Foliões em Salvador aproveitam para homenagear Iemanjá

Tradicional festa do candomblé coincidiu com o sábado de Carnaval

Tiago Décimo, de O Estado de S. Paulo

02 de fevereiro de 2008 | 19h14

A coincidência de uma das mais tradicionais festas do candomblé na Bahia, o dia de Iemanjá, a rainha das águas, cair no sábado de carnaval fez a alegria dos visitantes que estão em Salvador para aproveitar a folia de momo. Já na noite de sexta-feira, enquanto Ivete Sangalo, Chiclete com Banana e Gilberto Gil, entre outros, desfilavam pelo Circuito Dodô (Barra-Ondina) e personalidades de várias áreas acompanhavam a festa dos camarotes, o bairro boêmio do Rio Vermelho, principal palco das homenagens à orixá, estava repleto de paulistas, cariocas, mineiros e turistas internacionais, curiosos e encantados com a tradição de oferecer presentes à vaidosa rainha.   - Galo da Madrugada, maior bloco do mundo, agita Recife   - 100 mil vão a São Luiz do Paraitinga para pular Carnaval ao som de marchinhas   - Cordão da Bola Preta abre sábado de carnaval no Rio   "Sempre sonhei em participar da festa, mas no sábado, pelo que sei, o Rio Vermelho fica muito cheio", afirmou a advogada paulistana Maria Rita de Castro, de 32 anos, enquanto deixava seu presente a Iemanjá (uma pequena cesta de vime, com flores e um espelho). "Já me disseram que sou filha dela. Não custa pedir por um ano bom."     Maria Rita tinha razão. Já no início da manhã de sábado, moradores, religiosos e turistas começaram a chegar às centenas ao Rio Vermelho, cheios de oferendas, seguindo uma tradição iniciada pelos pescadores do bairro em 1923. "No início, era apenas um pedido à rainha para que o mar fosse generoso com os que trabalham com a pesca", conta o presidente da colônia de pescadores do bairro, Eurílio Menezes. De acordo com ele, com o tempo, a festa foi ganhando força na cidade e, em meados da década de 1960, ganhou a forma e a influência que tem hoje. Reza a tradição que, no raiar do dia, uma alvorada de fogos saúda a orixá, seguida de diversas manifestações religiosas. Já por volta das 16 horas, o balaio que contém as oferendas reunidas nos principais terreiros de candomblé da capital baiana é lançado ao mar. Da oferenda, segue-se a festa, que não tem hora para terminar.     Este ano, por causa da coincidência de datas com o carnaval, a prefeitura de Salvador resolveu dar mais peso à celebração. Para isso, convocou o músico Carlinhos Brown para fazer a concepção artística da homenagem. No fim, foi concebido um evento que, da noite de sábado à madrugada de domingo, foi integrado por cinco palcos, nos quais os visitantes puderam acompanhar espetáculos musicais de todos os gêneros - do samba-de-roda do recôncavo ao rock, passando por bossa-nova e, claro, axé.     Segundo Brown, porém, a principal preocupação que ele teve foi em não descaracterizar a tradição. "Nossa mãe merece uma festa clássica", argumenta. Além dos palcos e dos shows, o Rio Vermelho ganhou uma decoração mais vistosa este ano.     No alto das ruas que margeiam a orla, por exemplo, foi instalada uma rede de pesca de 600 metros de comprimento, lembrando das origens da festa. De frente para o mar, foi colocada uma obra com 9 metros de largura por 4 metros de altura, esculpida em aço pelo artista plástico Ruy Viana, simbolizando um peixe.     O próprio Carlinhos Brown fez uma série de apresentações durante o dia. Convidou músicos diversos - de Caetano Veloso e Gal Costa a Cláudia Leite - para participar das homenagens e comandou cortejos e desfiles em homenagem à orixá, sempre acompanhado por músicos tocando instrumentos de sopro e de percussão.     Aos visitantes, apesar do desconforto com a multidão que se aglomerou no bairro ao longo do dia, a impressão foi de surpresa e encantamento. "Claro que já tinha ouvido falar desta festa, mas nunca imaginei que ela fosse tão grande", conta o técnico em enfermagem Laurentino Casso, de 41 anos. Em seu primeiro carnaval na capital baiana, o mineiro de Uberlândia garante ter ficado bem mais impressionado com a celebração a Iemanjá que com o carnaval em si. "É de arrepiar."

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