''Fiquei 3 dias num buraco e cercada de gente morta''

"Minha infância foi ótima até os 8 anos. Meu pai tinha de tudo no sítio. Plantava arroz, abóbora, feijão e milho. Tinha ovelhas, porcos e galinhas. Ele era contra o movimento dos caceteiros. Para se proteger deles, fez uma casinha de barro e palha no interior da mata para esperar. Dizia que em 1937 haveria uma coisa e todos nós iríamos para lá.

, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2010 | 00h00

Eu ajudei a amassar barro. Mas a casinha nunca foi usada. Ele mudou de lado. "Vamos nos preparar", disse. Fez alpercatas de couro, mandou tingir as roupas de preto e disse que a gente iria fazer uma viagem. Nossa casa ficou fechada. Passamos a noite vagando até chegar a Pau de Colher. Embaixo do umbuzeiro já estava cheio de gente. Era o Padrinho Conselheiro, homem branco, vestido de preto. De manhã, todo mundo se ajoelhava e tomava bênção.

A pessoa que seguia ele seria salva. Na latada, as pessoas dormiam. Eram colunas que sustentavam uma cobertura de palha. Aí foi chegando gente, chegando gente, todo mundo alegre. Os meninos brincando, as mulheres cozinhando. Foi lá que eu vi um espelho pela primeira vez. Olhei: "Ih, eu pareço com o Simão". Era um homem de rosto redondo que eu conhecia.

Chegaram os soldados, atirando. Todo mundo deitou no chão, meu pai, minha mãe. Colocavam os feridos na casa do Senhorinho. Os soldados foram embora. Passaram alguns dias, os meninos prepararam uma armadilha. Um soldado caiu no buraco encoberto por paus e folhas. Os meninos foram com cacetes, tocaram fogo, de longe sentia o fedor. Minha mãe já estava sabendo: "Olha, vocês morram, mas não passem para o lado de lá". Foi o que muita gente fez: morrer. Então, os soldados voltaram. Minha mãe mandava ficar rezando: "Jesus, Maria, José... a minha alma de vós é!" Foram três dias de fogo. Só pararam para abastecer as armas. Fiquei deitada.

Tinha uma mulher morta num buraco, entre dois troncos de umbuzeiro. Deitei ao lado. Depois, um casal me ajudou a tirar a mulher de lá para eu entrar e me proteger dos tiros. Todo mundo cheio de sangue. Fiquei naquele buraco ouvindo os tiros. Quando parava um pouco, eu saía do buraco para ver se encontrava alguém.

A primeira pessoa que encontrei foi minha mãe - tinha levado um tiro na perna, estava morta. Mais tiros. Voltei. Saí novamente do buraco. Encontrei uma irmã e um irmão. Um irmãozinho, o Batista, não sei se estava baleado, deitado, fraco, não aguentava andar. Pelejei, mas não consegui tirar meu irmãozinho. Estava mole, morreu assim. Não sei se morreu com bala nas costas, não deu para ver, ou se de fome ou de sede.

Outro irmão, Bernardino, o Dino, levou tiro na cabeça. Meu irmão Neuzinho também morreu de tiro. Minha irmã Madalena, que segurava no colo uma irmã menor, a Joana, estava na casa do Senhorinho quando tocaram fogo. Morreram queimadas.

A minha irmã Florisbela foi a única que escapou, e estou procurando ela até hoje. Minha avó, Andreza, cega, andava de bastão. Aí, quando ouviu tiros, fugiu em direção aos soldados. Foi morta. Nesses três dias de tiroteio, não comia nem bebia. A fome ainda passava. A sede é que era mais difícil de suportar. Fiz xixi numa latinha para acabar com a sede, mas não melhorou. Ninguém chorava. Vi um menino levar bala no rosto.

Quando foi de noite, todo mundo pingando de sangue, um soldado gritou: "Se não sair daí a gente mata todo mundo". O casal que me ajudou a entrar no buraco se levantou. Eu me levantei e fui segurando no vestido da mulher até chegar ao umbuzeiro. Então, andei por cima, assim, de gente morta.

De manhã, apareceram meu pai, a Cipriana e a Belinha. Ficamos ali. "Agora, vocês vão mostrar onde tem mais". Aí juntaram o pessoal em fila, com soldados no meio, como se a gente fosse prisioneiro. Fomos andando para Casa Nova. Passamos três dias andando, sem calçado, com fome. Paramos numa fazenda. Mataram um boi para nos alimentar.

Quando chegamos a Casa Nova, separaram homens, meninos e meninas. A gente ficou num casarão. Passamos oito dias lá. Trocamos as roupas que estavam com sangue. A Cipriana deu banho em mim e na Belinha.

Falaram que a gente ia voltar para casa. Todo mundo ficou alegre. Mas colocaram a gente dentro de um vapor no Rio São Francisco. Soube que a gente estava indo para outro lugar. À noite, o vapor parou em Juazeiro. De lá pegamos um trem para Salvador."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.