'Fizemos cagada', disse policial após matar jovem por engano

Quem afirma que o policial teria admito o erro com essa frase é o sobrevivente da operação policial

Evandro Fadel, O Estado de S. Paulo

14 de julho de 2008 | 16h52

O estudante Diogo Soldi Schuhli, de 21 anos, sobrevivente de uma mal sucedida perseguição policial em Porto Amazonas, a cerca de 80 quilômetros de Curitiba, no domingo, na qual foi morta Rafaeli Ramos Lima, de 20 anos, disse nesta segunda-feira, 14, que os dois policiais reconheceram na hora o erro que cometeram. "Um abriu a porta do carro (dentro do qual Rafaeli estava inconsciente por ter levado um tiro na cabeça), olhou para o outro policial que estava ao lado e disse: fizemos cagada", relatou Schuhli. O governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB), também classificou o episódio como "rigorosamente injustificável". "A posição do governo é de dureza. Os policiais deverão ser rigorosamente punidos e vão responder por tudo. Os policiais já estão afastados das funções e deverão receber uma punição exemplar", afirmou. Os soldados Luis Gustavo Landmann, que seria o autor do tiro que matou a jovem, e Dioneti dos Santos Rodrigues estão detidos no 1º Batalhão de Ponta Grossa. O governo pediu que o Ministério Público Estadual acompanhe o inquérito, que investiga o homicídio. O caixão com o corpo de Rafaeli foi acompanhado por cerca de 300 pessoas na manhã de ontem, passando pelo local onde foi morta e em frente ao destacamento da Polícia Militar, antes de chegar à Igreja Menino Jesus para uma missa e, depois, ao cemitério municipal. Uma faixa destacava: "Um policial incompetente tirou a vida de uma inocente". "Foi uma brutalidade", qualificou o pai da jovem, o caminhoneiro Jociel Antonio Machado Lima. Ele disse que a família deve entrar com ação de reparação contra o Estado. "Não pode ficar impune, quero ver a condenação", salientou. Rafaeli tinha a pretensão de cursar Educação Física e, na madrugada de domingo, voltava de um baile de formatura em companhia do amigo Diogo, que dirigia um Gol preto. "Descia pela BR-427 para fazer a conversão à esquerda, tinha acabado de passar por uma lombada e estava a 20 ou 30 quilômetros por hora, no máximo", disse. "No momento em que fui virar, a viatura da polícia apareceu sem mais nem menos." Segundo ele, o carro policial estava com as luzes apagadas. De acordo com a polícia, os policiais estariam perseguindo um carro preto, mais tarde identificado como um Palio carregado com cigarro contrabandeado. Ele já teria furado dois bloqueios antes de passar pelo trevo de Porto Amazonas. Durante a perseguição, houve uma colisão da viatura policial com o automóvel em que estavam os dois jovens. "Eles bateram e atiraram, o que é pior ainda", disse Diogo. "Minha sorte foi que consegui abrir a porta do carro, colocar a mão para fora e fazer sinal de que ia descer." Mesmo assim, foi atingido possivelmente por estilhaços de bala, que feriram a bochecha e quebraram três dentes. Os policiais mandaram-no deitar no chão. Somente então ele conseguiu se identificar. A cidade é pequena, com aproximadamente 4,2 mil habitantes, e quase todos se conhecem. "Eu confundi teu carro", teria dito o policial Landmann. Foi quando abriu a porta do Gol e reconheceu o erro: "Fizemos cagada". Rafaeli tinha recebido um tiro na cabeça e estava inconsciente. A ambulância foi chamada e conduziu-a para o hospital, mas ela não resistiu.  O comandante-geral da Polícia Militar, coronel Anselmo José de Oliveira, disse que foi uma "ação individualizada". "Trata-se de uma ação no meio de 18 mil policiais", destacou. "Em minha opinião, um erro de avaliação do policial, que vai responder de acordo com a lei." Ele ressaltou que não se trata de falta de treinamento. "Ele (Landmann) tem 11 anos de serviço, não tinha antecedentes que desabonassem a conduta, teve preparo como os demais e, no entanto, cometeu um erro", afirmou. O outro policial estava na corporação havia dois anos. O conselho de disciplina deve analisar a conduta de ambos. "O conselho vai analisar da possibilidade de eles continuarem na corporação, o que é muito difícil", disse Oliveira.

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