Fiação antiga propagou fogo, diz IC

Laudo sobre incêndio que atingiu ambulatórios no Natal não é conclusivo sobre o que provocou o acidente

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

17 de junho de 2008 | 00h00

Quase seis meses depois do incêndio que atingiu o Prédio dos Ambulatórios do Hospital das Clínicas, no dia 24 de dezembro, o Instituto de Criminalística (IC) entregou o seu laudo pericial ao Ministério Público Estadual sem uma conclusão e com duas possíveis hipóteses para o fogo. Mesmo sem apontar culpados, os peritos encontraram dois fatores preponderantes para o incêndio que deixou mais de 4 mil pessoas sem atendimento em pleno Natal - fios desgastados e falta de segurança.Segundo o órgão da Secretaria da Segurança Pública, as chamas podem ter sido causadas por um fenômeno termoelétrico (provocado por um superaquecimento ou até pelo corte de cabos elétricos) ou por uma causa externa de combustão (como um fósforo ou um cigarro). Sem apontar se o incêndio foi proposital ou não, no entanto, o laudo de 81 páginas mostra fatores que foram essenciais para que ele de fato ocorresse. Em primeiro lugar, as salas do Prédio dos Ambulatórios eram extremamente vulneráveis, sendo possível a entrada sem controle de qualquer funcionário ou mesmo de pessoas de fora do hospital.''Constatamos serem rotineiramente utilizadas como locais de repouso e fumódromos'', escrevem os peritos Edgard Engelberg, Paulo Roberto Biscegli, Jayme Telles e Geraldo Gomes de Moura. Assim, alguém poderia facilmente ter jogado uma bituca de cigarro no chão, cortado os fios para roubá-los ou até jogado um fósforo na fiação. ''Nessas condições estava comprometida a segurança dessas áreas essenciais de continuidade operacional das atividades hospitalares.''Além disso, a análise da fiação elétrica indicou ''o envelhecimento dos cabos, com o conseqüente comprometimento das propriedades isolantes''. Os peritos notaram que, ao redor dos fios, havia uma substância exsudada (em forma de gotas ou de suor) de aparências viscosa e escura. ''Com o desgaste dos fios forma-se essa substância, que é um poliéster inflamável'', explica o promotor de Habitação e Urbanismo José Carlos de Freitas, responsável pelo inquérito do Ministério Público. ''É como se fosse o suor do cabo elétrico que já está velho. Esse poliéster não só pega fogo facilmente como continua queimando e propagando o incêndio.''O IC aponta que essa substância pode ter sido determinante para que o incêndio tomasse as proporções de quase tragédia. Um corte nos cabos ou um fósforo aceso seria suficiente para que o poliéster pegasse fogo e propagasse o incêndio. ''Iniciada a queima da resina e material plástico de isolamento, houve a continuidade e progressão geométrica das chamas'', diz a hipótese do laudo. Segundo o Ministério Público, o Hospital das Clínicas sabia sobre a ocorrência da substância exsudada nos cabos desde maio de 2007. ''O HC pediu uma análise do cabeamento e foi informado que havia esse poliéster nos cabos'', diz o promotor José Carlos de Freitas. ''Era preciso limpar ou trocar, custaria por volta de R$ 7 milhões. E isso não foi feito. Do jeito que estavam os cabos e a manutenção, é milagre que não tenha ocorrido algo mais grave. O HC deve ter um anjo da guarda especial.''Procurada pela reportagem, a Assessoria de Imprensa do HC informou que o superintendente José Manoel de Camargo Teixeira não iria se pronunciar até ter acesso à íntegra do laudo do Instituto de Criminalística.SEGUNDO LAUDOEm março, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) do governo do Estado também soltou um laudo pericial sobre as possíveis causas do incêndio de dezembro e afirmou que ele foi iniciado ''provavelmente pelo corte de fios elétricos''. O laudo afirma ainda que ''não se pôde comprovar que o incêndio foi deliberadamente provocado''. Ainda segundo a avaliação do IPT, não houve evidência de falhas da administração.O IPT não apontou como o dano à fiação teria ocorrido, mas o diretor-superintendente da unidade, José Manoel de Camargo Teixeira, disse em entrevista que os cortes podem ter sido obra de furto da fiação. Em relação ao segundo incêndio no HC, ocorrido em janeiro deste ano, no qual houve foco de fogo em uma sala do mesmo prédio, tanto o IPT quanto o IC concluíram que ele foi deliberadamente provocado.CONCLUSÕESCausas do incêndio: o fogo pode ter sido originado por um fenômeno termoelétrico ou por uma causa externa de combustãoPortas abertas: as salas do HC eram vulneráveis, sendo possível a entrada sem controle de funcionários ou de pessoas de fora do hospitalFiação: os peritos notaram o envelhecimento dos cabos elétricos, ''com o comprometimento das propriedades isolantes''

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.