Filosofia Budista

Sempre percebo de imediato quando é o Pasquale, o italiano do restaurante homônimo, ao telefone. Ele é meu amigo e vizinho. Sua cantina já é famosa aqui em São Paulo. Pasquale é conhecido também como compositor de sambas-enredo. É um dos pouquíssimos "estrangeiros" no ramo. Escreveu, entre outros, o hino do Grêmio Recreativo Social Cultural Escola de Samba Pérola Negra. Ligou no meu trabalho. "Ô, Matheus", disse com sotaque característico, em tom de barítono, e logo de cara: "Que número você calça?" "Quarenta e um. Por quê? Você vai sair, afinal?" "Nós vamos." Assim se definiram meus planos para o carnaval. Saio na Pérola Negra, a escola da Vila Madalena, com quadra lá perto de casa, faz alguns anos. De uns carnavais para cá, fui promovido à Velha-Guarda. Denuncia a idade. Passei da condição de tiozão júnior para tiozão sênior, sem, no entanto, atingir o patente de tiozão master, como diz o escritor e amigo meu Reinaldo Moraes. É uma honra sair na Velha-Guarda, sobretudo para um gringo como eu. Sempre admirei o carnaval. Não teria como recusar o convite do Pasquale. Duas semanas depois do seu telefonema encontrei com ele na rua das nossas casas. Descarregava um caminhão grande, lotado de fantasias da ala da "filosofia budista". O tema da Pérola neste ano é a Índia; e Buda estará presente. A escola desfila hoje à noite. É a segunda a entrar na avenida. Pasquale coçava a cabeça. As fantasias budistas não cabiam todas na sua casa. Precisava guardá-las em algum lugar. Este é um problema tipicamente brasileiro, diga-se. Nos Estados Unidos, por exemplo, é raro ter de buscar um lugar para armazenar dezenas de gigantescas fantasias de Buda. Ofereci minha garagem, que está com um ar de abandono desde que vendi o carro. E lá ficaram até outro dia. Vira e mexe, meu filho caçula, Samuel, levava os amigos escada abaixo até a garagem para mostrar as fantasias de Buda. Não sei o que pensava daquele amontoado de panos e armações a turma dos meninos de 5 anos. Provavelmente que o papai do Sammy é doido. Ou que preferem a fantasia do Homem-Aranha. O mais surpreendente, para o estrangeiro, é que uma escola de samba, qualquer uma, funciona. É uma grande produção de teatro musical, com milhares de sambistas, afinal. Muitos deles estreantes. A música é escolhida em eleições. Chegar ao sambódromo em dezenas de ônibus já é um feito. Se fosse apenas uma apresentação, vá lá. Mas não é. O desfile das escolas de samba no modelo carioca vale pontos. A competição entre as escolas é intensa. Qualquer desvio, um atraso, a quebra de um carro alegórico, é uma tragédia. Há uma mistura muito brasileira de disciplina e informalidade em nome da folia. E quanto mais moderna e global fica São Paulo mais cresce o desfile. Vamos lá, velha-guarda!

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