Luiz Gomes/ FOTOARENA
Aglomeração na Praia de Ipanema, no Rio, durante o feriado de 07 de setembro Luiz Gomes/ FOTOARENA

No feriado, brasileiros decretam por conta própria fim das medidas de isolamento

Infringindo diversas regras municipais e estaduais, muitos lotaram cidades turísticas, praias e bares, muitas vezes sem usar máscara. Explicações passam por fatores sociológicos, econômicos e neurológicos

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2020 | 16h47
Atualizado 08 de setembro de 2020 | 17h29

Correções: 08/09/2020 | 09h20

RIO  - Os brasileiros aproveitaram o feriado da Independência para decretar por conta própria o fim das medidas de isolamento e prevenção à covid-19. Infringindo diversas regras municipais e estaduais, lotaram cidades turísticas, praias e bares, muitas vezes sem sequer usar máscara. Especialistas ouvidos pelo Estadão tentam explicar as razões neurológicas, sociológicas e econômicas que levaram parte da população a colocar em risco a própria saúde e também a de parentes e amigos mais próximos.

Algumas circunstâncias explicam parte do movimento. Este foi o primeiro feriado prolongado em que as regras da quarentena já estavam flexibilizadas. Ou seja, a primeira chance real, desde o carnaval, em que a população poderia viajar para as cidades próximas, frequentar restaurantes e até tomar um banho de mar, depois de passar mais de seis meses com movimentos bastante restritos. Mas a flexibilização é diferente de normalização e implica o cumprimento de certas regras. Não foi isso que se viu no feriado.

"As pessoas decretaram por elas mesmas o fim do isolamento, não há nenhuma dúvida sobre isso", atesta o infectologista Alexandre Naime Barbosa, da Unesp. "E fizeram isso sem seguir as regras da flexibilização, que é um conjunto de novas condutas, que exige a modificação de hábitos, o uso de máscara, o distanciamento social, a higiene reforçada. Então, o que fizeram, de verdade, não foi a flexibilização, mas sim a normalização, a banalização da ameaça."

De acordo com especialistas, existe um limite de tempo em que nosso cérebro consegue, de fato, prestar atenção em alguma coisa, levar a sério uma ameaça, até que aquilo começa a ser considerado normal.

"Existe um jogo dentro do cérebro humano ao analisar uma situação de risco", explica Naime. "Inicialmente, a doença era muito desconhecida, não tinha ainda chegado ao País, havia uma histeria grande, muito medo, e muita gente foi para o isolamento."

Agora que a epidemia já é uma realidade há mais de seis meses, muita gente decide que, se nada grave aconteceu consigo até agora, então não deve ser tão perigoso assim. Obviamente, o fato de a pessoa não ter contraído o vírus até hoje não significa que não possa contraí-lo amanhã mesmo numa praia ou bar lotado. E tampouco significa que não possa levá-lo a um parente ou amigo mais vulnerável.

"É um comportamento egoísta, de quem olha mais para si e menos para os outros, e faz uma avaliação equivocada de que talvez o maior risco já tenha passado", explica o neurocientista Luiz Eugênio Mello, diretor científico da Fapesp. "Um outro ponto é a fadiga da quarentena, as pessoas se cansam de ficar em casa."

Para o cientista social Renan Gonçalves Leonel da Silva, da Faculdade de Medicina da USP, o movimento visto no feriado seria, majoritariamente, da classe média, que neste ponto da epidemia tem registrado bem menos casos de covid do que as classes mais baixas.

"Essas pessoas têm acesso à informação, elas sabem que a pandemia não acabou, mas, quando vão avaliar o risco para si mesmas, aspectos não científicos pesam mais na hora de tomar a decisão", explica Silva. "A classe média estava privada de seu papel de consumidor e agora essa bolha explodiu: 'vou voltar ao meu papel porque já deu, vou resgatar a minha posição social a despeito da minha responsabilidade com a saúde pública'."

Outro pano de fundo importante, segundo os especialistas, é o fato de que as notícias indicando que uma vacina pode já estar disponível no fim deste ano ou no início de 2021 se intensificaram, conforme avançam os estudos para o desenvolvimento de imunizantes, e também das notícias dando conta da redução da velocidade de crescimento da epidemia.

"A tendência da população é ir atrás do que é mais fácil de entender", explica o cientista social. "Se todo dia temos 1.200 mortes e, num belo dia, temos 800, há um gatilho mental que nos faz entender que a epidemia está diminuindo, embora o número continue sendo muito alto."

Sobretudo, dizem, nunca houve um discurso uniforme entre o governo federal e as autoridades estaduais e municipais. Pelo contrário, muitas vezes eles foram até contraditórios, o que também dificulta a apreensão da mensagem e estimula a ideia de que diferentes posicionamentos são aceitáveis.

"Aqui a epidemia se transformou numa questão política", avalia a especialista em saúde pública Chrystina Barros, do grupo especial de combate à covid da UFRJ. "As autoridades não conseguem ser coerentes, muitas aglomeram sem máscara, são vários sinais trocados e maus exemplos."

O grande problema, avalia, é que a aposta individual prevalece sobre a saúde coletiva. "Isso é muito ruim, muito ruim mesmo, um crime contra a saúde pública", diz Barros. "Não há exemplo, não há fiscalização, não há coerção. E agora, mesmo quem ficou em casa está em risco."

Guarda Municipal de Santos faz 2,8 mil orientações sobre uso da faixa de areia

A Guarda Civil Municipal de Santos registrou, desde sábado, 5, até as 19h desta segunda,  2.800 orientações sobre uso da faixa de areia, 1.590 instruções sobre uso obrigatório de máscara facial e seis autuações referentes à presença de cães na faixa de areia. Ao todo, 52 multas foram aplicadas pelo não uso do item de proteção ou por resistir a usá-lo. /COLABOROU GLAUCO BRAGA, ESPECIAL PARA O ESTADÃO

 

Correções
08/09/2020 | 09h20

Diferentemente do informado antes, o infectologista Alexandre Naime Barbosa é da Unesp, e não da Unifesp

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Feriadão marca volta do crescimento na ocupação de hoteis e pousadas

ABIH destaca deslocamentos mais curtos por parte dos turistas, que ficaram dentro da própria região; estabelecimentos passaram a adotar medidas de higiene e segurança contra a doença

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2020 | 20h12

Pela primeira vez desde o início da pandemia de coronavírus, hotéis e pousadas de diferentes regiões do Brasil tiveram alta na procura por vagas e unidades operando no limite da capacidade permitida durante o feriadão prolongado de 7 de setembro. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH Nacional), os turistas optaram por fazer deslocamentos mais curtos e dentro da própria região - em alguns lugares, a taxa de ocupação chegou a atingir 90%.

"A procura aumentou principalmente para os destinos regionais, como Jericoacoara (CE), Porto de Galinhas (PE), Pipa (RN). Então esses destinos, em que dá para colocar a família no carro e se deslocar até 300 quilômetros, tiveram ocupação muito boa, mas o turismo de negócio, como em São Paulo, ainda ficou muito baixo, em torno de 10%", diz Manoel Linhares, presidente da ABIH Nacional.

Para Linhares, o boom registrado no feriadão seria reflexo do longo período da pandemia no País, que já dura seis meses. "O brasileiro está cansado do isolamento, a ponto de não aguentar mais ficar dentro de casa", argumenta. Segundo afirma, os hotéis receberam orientação contra a covid-19 e desenvolveram protocolos de segurança.

Embora variem de acordo com as normas de cada região, as regras, em geral, incluem limitar a capacidade total da unidade, fazer check-in eletrônico, ter álcool em gel disponível em todos os ambientes, usar máscara nas áreas comuns e opção de café da manhã no quarto, sem cobrança de taxa extra.

Em Santos, no litoral paulista, as hospedagens voltaram a ter boa movimentação de turistas. "Na Baixada Santista, os hotéis estão com limite de 60%, e eu ocupei 60%. Na verdade, a ocupação só não foi maior porque não pode", diz o recepcionista Edgard Laporta Neto, do Monte Serrat Hotel.

Laporta Neto relata que, por medida de prevenção, a unidade fechou o restaurante e outras áreas de lazer, como academia e sala de jogos, e serviu café da manhã diretamente no quarto do hóspede. "As pessoas podem sair de casa e manter o cuidado", afirma.  

No Unique Garden, em Mairiporã, a ocupação foi de 60% durante o feriado - a máxima permitida nessa etapa de retorno gradual da atividade. "Neste momento delicado, nosso maior compromisso é oferecer um ambiente seguro e saudável, alinhando a excelência dos nossos serviços aos mais modernos protocolos sanitários para combater a disseminação da covid-19", diz mensagem destinada aos hóspedes.

No Rio, hotéis também descrevem maior procura. "Neste fim de semana o movimento foi muito maior do que nos dias anteriores", diz um funcionário do Hotel Atlântico, em Copacabana, onde as mesas do restaurante foram afastadas para cumprir o distanciamento. "A lotação ficou entre 50% e 60%."

Um dos principais destinos turísticos do Nordeste, Porto de Galinhas, em Pernambuco, teve vagas disputadas no feriadão. "Lotou na sexta, sábado e domingo. O telefone não parava de tocar. Também teve muita gente que bateu na porta, sem avisar, e precisou voltar porque não tinha mais vaga", conta a recepcionista Solange Gomes, a Sol, da Pousada Maria Bonita.

Em Porto, hotéis e pousadas podem operar com até 50% da capacidade, de acordo com as regras locais. "Mas tinha muita gente: as piscinas naturais ficaram cheias", diz Sol.  

Famoso destino no Ceará, Jericoacoara também registrou aglomerações nas praias. "A vila só abriu em agosto e, agora, a procura foi muito forte", relata Jasmin Silva, do setor de reservas da Pousada Sahara.

No local, o hóspede agendava o horário das refeições e os sete quartos ficaram ocupados durante o feriado, uma vez que não há restrição de limite de vagas. O movimento, no entanto, deve cair durante a semana. "Para os próximos dias, a gente quase não fez reserva ainda."

Presidente da ABIH Nacional, Manoel Linhas diz que, apesar do movimento do feriadão, o setor de turismo "vai ser o último a sair da crise provocada pela pandemia". "Se a gente considerar os fins de semana e feriados, são oito dias por mês com boa ocupação: a hotelaria não sobrevive", afirma. "Para o setor, com alta carga tributária, insumos caros e muitos colaboradores, o ponto de equilíbrio é em torno de 50% todos os dias."

Tudo o que sabemos sobre:
Dia da Independência [7 de setembro]

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.