncia outros ataques à população. "Eu vou queimar uma viatura. Eu vou queimar duas carretas na Rio-Bahia, que não vai dar tempo." Ao tomar conhecimento da ação, Prisco propõe: "Fecha a BR, meu irmão. Fecha a BR".

Outra escuta telefônica revela a conversa entre o cabo bombeiro do Rio Benevenuto Daciolo com uma "pessoa importantíssima da PEC 300" - proposta de criação de um piso nacional. Daciolo foi um dos líderes do movimento grevista do ano passado. O diálogo revela a intenção de estender a greve para Rio e São Paulo para afetar o carnaval.

"Qual a possibilidade de nós conseguirmos passar no segundo turno na semana que vem?", pergunta Daciolo, sobre a votação da PEC. "Nós acreditamos que, se tivesse uma resposta do governo, assinalando uma possibilidade de votação em segundo, acalmaria muito do que está acontecendo na Federação", diz o bombeiro do Rio.

Daciolo, que está em Salvador, foi flagrado também em uma outra conversa com uma mulher que pede para que ele tente convencer o movimento grevista dos PMs baianos para que não aceitem um acordo.

O bombeiro disse que não se lembra dos diálogos. Sua mulher, Cristiano Daciolo, saiu em defesa do marido. "Ele foi para Salvador para ajudar nas negociações e evitar um banho de sangue", disse. Autoridades dos governo dos Estados da Bahia e do Rio não foram encontradas para comentar o caso.

Tapa na cara. Para o secretário de Segurança Pública da Bahia, Maurício Barbosa, as gravações "deram um tapa na cara da sociedade". "Ficou clara a intenção (das lideranças grevistas) de usar os atos de vandalismo para fazer pressão tanto pela questão salarial quanto pela tentativa de chamar a atenção nacional para o movimento", afirma. "Também deu para ver que a intenção é levar a manifestação para outros lugares."

De acordo com Barbosa, as gravações também enfraquecem a luta dos manifestantes para que sejam revogados os pedidos de prisão feitos contra os líderes do movimento grevista. "Como o governo se mostrou disposto a fazer todo esforço possível para cumprir o pedido salarial, a gente sabe que o que segura a manifestação, hoje, é a questão do cumprimento dos mandados de prisão", afirma o secretário. "Ele (Prisco) não queria ser responsabilizado pelos crimes cometidos, mas as gravações deram um tapa na cara da sociedade." / COM TIAGO DÉCIMO

PRESSÃO PELA PEC 300

Benevenuto Daciolo, líder dos bombeiros do Rio

"Não sei se o senhor sabe? Mas nós estamos com uma assembleia geral para o Rio amanhã, com a abertura de greve geral, com a possibilidade não ter carnaval no Rio e Bahia, senhor. E São Paulo está para dar uma resposta também"

Mulher desconhecida

"Daciolo, Daciolo, presta atenção: está errado fechar negociação agora, antes da greve do Rio"

"Sabe como você vai ajudar eles? Voltando pro Rio e garantindo aqui... O governo aqui vai tentar fazer uma 'propostinha' rebaixada, vai melhorar um pouquinho esse negócio que eles colocaram."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.