Filhos nas ruas e 70% dos pais com doenças mentais

Projeto aposta em diálogo para recriar vínculo familiar

Laura Diniz, SÃO PAULO, O Estadao de S.Paulo

03 de novembro de 2008 | 00h00

O menino W., de 13 anos, sonha como tantos em ser jogador de futebol. Começou a matar aula para jogar bola. Logo, pegou um atalho errado e começou a furtar para comprar doces. Dali para se viciar em drogas foi um pulo. Perdeu o rumo de vez quando, diante das reprimendas da mãe, fugiu de casa.A mãe, R., de 33 anos, hoje se penaliza por ter sido destemperada demais na educação do filho e por ter batido e gritado, em vez de conversar. Ela pode fazer parte dos cerca de 70% de pais com problemas mentais não diagnosticados, cujos filhos fogem para as ruas. O dado foi descoberto em pesquisa da psiquiatra Sandra Scivoletto, do Hospital das Clínicas, responsável pelo Programa Equilíbrio, que atua em parceria com a Prefeitura para reintegrar crianças de rua a suas famílias. Esse porcentual, segundo ela, "deve-se a componentes genéticos, stress e ambientes propícios para que as doenças se desenvolvam".A pesquisa apontou, também, que a maioria das crianças e dos adolescentes sai de casa por conflitos familiares, carências e miséria. Em números: 43% fugiram da violência doméstica, 42% após discussão em casa, 36% vivem sob o efeito de drogas e 26,3% já tentaram o suicídio.Longe de casa, segundo a psiquiatra, as crianças e os adolescentes criam os primeiros vínculos afetivos verdadeiros. "Na rua, se sentem compreendidos e formam uma família, unida na dificuldade", afirma Sandra. O objetivo do Equilíbrio é justamente resgatar os laços primários desses jovens com as famílias. Após sucessivas experiências, de outros projetos, mostrarem que não adianta tratar a criança sem tratar a família, o Equilíbrio dá igual importância para os dois.As crianças, a maioria vivendo em abrigos, mergulham em atividades saudáveis para ocupar o tempo e fazer terapia. Pais e mães também se tratam com psicólogos. Aos poucos, a família se reaproxima. "Às vezes, o primeiro contato é por carta; às vezes, por telefone. Depois, começam a se ver pessoalmente aqui e a criança, em seguida, passa a ir para casa a cada 15 dias", conta a psiquiatra.Nos primeiros dez meses de trabalho, completados em setembro, 18% das crianças atendidas pelo projeto voltaram para casa. Dessas, 12% seguem estáveis. Todos têm apoio psicológico. Com a terapia, R. descobriu que o filho não lidava bem com a morte do pai, quando tinha 2 anos, e não aceitava o padrasto. Percebeu também que, sem conversar com o garoto, a agressividade dele só aumentava.Depois de meses afastada de W., que internou num abrigo no ápice das crises, ela agora aguarda ansiosa o processo de desinternação do menino. "Ele já teve oportunidade de usar drogas de novo, quando foi me visitar, e não usou. Agora, pega no meu pé porque sou fumante. A relação com o padrasto melhorou e eu consigo conversar com ele, em vez de ficar brava e gritar", diz a mãe, emocionada.E W. está feliz porque chegou a hora de largar o abrigo, cheio de regras. Diz, todo tímido, que tem saudade da mãe e está ansioso para comer lasanha em casa. O sonho de jogar bola continua, mas, com o esforço de todos, será perseguido da forma correta.

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