Ficha completa de interessado é ''maquiada''

Moradora de Caratinga diz que dados sobre sua vida foram inventados, para ?convencer? consulado

Vitor Hugo Brandalise e Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

14 Agosto 2009 | 00h00

O esquema que frauda documentos a serem entregues no Consulado Americano, para obtenção de visto, é simples - consiste em fazer a pessoa "parecer mais do que é", nas palavras de Maria da Conceição Monteiro Neves, de 54 anos, de Caratinga (MG). Ela foi flagrada tentando obter visto com documentos falsos, em abril do ano passado. Para comprovar os vínculos de Maria da Conceição no País, "despachantes" em Belo Horizonte transformaram sua vida em "coisa de cinema": na ficha que apresentou no Consulado-Geral dos Estados Unidos em São Paulo, recebia salário de R$ 2,5 mil como proprietária de loja de confecções, seu filho estudava em colégio particular, possuía carro próprio e R$ 37 mil no banco. Na verdade, segundo seu depoimento, recebia menos de um salário mínimo (R$ 418), cortando tecidos, o filho já estava fora da escola e, na conta, tinha R$ 2 mil - que hoje, segundo conta, "se escafederam". "Mentiram na papelada toda. Paguei pelos serviços porque achava que precisava de tudo isso pra entrar nos EUA, fui enganada", conta Maria da Conceição, hoje desempregada e respondendo a processo por falsidade ideológica. "Quero esquecer." Ela foi uma das 33 pessoas denunciadas pelo Consulado Americano vindas de Minas num mesmo ônibus, acusadas de falsificação de documentos, que motivou a polícia a iniciar investigação. No caso de Miriam Lelles Correia Batista, de Ipatinga (MG), que responde a outro inquérito aberto pela 6ª Seccional, os "facilitadores" criaram vida ainda melhor. Segundo denúncia do consulado, ela declarou possuir imóvel de R$ 125 mil, dois veículos avaliados em R$ 52,6 mil, e contas correntes que chegariam a R$ 283 mil. Em depoimento, ela declarou possuir patrimônio de R$ 60 mil, "contando a casa que recebeu da mãe". Em nome do marido, foi criado um contrato de constituição societária de empresa própria, chamada Superação Alimentos, que ela afirmou desconhecer "totalmente". "Eles se aproveitam da desinformação dessas pessoas e fazem um trabalho muito mal feito. Não acredito que alguém consiga entrar nos EUA assim", disse o delegado Paulo Pereira de Paula, que chefia as investigações. "Cobram valores maiores quanto menos condições elas têm. Aí essa pessoa junta todo o dinheiro e, no fim, acaba com processo nas costas." Ontem, o Estado entrou em contato com uma empresa que anuncia serviços de "despachante consular" na internet. Em ligação gravada, uma funcionária chamada Clarissa afirmou que a operação da polícia tornou o processo mais criterioso. "Olha, eu posso montar toda documentação, mas nada que não seja legal", disse, questionada se era possível ajudar na obtenção de visto para quem não tem conta no banco nem emprego fixo ou filhos. "Vamos tentar mostrar tudo que você tem, para provar que você tem vínculo com o Brasil. Teria que dar uma boa analisada na situação. Tu tá indo para arrumar trabalho por lá, né? Teríamos que ver como você pode arranjar esse visto. Hoje, tá passando um pente fino ali nos despachantes... Então não estamos podendo acrescentar nada."

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