JB Neto/AE
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Florianópolis lidera ranking gay das capitais

Censo 2010 revela que 0,11% da população da capital catarinense é homossexual; especialistas acreditam que muitos não declaram opção sexual e número pode ser maior

Rodrigo Burgarelli e Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2011 | 16h31

SÃO PAULO - Florianópolis é a capital com maior concentração de gays do Brasil. Dados do Censo Demográfico de 2010 - o primeiro da história a perguntar sobre a opção sexual - mostram que 416 chefes de família declararam viver com um cônjuge do mesmo sexo na cidade catarinense. Isso representa apenas 0,11% dos seus 418 mil habitantes - o porcentual, porém, é seis vezes maior que o de Teresina (PI) a última no ranking dos casais declaradamente homossexuais do País.

 

No total, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) encontrou 60 mil brasileiros que declararam viver com alguém do mesmo sexo. Especialistas e militantes de movimentos gays afirmam que, provavelmente, o número de homossexuais é muito maior. Além dos dados contemplarem apenas os casais que moram sob o mesmo teto, há a questão da subdeclaração. "Muitas pessoas ainda têm medo e timidez de se declarar", explica Franco Reinaudo, da Coordenadoria de Assuntos da Diversidade Sexual da Prefeitura de São Paulo.

 

Em segundo e terceiro lugar na lista das capitais estão Porto Alegre e Rio de Janeiro, onde 0,10% e 0,09% dos habitantes, respectivamente, dizem viver com alguém do mesmo sexo. O quarto lugar é de São Paulo, com 0,067%. Em números absolutos, porém, a capital paulista lidera de longe o ranking - são 7.527 gays e lésbicas nessa condição, quase 13% de todos os que se declararam em todo o País. Esse número, até mesmo, mostra como os dados do Censo podem estar subestimados - a Prefeitura de São Paulo estima que cerca de 1 milhão de homossexuais vivam na cidade, vários deles vindos do interior para se assumir na capital.

 

Em Florianópolis, porém, a explicação principal é outra. "Existe o fenômeno do gay que vem das pequenas cidades de Santa Catarina, mas Floripa é conhecida como a cidade mais ‘gay friendly’ do País. Tem gente que vem de Porto Alegre, de São Paulo e até de outros locais do mundo", diz Tiago Silva, organizador da Parada da Diversidade catarinense. Ele diz que outro diferencial da cidade é o alto grau de tolerância da população heterossexual. "O índice de violência homofóbica em Florianópolis é quase zero. E isso também acontece em outros pontos com maior concentração de gays e lésbicas do Estado, como Balneário Camboriú, no litoral norte, e Criciúma, cidade próxima das praias do litoral sul."

 

A jornalista Ana Carolina Gonzaga, de 24 anos, concorda. "Florianópolis tem uma população muito tolerante, ao contrário de muitas capitais do Brasil em que o preconceito predomina", afirma. Ela é natural da cidade e vive há cinco anos com a paulistana Suzana Santos, de 25 anos. "Tenho inúmeras amigas e amigos que vieram de outros Estados para nos visitar e por aqui ficaram por se identificarem com a cidade e sua tolerância", conta Ana Carolina.

 

 

Diferenças. Se for levado em conta todas as cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes, é a cidade de Maricá, na região metropolitana do Rio, que tem o maior porcentual de homossexuais (0,12%). "Esse dado é muito revelador. Maricá não possui uma cultura gay como há no Rio, com baladas, ONGs etc. São pessoas que nasceram lá e assumiram sua homossexualidade além das fronteiras culturais da capital", diz Cláudio Nascimento, coordenador do programa estadual Rio Sem Homofobia.

 

O ranking das grandes cidades também mostra a diferença da concentração de homossexuais nas cinco regiões brasileiras. Dos 10 municípios com mais gays e lésbicas, oito são das regiões Sul e Sudeste - apenas Marituba (PA) e Parnamirim (PE) são as exceções. Na outra ponta da lista, estão cinco cidades do Norte e do Nordeste - em Cametá (PA), apenas 2 dos seus 120 mil habitantes se declararam ao Censo. Entre os Estados, de maneira geral, apenas Rio Grande do Norte e Ceará estão nos dez mais. Já entre os que registraram menos homossexuais, o único das Regiões Sul e Sudeste é Minas.

 

(Com Júlio Castro)

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