Ferida, garota que tem autismo perdeu a família

Ela brincava com amiga em quarto da casa atingida por avião e sofreu queimaduras em 30% do corpo

Ana Carolina Moreno e Fernanda Aranda, O Estadao de S.Paulo

05 de novembro de 2007 | 00h00

As amigas Cláudia Fernandes, de 16 anos, e Laís Melo, de 11, brincavam em um dos quartos da casa número 118, quando o Learjet a destruiu por inteiro. Foram as únicas atingidas diretamente pelo avião a sobreviver ao desastre, a primeira com queimaduras, mas em quadro estável, e a segunda com ferimentos no rosto. Duas primas de Cláudia estavam na casa dos fundos e não foram atingidas. Uma tia da menina e outros três primos haviam saído.Depois de uma hora removendo camas, lençóis, uma porta, um aparelho de televisão, móveis e muitos quilos de tijolos, as dezenas de policiais e bombeiros finalmente resgataram Laís Gonçalves Coutinho Melo, 11 anos. Ela foi atendida na casa em frente, improvisada como pronto-socorro e anteriormente ocupada apenas pela equipe de resgate.Eram 15h30 e, por vários minutos, a apreensão tomou conta dos médicos e enfermeiros, que colocaram sobre o corpo de Laís um cobertor térmico, deixando à mostra apenas seu rosto e os pés - o esquerdo já havia perdido o tênis cor-de-rosa e exibia meias floridas. Foi então que a garota, torcedora do São Paulo Futebol Clube, jogadora de futebol do time feminino da 5ª série da Escola Estadual Barão Homem de Melo e fã da professora de Ciências, soltou um grito e começou a chorar.Foi o bastante para acalmar o avô dela, Nelson Gonçalves da Silva. "Ela nasceu de novo", afirmou ele, depois de visitar a neta no Hospital Municipal do Mandaqui, onde fez exames, mas apresentou apenas ferimentos na testa e inchaço na boca. Laís é órfã de pai, e a mãe, Cláudia Gonçalves da Silva, 28 anos, até as 18 horas não sabia do acidente com a filha, pois estava no litoral. "Não tive como avisá-la", contou o avô.Laís havia ido brincar na casa de Cláudia. Segundo o colega de classe delas Danylo Roberto Chammas, de 11 anos, "havia vezes em que elas falavam ?vai pra lá que vamos conversar só nós duas?, elas não se desgrudavam". Como Cláudia é autista, acabou alguns anos atrasada na escola, mas tem uma relação de amizade e respeito com todos os colegas da classe. "A gente defende ela", diz Danylo. Foi o que fizeram também os primeiros vizinhos a chegar ao local. "Ela estava presa na árvore pedindo socorro", relata o representante comercial Milton Lamberti, de 47 anos.Cláudia foi arremessada longe e teve a queda amortecida por uma árvore. Levada ao Mandaqui, teve cerca de 30% do corpo queimado. No fim da noite, seria transferida para a ala de queimados do Hospital do Servidor Público Estadual. Conforme Laís contou a funcionários do hospital, estava sentada na cama de casal e Cláudia em cima do beliche. De repente, tudo começou a tremer e ela não lembra de mais nada. Laís ficou sob 50 centímetros de escombros, mas passa bem e deve ficar em observação por mais 24 horas. Na hora do acidente, a tia de Cláudia, a dona de casa Rosa Maria Simões, de 43 anos, que mora na casa dos fundos, estava com dois de seus cinco filhos em um supermercado. "Eles me ligaram, dizendo que um avião tinha caído em casa." Duas filhas dela, Priscila e Adriana, estavam ali, mas conseguiram fugir pelos fundos. "Foi inexplicável quando vi que as duas estavam bem."

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