Marcos Arcoverde/Estadão
Marcos Arcoverde/Estadão

Fechado, antigo bordel pode virar patrimônio do Rio

Casa Rosa, em Laranjeiras, que também já foi cabaré, danceteria e casa de shows, completa cem anos em 2014

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

07 de abril de 2014 | 17h18

RIO - Cabaré no início do século 20, bordel nas décadas seguintes, danceteria e casa de shows nos anos 1990 e 2000. Já registrada em documentário, a trajetória da Casa Rosa, em Laranjeiras, na zona sul do Rio, que completa cem anos em 2014, marca a história da diversão noturna no Rio de Janeiro. A fim de garantir sua preservação, um projeto de lei tramita na Assembleia Legislativa com o intuito de transformá-la em patrimônio cultural imaterial do Estado.

O projeto é do deputado Paulo Ramos (PDT). "Conheci a casa em 1967, quando era rapazinho, oficial da PM, e coordenava o policiamento. A medida é para preservar a história de um lugar que está muito vinculada à do bairro e à da cidade", disse Ramos.

Ele conta que até agora não encontrou resistências no plenário, mesmo dos deputados religiosos. "A Lapa foi revitalizada, a região da Praça Mauá, cheia de boates onde os marinheiros se divertiam, também está sendo. Não se pode apagar esses lugares da memória da cidade, como se fosse uma coisa suja."

Localizada na bucólica Rua Alice, a casa, chamada assim por causa da cor viva da tinta que a reveste, está fechada desde fevereiro, por decisão judicial. Acolhendo reclamações de vizinhos incomodados com o barulho, a 21ª Câmara Cível proibiu que sejam desenvolvidas ali atividades de boate.

Desde 1998, a casa, que integra a Área de Proteção Ambiental de Santa Teresa, funcionava como centro cultural. Vinha oferecendo oficinas de percussão e aulas de capoeira e promovendo as famosas feijoadas - seu carro chefe -, rodas de samba com artistas como Moacyr Luz e Pretinho da Serrinha e festas temáticas com DJs. A programação privilegiava a música brasileira, em especial samba, choro e forró.

Moradores dos prédios da vizinhança reclamavam das madrugadas em claro nas noites de festa e se incomodavam com a grande circulação de carros e transeuntes na rua, que é residencial. O zoneamento não prevê esse tipo de atividade. Os sócios vão tentar mudá-lo.

"A ideia do deputado pode ajudar. Somos difusores da cultura brasileira. Nosso samba acaba antes das 22 horas e as pistas estão com revestimento acústico, porque realmente incomoda os vizinhos. Muitos deles estão do nosso lado, porque a rua é escura e tem muitos assaltos e o movimento da casa traz segurança", conta o sócio Thiago Merçon, que chegou nos primeiros anos de funcionamento a alugar a casa diretamente da antiga cafetina.

De 2008, o documentário Pretérito Perfeito, do diretor Gustavo Pizzi, entrevista personagens que passaram pela casa, apresentada como "prostíbulo mais famoso do Brasil". Fala do tempo em que os quartos recebiam homens da alta sociedade carioca, como políticos e grandes comerciantes.

No filme, o cartunista Lan lembra que esteve ali em1952. O cantor Lobão diz que perdeu a virgindade com uma prostituta num dos quartos da casa - "depois virei freguês". E antigas profissionais contam as preferências dos clientes.

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