Financiamento de ação era desconhecido

Kenneth Serbin ressalta que, até revelação feita pelo ''Estado'', ''ninguém havia falado no volume de dinheiro envolvido''

Roldão Arruda, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2011 | 00h00

Para o historiador e brasilianista Kenneth Serbin, professor da Universidade de San Diego, na Califórnia, os documentos inéditos divulgados pelo Estado sobre a maneira como o cardeal Paulo Evaristo Arns coletou fundos para financiar projetos destinados a denunciar violações de direitos humanos na ditadura militar, constituem uma importante contribuição para o estudo daqueles episódios.

"Já era bem conhecido o apoio que o Conselho Mundial de Igrejas ofereceu aos projetos de d. Paulo. Não se conhecia, porém, os detalhes da operação de financiamento, revelados agora pelos documentos que estavam guardados em Genebra", disse ele. "Ninguém havia falado na quantidade de dinheiro envolvido e na forma como foi utilizado. São informações importantes para os historiadores."

Serbin é autor do livro Secret Dialogues: Church-State Relations, Torture, and Social Justice in Authoritarian Brazil, lançado em português com o título Diálogos na Sombra. O foco de suas pesquisas é justamente o diálogo e as tensões entre lideranças da Igreja Católica e autoridades militares nos anos da ditadura.

A expectativa do historiador é que os documentos pesquisados em Genebra possam revelar também quais foram as fontes do dinheiro obtido pelo cardeal e que lhe permitiu por em andamento uma das mais vigorosas ações de resistência à ditadura.

"Os recursos podem ter vindo apenas dos fundos normalmente mantidos pelo Conselho Mundial de Igrejas. Mas, considerando a quantidade de contatos que d. Paulo fazia, como diz a matéria do Estado, é possível supor que tenham tido mais de uma fonte. Quem, afinal, ofereceu aqueles US$ 329 mil? Foram diferentes igrejas? Havia alguma organização governamental envolvida?"

O historiador também observa que o cardeal Arns não era a única liderança eclesiástica que trabalhava para obter fundos destinados a financiar a resistência ao regime. "O arcebispo de Olinda e Recife, d. Hélder Câmara, também fazia contatos no exterior. Seu trabalho ainda não foi bem detalhado, mas sabe-se que existia, assim como o de outros padres e bispos."

Em relação aos microfilmes que acabam de ser encaminhados ao Ministério Público Federal pelo Conselho Mundial de Igrejas e que serão digitalizados e colocados à disposição de pesquisadores, Serbin diz que já não constituem novidade para quem tem acesso a arquivos históricos nos Estados Unidos e Europa.

"No Brasil, se algum pesquisador quiser consultar as páginas dos 707 processos da Justiça Militar que serviram de base para o livro Brasil: Nunca Mais, precisa ir até o arquivo Edgar Leuenroth, da Unicamp, e folhear as cópias xerocadas. No exterior, porém, algumas bibliotecas têm cópias desses microfilmes há bastante tempo. No início da década de 2000, um grupo de estudiosos, do qual eu fazia parte, tentou obter cópias desses microfilmes para bibliotecas brasileiros, mas não obteve recursos. Ninguém mostrou interesse em financiar o projeto. É irônico e ao mesmo tempo trágico saber que as instituições brasileiras serão as últimas a ter acesso a esses microfilmes."

PARA ENTENDER

Originais foram para Genebra

Os documentos a que o Estado teve acesso foram mantidos por anos nos arquivos do Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra, e revelam os bastidores da ditadura no Brasil. A documentação foi a base para o projeto de d. Paulo Evaristo Arns, que resultou na publicação de Brasil: Nunca Mais, em 1985.

O então secretário-geral do Conselho de Igrejas, Philip Potter, ajudou na coleta de fundos clandestinos para o projeto. Os processos sobre a ditadura eram copiados, enviados para São Paulo, onde eram microfilmados, e seguiam escondidos para Genebra. Quem chegava à Suíça com as informações retornava ao Brasil com dinheiro, escondido, para o projeto.

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