FHC e Rushdie à sombra de Maquiavel

Debate sobre 'O Príncipe' entre ex-presidente e escritor inglês tem viés mais político que literário

Ubiratan Brasil, enviado especial a Paraty, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2010 | 00h00

A premissa do encontro era discutir uma nova versão do clássico O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, recém-lançada pela Companhia das Letras e a paixão comum do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e do escritor inglês de origem indiana Salman Rushdie.

Os dois, no entanto, aproveitaram para ironizar a própria política durante um rápido debate ontem em Paraty, à parte da programação da 8.ª Festa Literária Internacional.

"O objetivo do príncipe no romance é a manutenção do poder. Isso não se aplica mais. Hoje temos eleições, embora ainda existam pessoas interessadas em permanecer", disse FHC, arrancando gargalhadas de uma seleta plateia formada por fãs, empresários e banqueiros.

Aplaudido ao chegar à casa utilizada pela editora como sede em Paraty, o ex-presidente apresentava-se mais relaxado que na noite anterior, quando fez a palestra de abertura do evento, sobre a obra de Gilberto Freyre, diante de quase mil pessoas. "Ele e Maquiavel não são comparáveis, pois Freyre diminuiu o valor do poder político do Estado", disse o sociólogo, autor do prefácio da nova edição de O Príncipe.

Depois de ouvir um irônico comentário de Rushdie sobre ex-presidentes americanos - "Todos, nessa condição, ficam mudos" -, FHC disse que tenta manter a mesma postura e que vai cobrar isso de seu sucessor. "Lula disse que vai se calar. Vamos esperar para ver."

Durante seus oito anos de mandato presidencial, Fernando Henrique disse ter procurado alertar os historiadores para se preocuparem com fatos e não intenções. "Muitas vezes, não estamos ainda bem certos do que fazer. Não podemos ser julgados por isso." E arrematou: "Eu não posso me comparar com Maquiavel. Eu fui um príncipe. Ele, não."

Publicado postumamente em 1532, O Príncipe traz uma sagaz interpretação sobre o funcionamento do Estado, em um momento em que o direito ao poder já não dependia apenas da hereditariedade e dos laços de sangue.

Para Rushdie, Maquiavel (1469-1527) estava preocupado em saber se era possível um homem poderoso ser bom. "Um dos pontos fortes de O Príncipe é que Maquiavel lida com fatos, ele é prático", completou FHC.

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