Fogo destrói Teatro Cultura Artística

Apenas afresco de Di Cavalcanti saiu intacto do incêndio que durou mais de 4 horas em SP

O Estadao de S.Paulo

18 Agosto 2008 | 00h00

Um incêndio que durou mais de quatro horas destruiu na madrugada de ontem grande parte do Teatro Cultura Artística, localizado na Rua Nestor Pestana, na região central da capital paulista. O teatro é um dos mais tradicionais de São Paulo e foi inaugurado em março de 1950 com um concerto de Heitor Villa-Lobos. O Corpo de Bombeiros foi acionado às 5 horas e, às 8h30, havia controlado as chamas. O afresco de Di Cavalcanti na fachada, com 48 metros de largura e 8 de altura, foi uma das poucas peças não danificadas. O teto desabou, uma sala foi inteiramente incendiada, outra ficou alagada e todo o figurino das peças O Bem Amado e Toc Toc, além de dois pianos, mesas de som e de luz e outros equipamentos foram destruídos. Ninguém ficou ferido. De acordo com o coronel do Corpo de Bombeiros João dos Santos de Souza, o primeiro e o segundo andar foram inteiramente destruídos - ali ficam a administração, salas de escritório e a sala Esther Mesquita, com capacidade para 1.156 lugares. Segundo informações iniciais dos bombeiros, o fogo começou no primeiro andar e foi para o piso de cima. "As causas ainda serão investigadas e podem ser várias: um curto-circuito, a queda de um balão ou pode ser até criminoso", afirmou. Há suspeita de que uma explosão num prédio vizinho possa ter provocado o incêndio. Peritos do Instituto de Criminalística fizeram análises no teatro. O laudo deve demorar de 10 a 20 dias. O administrador do teatro Paulo Calux disse que o porteiro do prédio chegou a ver uma bola de fogo no palco. Foi o porteiro, identificado no boletim de ocorrência como Eusébio Marcos, que acionou os bombeiros. Há 14 anos trabalhando no teatro, ele sentiu cheiro de fumaça às 4 horas. Subiu as escadas, abriu as portas da sala Esther Mesquita e viu fumaça e parte das paredes desmoronando. Segundo o delegado Eduardo Brotero, do 4º DP (Consolação), onde foi instaurado o inquérito, o porteiro não mencionou a ocorrência de um balão. Calux afirmou que há 15 dias o teatro passou por uma vistoria dos bombeiros. "O teatro passou em primeira instância na vistoria. É um modelo de segurança." Para evitar que moradores de um prédio vizinho, na Rua Martinho Prado, fossem intoxicados pela fumaça, o local foi evacuado pelos bombeiros e Defesa Civil. Todos tiveram que deixar seus apartamentos e só voltaram às 8 horas. FALTA D?ÁGUA Inicialmente, os bombeiros controlaram o fogo pelo lado de fora do teatro, com jatos de água. Mas problemas em um hidrante na esquina da Nestor Pestana com a Martinho Prado dificultaram o trabalho de combate ao fogo. "Por ter sido depredado, esse hidrante não pôde ser usado pelos bombeiros. Então, tivemos que usar outros hidrantes mais distantes e carros-pipa, o que dificultou e atrasou um pouco o nosso trabalho", explicou o coronel Souza. Marli Dias, moradora de um prédio na Nestor Pestana há 30 anos, destacou o problema. "Os bombeiros chegaram e os hidrantes não tinham água, o que é um absurdo. As labaredas estavam muito altas e o fogo consumiu tudo rápido", disse Marli. "O fogo começou por volta das 3h30, escutei uns estalos e vi o fogo. Logo o teto caiu." Moradora da mesma rua, Edna Figueiredo Coutinho afirmou que os bombeiros posicionaram a escada, mas não começaram a combater o fogo logo. "Não tinha água para a combater o incêndio", afirmou a moradora da região há 22 anos. O trabalho dos bombeiros utilizou 15 viaturas e 45 profissionais. Equipes da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e da Polícia Militar também foram acionadas. O prédio foi interditado pela Prefeitura. Toda a programação de espetáculos foi cancelada e transferida de local pela administração do teatro. Na noite de sábado, as peças O Bem Amado, que estreou em abril, e Toc Toc, em cartaz desde maio, foram apresentadas normalmente. A Orquestra da França iria se apresentar no Cultura Artística nesta semana. "Os espectadores que já compraram ingresso terão o dinheiro devolvido", informou Calux. "O prejuízo cultural é muito maior que o financeiro." Por volta das 16 horas, funcionários da Secretaria de Habitação vistoriaram o local. BIA RODRIGUES, DIEGO ZANCHETTA, EDUARDO REINA e RODRIGO BRANCATELLI

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