Filha única do Teatro Municipal

Rosa Corvino, 83, finaliza livro sobre local onde nasceu, mesmo brigada com a ?terra natal?

Fernanda Aranda, O Estadao de S.Paulo

15 Agosto 2009 | 00h00

Rosa Corvino é filha da arte. Chegou ao mundo em um dos corredores da mais importante casa de espetáculos de São Paulo. Cresceu entre as coxias que durante o dia ficavam silenciosas e à noite "dançavam" ao som das óperas. Tornou-se pianista inspirada nos ídolos que pareciam "tocar para ela antes de dormir". Virou mulher vendo as mulheres conseguirem virar artistas. Aos 83 anos, agora coloca um ponto final no livro que homenageia sua verdadeira terra natal. A paulistana foi a única que teve o privilégio de nascer no Teatro Municipal. O sobrenome Corvino, italiano, vem do avô paterno. O nome dela, Rosa, é igual ao da avó, bem brasileira. Já o sotaque cantado que narra a história - aquele que prolonga a segunda sílaba - é típico do centro de São Paulo, onde o imigrante Anielo Corvino desembarcou, conseguiu o primeiro emprego e constituiu família. "O arquiteto Ramos de Azevedo chamou vovô para tomar conta do seu teatro. Depois meu pai assumiu a posição de zelador, trabalho que levou até o fim da vida", lembra. "Ele e mamãe se casaram. Primeiro nasceu meu irmão e, quando chegou a minha vez, não deu tempo de a minha mãe deixar o Municipal para parir. Nasci dentro do teatro", conta. Rosa foi a única da prole (composta por quatro irmãos) que fez do palco sua maternidade. Deve ser por isso que nutre relação tão intensa com o espaço. Já brigou e fez as pazes inúmeras vezes com o Municipal, que foi o seu abrigo até os 25 anos de idade. Em 2003 se candidatou a monitora voluntária do teatro. No início de 2005, foi "convidada" a deixar a função. Um abaixo-assinado trouxe Rosa de volta para o cargo e, agora, prestes a lançar o primeiro livro sobre a história, ela novamente está brigada com a administração. "Sou revolucionária por natureza. Não é à toa que nasci dia 9 de julho, como se fosse um anúncio, quatro anos antes da nossa revolução (Revolução Constitucionalista de 1932)."A pose de briguenta, que substitui os olhos doces com frequência, ela assume sempre ao falar de medidas administrativas que envolvem o Municipal. Rosa não concorda com a maneira com que foram conduzidas as reformas e restaurações que fazem parte da história do local. Reclamou de todas. A atual obra, por exemplo, ela considera uma afronta e contesta tudo o que é feito. Parece que as intervenções são ofensas à memória da então menina que, toda vez que completava um aniversário, o pai dizia que tinha contratado uma atração especial só para ela. "Ele então me deixava assistir sentada na primeira fileira às óperas, bailados ou peças e dizia que os artistas tinham sido convidados só para me darem parabéns", repete, já de novo com os olhos doces. Esta não era a única brincadeira que envolvia a arte. No livro Vida, Amor e Lembrança, que Rosa espera lançar até o final de setembro, está escrito que as "sobras dos artistas" eram seus brinquedos prediletos. "Nos fins de semana, quando não havia espetáculo, o teatro ficava vazio", escreveu. "Enquanto papai dormia, eu e minhas irmãs íamos brincar no palco. Ali, dançávamos com as sapatilhas de ponta um pouco gastas que as bailarinas americanas deixavam no camarim. Ao contrário das russas, que usavam as sapatilhas até não ter mais como remendá-las."Passar a infância dentro do Municipal permitiu a Rosa não apenas saber as diferenças sutis entre o corpo de baile russo e o americano. Ela descreve características pessoais de referências internacionais artísticas. "Mário de Andrade era muito sério, nunca vi um sorriso nele. Já Ciccillo Matarazzo era a figura mais simpática que frequentava aquele teatro", lembra. "Villa-Lobos, um maestro perfeccionista, um dia me ouviu tocando piano e corrigiu a minha postura, uma honra."Na escola onde estudava, Externato São José, ninguém acreditava que o seu endereço era o Municipal. Mas os colegas que não duvidavam ela levava até a casa e os deixava assistir aos espetáculos que só a alta sociedade conseguia pagar para ver. Pode ter sido por influência de Villa-Lobos, mas quando já era adolescente, Rosa escolheu o piano para ser seu ganha pão. Recebeu o diploma de pianista de Dinorah de Carvalho, única maestrina da época. Foi então que a família Corvino precisou deixar o Municipal. Não era mais necessário que o zelador morasse no teatro. Foram todos para a Vila Mariana, na zona sul, e Rosa cultivou a primeira ferida de ressentimento contra a casa. Ela ficou afastada do Municipal durante 25 anos, trabalhando como historiadora. Voltou à sua casa, depois de muita briga, no final de 2005, como monitora. Deixou a função no início deste ano. "Encontro um pedaço da minha trajetória em cada canto do teatro. E, enquanto fui guia, gostava de levar os meninos de rua, que ficavam sem rumo pelas escadas do Municipal, para conhecer por dentro minha antiga casa. Fazia isso porque, se eu não tivesse nascido lá, nunca teria tido dinheiro para poder entrar."Desde o início do ano, Rosa não frequenta mais a sua "terra natal". Brigou novamente com a atual administração. Queria fazer o lançamento do livro no salão nobre do Municipal, mas se recusa a pagar os R$ 15 mil exigidos de aluguel da ala para eventos - valor cobrado de qualquer um que queira usar o espaço. "Talvez faça a festa em um restaurante ou livraria, mas não vou deixar passar em branco. Nunca casei, não tenho filhos, meu livro sobre o teatro é meu único legado", diz em tom de desânimo. Onde quer que seja o lançamento, na memória de Rosa Corvino estará cantando Bidu Sayão, sua cantora lírica preferida, que ela ouviu ao vivo. E em casa.

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