Fim de férias: Tuma Jr. resiste a pedir demissão

''Bombeiros'' tentam convencer secretário nacional de Justiça - investigado pela PF - a evitar constrangimento de ser exonerado por ato administrativo

Vannildo Mendes, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2010 | 00h00

O delegado Romeu Tuma Júnior, licenciado da Polícia Civil de São Paulo, não deve retornar ao cargo de secretário nacional de Justiça quando terminarem suas férias, na segunda-feira.

Desgastado com a denúncia de envolvimento com a máfia de contrabando de produtos eletrônicos comandada pelo chinês Li Kwok Kwen, conhecido como Paulo Li, preso em setembro pela Polícia Federal, Tuma Júnior teve seu destino selado ontem, em reunião de quase uma hora entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Justiça Luiz Paulo Barreto.

A forma do afastamento, porém, ainda está sendo negociada com o próprio secretário. Temperamental, ele resiste à ideia de pedir demissão, porque no seu entendimento seria uma confissão de culpa.

"Bombeiros" do governo passaram a tarde tentando convencer o secretário e evitar o constrangimento de ser demitido por ato administrativo. Lula autorizou Barreto a negociar uma saída não traumática com Tuma Júnior, fiel à sua praxe de não punir antecipadamente auxiliares enredados em inquéritos, sem condenação judicial.

Investigação. Gravações telefônicas e e-mails interceptados pela Polícia Federal durante a Operação Wei Jin, desencadeada no ano passado, revelaram ligações estreitas entre Paulo Li e o secretário, conforme série de reportagens publicada pelo Estado.

As interceptações da Polícia Federal mostraram o Tuma Júnior encomendando produtos eletrônicos ao contrabandista e acertando com ele providências para legalização de imigrantes chineses que chegam ao Brasil irregularmente em grande quantidade todos os anos.

Sob seu comando, o governo concedeu no ano passado anistia a 42 mil imigrantes ilegais, procedentes de 130 países. O segundo lugar no ranking ficou com os chineses (5.492), superados pelos bolivianos (16.881).

Um inquérito desmembrado a partir da operação revelou indícios de que Tuma Júnior teria transformado seu gabinete num balcão de negócios, a partir de assessores colocados por ele em postos-chave da secretaria.

O secretário é suspeito de corrupção passiva, advocacia administrativa e formação de quadrilha, crimes que, cumulativamente, somam mais de 12 anos de prisão.

No início deste mês, a PF fez cópias do HD do computador usado pelo delegado em seu gabinete. A diligência atingiu também o gabinete do diretor do Departamento de Estrangeiros, Luciano Pestana. A PF depende agora de autorização judicial, já solicitada, para acessar o conteúdo e analisar as novas provas colhidas.

Ouvido em depoimento que durou 13 horas numa comissão de sindicância aberta pelo ministro Barreto, Tuma Júnior admitiu que conhecia Paulo Li, mas negou ter conhecimento de suas atividades ilegais. Negou também que tivesse usado o cargo para favorecer amigos.

Procurado ontem pela reportagem, ele não foi localizado. A advogada Izaura Miranda, que o substitui nas férias, ficará no cargo até que o novo secretário seja escolhido.

PARA LEMBRAR

Suspeita de ligação com a máfia chinesa

No dia 5 de maio, o Estado revelou que o secretário nacional de Justiça foi investigado pela PF por suposta ligação com Li Kwok Kwen, conhecido como Paulo Li, apontado como um dos chefes da máfia chinesa de São Paulo. A PF tem indícios que tornam Tuma Jr. suspeito de "tráfico de influência" e de "crimes contra administração pública". O secretário nega acusações. No dia 12 de maio, ele foi afastado do cargo.

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