Fernanda sonhava em jogar futebol nos EUA

Ela e mais 3 motociclistas morreram em acidentes entre os dias 7 e 14

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2019 | 00h00

Fernanda Cristina Pignataro sonhava tanto em virar jogadora profissional de futebol que já planejava mudar para os EUA e tentar a sorte nas "peneiras" (testes) dos times universitários de lá. Era uma habilidosa ala-esquerda. Rodrigo dos Santos Pereira queria ser cantor. Depois de aprender sozinho a tocar violão, passava as noites enfurnado no seu quarto imitando Bono, o vocalista do U2. Já Rogério Seabra de Jesus e Rodrigo Hernandes, mais do que pensar no futuro, queriam mesmo era chegar em casa logo e cuidar das suas famílias.Quatro acidentes, quatro histórias interrompidas pelo trânsito de São Paulo. Entre os motociclistas vítimas de acidentes entre os dias 7 e 14 ainda estão Fábio, internado no Hospital das Clínicas (HC), que corre o risco de ficar paraplégico; Gabriel, internado no Hospital do Mandaqui, que pode ficar tetraplégico; e André, em estado grave no HC. A pedido das famílias, o sobrenome deles não foi divulgado. "Vivemos num país sem cultura, violento ao extremo", diz João Atílio Pignataro, pai de Fernanda. "Você abre o jornal e só vê coisas trágicas: o porteiro que matou a arquiteta, o ônibus que atropelou os pedestres, o bombeiro que queria seqüestrar o empresário... Acho que o trânsito é só mais um lado selvagem da nossa sociedade, em que todos estão à mercê da raiva e da impaciência do outro."No sábado, dia 4, Fernanda completou 19 anos. Estava mais do que feliz - tinha acabado de ajudar o time de futebol feminino das Faculdades Integradas de Santo André (Fefisa) a ficar em segundo lugar no Campeonato Brasileiro Amador e estava combinando com uma amiga sua viagem para os EUA. "Futebol era a vida dela", lembra o técnico da Fefisa, Cláudio Mastrocola. Se a carreira de ala-esquerda não desse certo, a de comerciante, pelo menos, já estava encaminhada. Fernanda trabalhava em uma loja de roupas no Bom Retiro, no centro, a 20 minutos da sua casa, para onde ia de moto. Na terça-feira, três dias depois da festa de aniversário, ela tentava chegar ao trabalho por volta das 7h45, quando um carro a fechou. Ela tentou desviar para a esquerda, mas seu capacete enganchou num caminhão que vinha em sentido contrário."Não é só o jovem que morre no trânsito. A família também fica destruída", diz Patrícia Pereira, irmã de Rodrigo Pereira, morto também na terça-feira. O jovem de 22 anos trabalhava com o pai em uma farmácia em Pirituba, na zona norte, onde fazia entrega de medicamentos com a sua moto. Nas horas vagas, tentava melhorar no violão e aprender novas músicas do U2. No fim da tarde do dia 7, ia entregar uma encomenda quando um carro mudou de faixa bruscamente. "O motorista fugiu sem prestar socorro", diz Patrícia. "Mas não vou ficar com raiva. Vou só lembrar com alegria do meu irmão. Ele era querido por todos, no velório foram mais de 500 pessoas. Vai ser impossível esquecê-lo."

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