Fissura profunda

Conflitos entre PT e PMDB não são novidade e de certa forma fazem parte dessa aliança entre parceiros de naturezas tão diferentes. Colisões, portanto, são normais.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2011 | 00h00

Mas o entrevero entre o ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, e o vice-presidente da República, Michel Temer, na última terça-feira, ultrapassou o limite do habitual.

Quando Palocci telefonou para Temer transmitindo o recado da presidente Dilma Rousseff de que os ministros do PMDB seriam todos demitidos se o partido insistisse em contrariá-la na votação, Temer confrontou.

"Não precisa demitir, porque amanhã cedo mesmo todos entregarão os cargos", disse o vice-presidente.

Palocci insistiu, referindo-se especificamente ao ministro da Agricultura, Wagner Rossi, indicação pessoal de Temer, o que foi interpretado pelo vice como ameaça.

Disse isso ao ministro e terminou assim o telefonema. Palocci voltou a ligar desculpando-se, mas Michel Temer continuou perplexo. Com a rudeza da abordagem e também com o fato de ter sido tratado como subordinado de Palocci e não como o vice-presidente a quem deveria ser conferida a prerrogativa de falar diretamente com a presidente.

A história tem testemunhas dos dois lados, pois na hora do telefonema havia petistas com Palocci e pemedebistas com Temer.

Não significa que haja rompimento na aliança. Mas quer dizer que o cristal ficou trincado.

De público ninguém passa recibo. Apenas haverá manifestações, algumas de caráter oficial, em que o PMDB vai reiterar sua lealdade em relação à presidente e lembrar que no salário mínimo e no Código Florestal o partido votou 100% unido, uma vez a favor outra contra o interesse do Planalto.

E assim prosseguirá. Para o bem e para o mal. Ciente de que tem deveres, mas sem perder de vista os direitos a que considera fazer jus como sócio fundador da candidatura Dilma Rousseff.

Desfocados. Onze dias e uma intervenção (de Lula) depois, Palocci começa a se explicar e o faz ao PT em vez de fazê-lo ao País.

Onze dias e uma intervenção depois, Dilma começa a falar e o faz reclamando que a oposição faz política.

Assim é? Enquanto o PSDB se esfalfa no Congresso para tentar romper o mutismo do ministro Antonio Palocci sobre o crescimento de seu patrimônio, José Serra e Aécio Neves ocupam-se dos preparativos para disputar o poder na convenção nacional do partido, amanhã, em Brasília.

Ambos falaram quando o caso surgiu. Serra para dizer antes mesmo do Palácio do Planalto que Palocci era digno de toda confiança. Aécio para cobrar explicações só faltando pedir desculpas ao avisar que a intenção dos oposicionistas não era causar transtornos ao governo.

De lá para cá, período em que o PT acusou o PSDB de "armar" denúncia contra Palocci, de nenhum dos dois se ouviu palavra.

Quando eram governadores distanciavam-se dos embates dos tucanos no governo argumentando que suas funções eram administrativas e que exigiam boas relações com o governo federal. Vide a posição de ambos quando a bancada oposicionista se articulava para derrubar a renovação da CPMF no Senado.

Agora os dois são candidatos, cada qual à sua maneira, à Presidência em 2014. Aécio imbuído do espírito de líder da oposição, Serra empenhado em "discutir o Brasil".

É de se perguntar aos dois se a resistência de um ministro da Casa Civil em explicar enriquecimento abrupto e o ineditismo de se ter um ex-presidente no comando da articulação política do governo não são assuntos de interesse do Brasil.

Lideranças políticas que se pretendem candidatos podem ignorar questões desse porte?

Caso a ideia de ambos seja ficar longe de embates para evitar desgastes, convém lembrá-los de que uma eleição - como de resto ficou claro nas duas últimas - não se ganha do dia para a noite nem mediante titubeios.

Mal comparando, se apartam da cena tanto quando se alheia Antonio Palocci.

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