Manaure Quintero/Reuters
Pessoas fazem fila para receber alimentos em meio a pandemia do novo coronavírus.  Manaure Quintero/Reuters

Fome aumenta 43,7% em 5 anos e Brasil tem 1ª piora em segurança alimentar, diz IBGE

Quadro é mais grave no Norte e no Nordeste; quase 85 milhões de brasileiros moram em casas com alguma restrição de acesso à comida

Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2020 | 10h00
Atualizado 17 de setembro de 2020 | 21h44

RIO - Mais de um terço da população brasileira apresentou algum grau de insegurança alimentar no biênio 2017-2018, maior índice registrado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) desde 2004, quando o levantamento foi feito pela 1ª vez. A pior situação está no Norte e no Nordeste, onde menos da metade das casas tinha garantia de alimento.

Segundo o estudo, 84,9 milhões de brasileiros - de uma população estimada em 207,1 milhões -moravam em domicílios com algum grau de insegurança alimentar em 2017 e 2018. Do total, 10,3 milhões enfrentavam insegurança alimentar grave - não tinham acesso suficiente a alimentos e passavam fome, incluindo crianças. O aumento foi de 43,7% desde a pesquisa anterior, em 2013. 

Os números fazem parte da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017-2018: Análise da Segurança Alimentar no Brasil, divulgada pelo IBGE nesta quinta-feira, 17. Foi a primeira vez na série histórica que houve queda nos níveis de segurança alimentar dos brasileiros. É considerado em insegurança alimentar um domicílio que apresenta incerteza quanto ao acesso de comida no futuro ou que já apresentam redução de quantidade ou qualidade dos alimentos consumidos.

Quanto maior o índice de insegurança alimentar, menor é o consumo por pessoa de hortaliças, frutas, produtos panificados, carnes, aves, ovos, laticínios, açúcares, doces e produtos de confeitaria, sais e condimentos, óleos e gorduras, bebidas e infusões, além de alimentos preparados e misturas industriais. A preferência, nesses casos, é por cereais e leguminosas, farinhas, féculas e massas, e pescados. A compra de arroz e feijão é maior nos domícilios que apontam dificuldade no acesso a alimentos em relação àqueles que não apresentam.

Foi a primeira vez que o índice de segurança alimentar no Brasil apresentou queda. Em 2004, 65,1% da população do País dizia ter acesso garantido à alimentação. O número passou para 69,8% em 2009 e para 77,4%, em 2013. Na mais pesquisa mais recente, porém, caiu para 63,3%.

Gerente da Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE, André Martins vê como uma das prováveis causas da queda a grave crise econômica pela qual passava o País. "Muitas pessoas passaram da segurança alimentar para uma insegurança alimentar leve", comentou.

A situação mais grave é vista no Norte, onde apenas 43% dos domicílios tinham acesso garantido a alimento. No Nordeste a situação era um pouco melhor, mas ainda assim não chegava à metade das residências (49,7%). A Região Sul, por sua vez, apresentava os melhores porcentuais (79,3%), seguida da Sudeste (68,8%) e Centro-Oeste (64,8%).

Uma outra pesquisa, divulgada no final de agosto pelo Unicef mostrou um cenário semelhante. Em meio à pandemia, um em cada cinco adultos não teve dinheiro para comprar mais comida quando o alimento de casa acabou. O estudo mediu os impactos da covid-19 em crianças e adolescentes, em três aspectos: segurança alimentar, renda familiar e acesso à educação. O levantamento mostrou que, das famílias em insegurança alimentar, 27% afirmaram ter passado por pelo menos um momento em que os alimentos acabaram e não tiveram como repor, enquanto 8% deixaram de fazer alguma refeição por falta de dinheiro.

Além disso, o aumento no preço do arroz durante esse período da pandemia impôs  nova dificuldade às famílias. Um pacote de cinco quilos de arroz, que normalmente custa R$ 15, chegou a custar R$ 40. O governo federal descartou um tabelamento para combater a alta de preços do produto e disse que trabalha para que o cenário volte à normalidade. 

Os pesquisadores do IBGE também perguntaram uma avaliação aos entrevistados sobre seus padrões de alimentação, moradia, saúde e educação. Quase a metade (49,7%) das famílias que relataram sentir insegurança alimentar grave classificaram como ruim o seu padrão de saúde, enquanto quase dois quintos (33,9%) dessas famílias avaliaram como ruim o seu padrão de alimentação.

'Vida real é muito difícil', diz trabalhadora informal do centro do Recife

Izavânia Lima de Arruda, de 42 anos, sustenta sozinha a casa em que mora com quatro filhos menores de idade no bairro de São José, no centro do Recife. Trabalhadora informal, ela diz fazer “o que aparece” para manter a casa, algumas vezes trabalha como manicure, outras como diarista. “Eu faço de tudo para manter minha família, só não vendo droga e nem roubo ninguém”, disse.

Como beneficiária do Bolsa Família, ela recebe R$ 250 mensais, e com os trabalhos que consegue fazer ao longo do mês, uma média de R$ 700. Contudo, a soma dos valores não é suficiente para arcar com todas as despesas e sempre ter comida na mesa. Por isso, Izavânia e a família dependem também de doações. “Juntando todo o dinheiro que ganho, ainda é muito difícil manter a casa nessa situação, ainda mais com crianças pequenas. Tem comida para dar, roupa, remédio quando alguém fica doente. Mas graças a Deus eu sou muito querida onde moro e sempre consigo doações das pessoas, como cestas básicas”, disse.

Durante a pandemia, Izavânia tornou-se beneficiária do Auxílio Emergencial, o que, junto com as doações que recebeu, fez com que a situação se tornasse suportável. “Na pandemia, a situação ficou razoável, porque recebi muitas ajudas. Para mim, o pior ano foi 2016, porque sempre faltava alguma coisa, comida, remédio para as crianças. Eu só conseguia ganhar R$ 10 por dia. Por isso, eu não falo só da pandemia, porque a pandemia vai passar. Eu falo da vida real, que é muito difícil”. /COLABOROU PEDRO JORDÃO, ESPECIAL PARA O ESTADÃO

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Análise: Fome no Brasil não é problema do passado e paupérrimos estão em baixa

As evidências desafiam aqueles que acreditam que a fome é coisa do passado no Brasil. É preciso colocar na ordem do dia os programas sociais voltados aos mais pobres dos pobres

Marcelo Neri*, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2020 | 18h53

O Brasil hoje conhecido como a “Fazenda do Mundo” é também, terra de Josué de Castro, autor de Geografia da Fome de 1943, e de Betinho, criador da ONG Ação da Cidadania contra a Fome e a Miséria, mais ativa do que nunca em plena pandemia. O brasileiro confere alta importância ao tema perdendo apenas para saúde e educação entre 16 temas ligados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. De fato, insegurança alimentar está associada a prevalência de doenças crônicas, baixo desemprenho escolar, baixa produtividade trabalhista, entre outros.

As evidências sobre o binômio segurança/insegurança alimentar apresentadas na POF/IBGE 2017-18 desafiam aqueles que acreditam que fome é coisa do passado no Brasil. A insegurança alimentar que tinha caído de 34,9% dos domicílios em 2004 para 20,5% em 2013, volta a subir chegando a 36,7% em 2018. Antes que ataquem o mensageiro, observamos o mesmo drama em evidências internacionais sobre o Brasil, já incluindo 2019.

No período 2014 a 2019, observamos aumento de extrema pobreza baseada em renda de 67%, com pioras em todos os anos, inclusive no último. Neste período, fizemos um ajuste fiscal nos pobres, desidratando o Bolsa Família. Medidas subjetivas de fome caminharam de mãos dadas com a extrema pobreza cujos movimentos foram ditados pelas políticas sociais. Em fase de parcos recursos fiscais, é preciso colocar na ordem do dia os programas sociais voltados aos mais pobres dos pobres. Em casa onde falta pão, todos brigam e ninguém tem razão.

*É diretor da FGV Social, ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e ex-ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE)

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