Foi apenas uma experiência antropológica

Depois que a gente já tirou o time de campo, ali pelas 2h, tio João está entrando no jogo. Avançando pelo círculo central, o Love Story se encontra a um quarteirão do Edifício Itália, a 50 metros do antigo Hilton Hotel, bem na frente do Copan, em São Paulo. Ladeado por esses prédios de casaca, o andar térreo ocupado pelo LS (assim carinhosamente chamado) desaparece sob o peso de uma construção mixuruca de três andares localizada na Rua Araújo, 224. Isso, porém, só acontece de dia. Porque, de madrugada, quando tio João está se levantando da cama, quer dizer, do sofá de dois lugares instalado no escritório da boate, não há nada mais atraente naquele pedaço do que "a casa de todas as casas" - este o seu slogan, sem falsa modéstia.O mineiro João Tiago de Freitas, o tio João, é "o operacional da casa", o gerente do Love Story. A casa, por sua vez, é tipo um bordel. Mas garotas de programa não vão ao LS para fazer programa, embora a vida de frila raramente permite recusar trabalho. Vão para se divertir depois do trampo, ou seja, o Love Story é a happy hour delas. A frequência atiçou instintos em outras áreas e, uma ou duas matérias de jornal, publicadas há mais de uma década, transformaram o Love Story num ajuntamento de gente de toda espécie - do playboy da Vila Olímpia ao motoboy de Itaquera, mordendo até o calcanhar sujo da Vila Madalena. É aquele lugar para o qual, precisando, cabe sempre a desculpa: "Eu estive lá, meu bem, mas foi apenas uma experiência antropológica."Tio João gerencia o LS desde que a casa abriu, há 18 anos. Está com 58. Não trabalha na noite por necessidade - ele gosta da noite e já estava decidido a trocá-la pelo dia quando chegou a São Paulo, em 1972, vindo de Iturama (MG). Esse aspecto contribuiu para o tabagismo, o alcoolismo e os "200 casamentos" consumidos ao longo do tempo. Sem contar os "muitos outros pecados" que impedem esse "católico apostólico romano" de comungar: "Eu não vou fazer uma hipocrisia dessa, né?" Há dois anos, porém, tio João foi obrigado a "renunciar". Enfartou. O problema não mudou os seus horários: "Eu só durmo picado, cê tá mineneno?" (um "cê tá me entendendo" escorregadio e nasalado).Tio João foi picado lá atrás pela mosca do prostíbulo ao celebrar seu aniversário de 15 anos na zona de Iturama. Porém "estava na janela quando passou minha mãe com meu cunhado". Em São Paulo, ao trocar de lado no balcão, se tornou exímio gerenciador de boates, digamos com parcimônia, não-convencionais. Transformou-se no mais concorrido "psicólogo" de clientes e garotas de programa (viria daí o tio, um pai para as primas). Concluiu ser "a noite muito solitária, cê tá mineneno?". Ele nunca teve emprego fora do centro. Trabalhou sempre à noite. Há três décadas tio João é um ponto de vista curiosíssimo das coisas que acontecem enquanto estamos dormindo.

Fred Melo Paiva, O Estadao de S.Paulo

12 de janeiro de 2009 | 00h00

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