DUDU TOMASI/ESTADÃO
DUDU TOMASI/ESTADÃO

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

04 Dezembro 2016 | 05h00

SÃO PAULO - A artesã Rosângela Batista Tatin, de 39 anos, sempre se virou bem com o fato de ser filha adotiva. Mas, aos 35 anos, quando a mãe adotiva morreu, sentiu um vazio que não sabia explicar: precisava saber mais das origens e de sua família biológica. Em abril do ano passado, contou sua história em um grupo fechado de Facebook, onde deixou todos os dados de sua certidão de nascimento. O resultado veio poucos dias depois: um telefone e um endereço. 

Como Rosângela, centenas de filhos adotivos têm recorrido a grupos fechados e páginas na rede social para pedir informações do paradeiro de seus pais biológicos. O Estado conseguiu identificar ao menos dez grupos do gênero, com entre mil e 3 mil membros, mas seus criadores dizem que há mais de cem na rede. 

As páginas têm em comum depoimentos emocionados e desesperados daqueles que tentam entender mais de seu passado. Quem as controla são usuários da rede, voluntários de todo o País, de advogada a bancária aposentada. Sem cobrar nada, os grupos fazem uso de ferramentas virtuais que usam cadastros comerciais. 

Ilegalidade. A ação é vista com ressalvas pelo Ministério Público Estadual, já que as informações divulgadas por terceiros podem ser sigilosas (mais informações abaixo). Mas Rosângela não esperou nem um dia: ligou em seguida para o número que recebeu. “Aqui é a filha da senhora”, disse, sem nem saber direito quem estava do outro lado. E assim começou uma conversa que duraria horas e levaria mãe e filha a se conhecerem. “Hoje eu a chamo de mãe e nossa relação é de amizade. Vamos nos ver de novo na Páscoa.”

Apesar da distância de quase 800 quilômetros – a filha mora em Mariópolis, no sudoeste do Paraná, e a mãe, em Itajaí, Santa Catarina – marcaram um encontro que aconteceria meses depois. Não havia rancor: Rosângela conta que a mãe adotiva havia contado todos os detalhes – depois, confirmados. 

A mãe biológica, Lorena, sofreu nas mãos de dois homens quando engravidou: primeiro pelo próprio companheiro, que fazia faculdade em Curitiba (PR) e “mandou ela se virar”. Depois, do pai, que bateu na filha ao descobrir a gravidez e a fez fugir de casa. Foi para Pato Branco, a 17 quilômetros de Mariópolis, para trabalhar como enfermeira. “Ela precisava me dar para alguém senão o pai não a aceitaria de volta”, contou Rosângela. Doou a criança no mesmo hospital onde a teve. 

Rede. Rosângela decidiu retribuir a ajuda que teve e criou uma página no Facebook para ajudar outras pessoas. Trata-se de uma trajetória comum nos grupos: a dona da página em que ela publicou sua história, a assistente de administração Maria de Fátima Florentina, de 58 anos, moradora de Praia Grande (SP), também já tinha sido ajudada. 

“Fiz de tudo para procurar minha mãe biológica”, disse Fátima. Até que um dia recebeu uma dica na rede social de um policial militar do Mato Grosso, dizendo que a mulher tinha endereço na cidade de Nova Era, no interior de Minas. “Percorri os grupos de Facebook dessa cidade até que um socorrista me falou dela”, conta.

A progenitora não se interessou pelo contato e logo se esquivou. “Você é minha filha? Mas qual das que eu dei pra adoção?”, disse ao telefone. 

São minoria os casos que resultam em sucesso. A dona de casa Ana Santos, de 40 anos, de Jundiaí (SP), diz que já recorreu a diversos grupos e até hoje não conseguiu localizar o pai biológico. Apesar de ter todos os documentos do homem e seu nome, só obteve um endereço antigo. “Até procurei na rua, perguntei, mas ninguém sabia.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

04 Dezembro 2016 | 05h00

SÃO PAULO - Em várias páginas usadas por filhos adotivos, o Estado encontrou duas mulheres – uma bancária aposentada de 64 anos, moradora de Santos (SP) e uma advogada de 41 anos do Espírito Santo (ela não contou o município) – que publicam dicas e oferecem informações. Elas aceitaram ser entrevistadas sob a condição de que a reportagem não as identificasse. 

“Somos pessoas que se interessam em ajudar. Usamos sites pagos, de comércio, normalmente”, conta a aposentada Márcia (nome fictício). Ela tem até uma rotina: a cada nova postagem, pede um e-mail e envia uma série de anexos com dicas de como localizar informações dos pais, um documento para pedir dados em hospitais e até explicações técnicas sobre como ir à Justiça. 

“Uma dificuldade é que muitos foram adotados à brasileira, ou seja, a mãe adotiva vai ao cartório e diz que teve o bebê em casa. Arruma umas duas testemunhas e registra. Então ensinamos o procedimento de busca de nascimento no hospital”, conta. Ela diz que tem acesso aos sites que usa por empréstimo de amigos. “Quando você vai a uma loja, faz um cadastro. Quando vai a um banco, uma clínica, faz um cadastro.”

A advogada Miriam (nome fictício) diz que cada uma das voluntárias atua de maneira independente, da própria casa. “São mais de 50 grupos.”

Ela relata que muitas pessoas desistem rápido ou não sabem exatamente o que querem. “Ninguém pensa que pode ter sido retirado da mãe ou do pai, que pode ter havido abuso ou o motivo que levou o juiz a afastar o filho dos pais. Muitos só querem vomitar um sentimento de abandono”, diz. Além dos sites pagos, Miriam diz que são usados dados de bancos públicos, como o do Tribunal Superior Eleitoral. “Tudo dentro da legalidade.” 

Críticas. A ação dos grupos é vista com ressalvas pela promotora Eliana Vendramini, do Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos (Plid). Para ela, ainda que as intenções sejam boas, a divulgação de informações não autorizadas pode configurar crime. 

“Esse desejo de encontrar alguém pode ser satisfeito desde que você saiba os fins. Alguém pode pedir os dados, por exemplo, para querer resolver desavença. São informações sigilosas” diz Eliana. “Infelizmente há uma maioria boa que pode pagar por uma minoria má. Nenhum dado pessoal pode ser divulgado”, alerta. “Fins não podem justificar os meios.” 

Preste atenção:

1.O direito à busca da identidade está previsto no artigo 48 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que diz que adotados “têm direito de conhecer sua origem biológica” após completar 18 anos.

2. No caso de adoção “à brasileira” (quando os pais mentem no registro e dizem que o filho é biológico), pode-se fazer uma busca nos arquivos do hospital onde nasceu.

3. A busca de informações pessoais por terceiros pode ser considerada ilegal; de acordo com o professor Luciano Godoy, do Direito FGV-SP, a divulgação de dados pessoais, caso questionada pelo dono das informações, pode resultar em uma ação e até multa. Para adoções registradas, o filho pode recorrer à Justiça e pedir acesso aos dados do processo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

04 Dezembro 2016 | 05h00

SÃO PAULO - Apesar da facilidade de ação com as redes sociais, a busca por informações de familiares requer cuidados. Para a psicóloga comportamental Denise Diniz, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), é preciso evitar a exposição de outras pessoas envolvidas e também se perguntar qual é o objetivo da busca, sabendo das consequências.

“Estamos falando de uma busca de identidade e pela própria história. Pode dar muito certo e haver uma aproximação. Mas pode não dar e a pessoa, que já tem uma vida seguindo, ter uma surpresa”, diz. 

Ela ressalta que é preciso se perguntar sempre antes do porquê se está fazendo essa busca e o que se espera. “Muitas vezes a pessoa vai encontrar alguém completamente diferente da fantasia ou expectativa e pode se frustrar. Por isso a pergunta: o que eu estou esperando disto?” 

Cuidado. Ela lembra também que a exposição de informações de outras pessoas – a mãe, por exemplo – nas redes sociais pode gerar constrangimentos, e que a ação deve ser feita com cuidado. “Será que o outro quer ser exposto?”

Leia entrevista com Ceneide Cerveny, psicóloga da PUC-SP:

1. Por que há tanto interesse em buscar os pais biológicos, mesmo quando há uma boa relação com os pais adotivos?<MC>

Existe um sentimento que chamo de “vazio da origem”, muito angustioso nas pessoas que não sabem de onde vêm, não sabem a história da família de origem, seus antepassados e todo indivíduo tem o direito de saber do seu passado. O fato de estar bem, ser grato, gostar da família adotiva não elimina esse vazio.

2.Como os pais adotivos devem reagir a esta busca, quando assumida pelos filhos? 

Deixando procurar, ajudando na busca, quando possível, nunca fazendo adoções fora da lei e reconhecendo que seu filho é adotivo. Isso porque algumas famílias negam a adoção, escondem como se fosse uma coisa vergonhosa e não um ato de amor. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.