Filme narrando seqüestro de ônibus será exibido em julgamento

O documentário Ônibus 174, de José Padilha, será exibido na íntegra em dois telões no 1º Tribunal do Júri, onde nesta terça-feira começa o julgamento dos três policiais militares acusados de matar por asfixia o assaltante Sandro do Nascimento, que seqüestrou o 174 em junho de 2000.É a primeira vez que um filme é exibido integralmente durante uma audiência no Tribunal de Justiça do Rio. ?Gostei do documentário porque ele tem uma dose de imparcialidade acentuada, o que é louvável. Não é maniqueísta, mostra a realidade dos fatos, e cada um faz a sua interpretação. Tanto que a exibição teve a anuência do Ministério Público e da defesa?, disse o promotor Afrânio Silva Jardim, que dividirá a acusação com a promotora Ana Cintia Lazary Serour.?Não vi o filme porque tive de operar o olho recentemente, mas pedi a assessores que o vissem. De acordo com o relato, há pontos positivos e negativos para a defesa, mas acho importante a exibição porque vai ajudar o Júri a completar a história real?, disse o advogado Clóvis Sahione, que defende os réus ? o capitão Ricardo de Souza Soares e os soldados Márcio de Araújo David e Flávio do Val Dias.Os três foram presos por 30 dias, após o crime, e depois voltaram a desenvolver atividades normais no Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar, onde estão até hoje. Soares, que teria segurado o pescoço de Nascimento dentro do camburão em que ele foi levado do local do seqüestro até o hospital, onde chegou morto, está terminando curso para major.David e Dias teriam segurado pernas e braços do assaltante, morto por asfixia segundo laudo pericial. O coronel José Penteado, então comandante do Bope, será ouvido como testemunha e poderá explicar se a ordem de não atirar no criminoso quando atiradores de elite estavam posicionados para fazê-lo partiu do então governador Anthony Garotinho (PSB).O desfecho foi trágico: quando Nascimento desceu do ônibus abraçado a Geisa, o cabo Marcelo Santos tentou acertá-lo, mas errou o alvo, numa ação supostamente sem autorização do comando ? ele ainda trabalha na PM, mas desenvolve atividades internas. O criminoso, então, disparou contra a refém. Na ocasião, Garotinho afastou Penteado e o comandante da PM, Sérgio da Cruz. As investigações da polícia inocentaram Santos.A família da professora Geisa entrou com pedido de indenização por perdas e danos materiais e morais contra o Estado. O julgamento está marcado para as 9 horas. Pelo menos 300 estudantes fizeram pedidos para acompanhar a audiência. O filme será exibido antes de as testemunhas serem ouvidas, após a leitura das peças pela juíza Maria Angélica Guedes.?Vai ser um confronto. Se os PMs forem condenados, quem vai bater palmas são os seqüestradores, traficantes, aqueles que vivem na marginalidade. Se estuprar a minha neta, eu mato. É hipocrisia da sociedade dizer o contrário?, disse Sahione, que defende a tese de que Nascimento era um ?terrorista urbano irrecuperável?.A acusação defende a tipificação de homicídio qualificado. ?Nossa função é buscar a Justiça?, disse Jardim.

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